as águas, os ataques e os aproveitamentos políticos

(publicado originalmente na página Almeirim 2017)

Quando tudo parecia correr às “mil maravilhas” no reino cor-de-rosa que é Almeirim, eis que os problemas com uma conduta que abastece de água a cidade, levaram a que se levantasse um coro de vozes, nomeadamente nas redes sociais (vulgo Facebook), contra o presidente do município, criticando e exigindo soluções rápidas. Logo a seguir e em resposta, um outro coro, desta feita dos defensores do autarca, acusando os primeiros de ataques políticos em plena época de campanha eleitoral para as próximas autárquicas.

Vamos por partes. O Município de Almeirim não tem responsabilidade directa nos problemas que possam existir na rede de abastecimento de água ao concelho. Com a criação da empresa intermunicipal Águas do Ribatejo, a gestão e a exploração dos sistemas de abastecimento e distribuição de água para consumo público e de saneamento de águas residuais, passaram dos municípios que a integram para a empresa. No entanto, e como o Município de Almeirim é um dos accionistas da empresa, tem a sua quota-parte de responsabilidade no que à gestão da empresa diz respeito, nomeadamente ao nível da prevenção de situações desta e na criação de mecanismos que permitam minorar os efeitos que um problema destes tem junto das populações.

[Apenas um esclarecimento depois de alguns comentários que li. Com a passagem para a Águas do Ribatejo, a água não foi privatizada. A empresa intermunicipal Águas do Ribatejo é uma entidade cem por cento pública, cujos estatutos não permitem, sequer, a entrada de parceiros privados. Na minha opinião, uma medida populista e com um forte cariz ideológico, que não impediu a empresa de proceder a aumentos tarifários bem acima dos valores da taxa de inflação e de apresentar, em 2016, lucros superiores a um milhão e meio de euros.]

Quando se transformam as redes sociais numa espécie de diário público, na maioria das vezes com publicações que não passam de meras manifestações de propaganda política, não é de estranhar que aqueles que se sentiram atingidos por este problema usem as mesmas redes sociais para pedir explicações sobre o sucedido e para ali derramarem o seu descontentamento (seria bastante melhor para a nossa democracia que usassem o boletim de voto mas, o mais provável, é que nem se dignem a votar). Não os podemos acusar de ataques políticos em época eleitoral. Apenas estão a usar as mesmas armas que outros usam durante quatro anos para efeitos propagandísticos.

o engraxanço e o culambismo português

5f5b8269cd2931cd7c52246d95f13d85«Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço». Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.
Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada. O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador.

Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu. O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu. Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo.

(…) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional. O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês.»

Miguel Esteves Cardoso, in ‘Último Volume’

(texto retirado daqui)

aproveitamento político

«O mistério do aproveitamento político dos mortos de Pedrogão é tão mais espantoso quanto as mesmas pessoas que agora consideram ser aproveitamento político querer saber quantos e porquê morreram em Pedrogão, levaram o período entre 2011 e 2015 a denunciar os mortos da austeridade. Eram as pessoas que morriam com fome, os que se suicidavam, os que desistiam de viver… Curiosamente nunca então se colocou a questão do aproveitamento político.» (daqui)

um “não” decente

joão miguel tavares«Dizer isto não é isentar de erros Carlos Costa, Cavaco Silva, Maria Luís Albuquerque ou o próprio Passos Coelho. Uma resolução como a do BES é de tal forma complexa, e teve de ser executada com tal rapidez, que muitos erros terão sido cometidos. Além disso, não restam hoje quaisquer dúvidas de que o Banco de Portugal terá compactuado com Salgado durante demasiado tempo, apesar dos inúmeros alertas e do obsceno recebimento de “liberalidades”. Contudo, é muito fácil apontar alternativas depois dos factos consumados. Independentemente de ser possível fazer melhor, o que me interessa sublinhar aqui é esse “não” central, inédito e relevantíssimo ao Dono Disto Tudo, que conduziu à destruição, nas suas próprias palavras, “do nome Espírito Santo”, apagando “das fachadas dos prédios uma marca com mais de 140 anos”. A importância desse gesto não pode ser desvalorizada: a aparatosa queda do BES é a destruição da impunidade mais desbragada e de uma certa forma de fazer negócios, que dominou o país durante pelo menos duas décadas.» (daqui)

“donos ideológicos disto tudo”

gentil martins«Já há vários anos que os “donos ideológicos disto tudo” têm conseguido catequizar o povo. Ao longo do tempo, através de um sistema de rega gota-a-gota, conseguiram doutrinar as massas, e os seus clichés ideológicos foram aceites como dogmas de fé. Infiltraram-se no Estado, mais precisamente nos capilares do Ministério da Educação e da Saúde, com a sua cartilha fraturante, criando muitas vezes um clima de pensamento único.

Os donos ideológicos disto tudo monitorizam permanentemente a sociedade, como se fossem um sistema imunitário, vigilantes, à espera que surja algum infiel que ouse expressar uma opinião contrária à verdade por eles estabelecida. Cada vez que alguém se atreve a proferir uma heresia, a estratégia é sempre a mesma: procura-se de imediato desqualificar, intimidar e ridicularizar a pessoa, faz-se um ataque cerrado e recorre-se, num automatismo perverso, à inevitável queixa na respetiva Ordem profissional. Dito numa linguagem médica, aquele que se atreve a sair dos clichés ideológicos estabelecidos, é identificado como um corpo estranho, os macrófagos são ativados e procede-se à sua fagocitose.» (daqui)