“cultura de cumplicidade”

Rui-Ramos-300x300«A propósito dos abusos sexuais do produtor Harvey Weinstein, discute-se agora na América a “cultura de cumplicidade” que o teria protegido durante anos. Não deveríamos nós estar a discutir a “cultura de cumplicidade” que parece haver à volta da corrupção e do abuso do poder na democracia portuguesa? Uma cultura feita de indiferença ética, de comunhão na ganância e de um sentimento de impunidade alimentado, de alto a baixo, pela promiscuidade no Estado, pela dificuldade de provar estes crimes e por votações como as de Oeiras.

A justiça dirá se alguém merece multas e prisões; a política deveria dizer outra coisa: se alguém ainda merece a nossa confiança. Não podemos esperar por 2030. A História os julgará? Mas essa é a prerrogativa dos ditadores, como o general Franco, que, enquanto caudilho de Espanha, “só respondia perante Deus e a História”. É assim que os nossos oligarcas também já pensam: que só a História os poderá julgar?» (daqui)

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o dilema do PSD

joão miguel tavares«O desejo de viver num país emancipado do Estado-Papá é abundante e politicamente motivador, sobretudo para quem não vive de rendimentos públicos. Mas não é claro se este pensamento, que também é o meu, consegue ultrapassar as curtas margens de uma elite intelectual, urbana e burguesa, com muita força para mobilizar opiniões mas muito pouca força para mobilizar votos. A verdade é esta: falta testar o liberalismo em tempos de crescimento económico, e é perfeitamente possível que os cortes no intervencionismo estatal só sejam aceites pelos portugueses em casos de absoluta inevitabilidade – como aconteceu com a intervenção da troika –, não correspondendo a qualquer vontade estruturada de modificar o statu quo.

O dilema do PSD é profundo e a tentação das “ambiguidades diluidoras” demasiado forte. Entre um partido ideologicamente diferenciado mas condenado à oposição, e um partido ideologicamente indiferenciado mas com esperança de regressar mais depressa ao poder, duvido que os militantes do PSD optem pela clareza ideológica. Aliás, este é um combate tanto político quanto geracional, com os velhos barões apegados a uma ideia (já meio mitológica) de social-democracia cavaquista, e os jovens turcos a sonharem com uma democracia liberal europeia. Gostava muito que ganhassem os segundos. Desconfio que vão ganhar os primeiros.» (daqui)

o mérito que a história irá reconhecer

«Pedro Passos Coelho pode ser obstinado, não entender que em política é preciso ter jogo de cintura e por vezes desistir de algumas batalhas para ganhar certas guerras, estar demasiado preso às suas convicções. Sobretudo não ter noção dos efeitos das decisões que tomou por não estar disposto a desviar-se um milímetro do caminho que vê como certo (veremos nas próximas semanas quanto outros, nas autarquias, estarão dispostos a moldar os seus princípios e esquecer verdades que até domingo eram absolutas). Mas, diga-se o que se disser, nenhum defeito, erro ou limitação lhe tira o mérito de ter sido o homem responsável por salvar o país no momento mais negro da sua história moderna. Acredito que, num futuro próximo, dizê-lo não dará direito a apedrejamento público, como hoje parece ser inevitável.» (daqui)

ninguém quer saber do passado (nem do futuro)

225px-Pedro_Passos_Coelho_1«Os erros de Pedro Passos Coelho foram esses. O de projectar o futuro de forma linear – não contou com a cumplicidade do PCP – e o de acreditar que era possível aos portugueses verem a realidade dos problemas que temos e não se deixarem iludir. E assim se transformou naquilo que o próprio designou como a “argamassa” desta solução governativa. Sem o querer, era o ex-futuro líder do PSD que estava a unir o PCP e o Bloco de Esquerda ao PS. Transformaram Pedro Passos Coelho – e Pedro Passos Coelho foi deixando que isso acontecesse — numa espécie de “lobo mau”: se não querem, vem aí a “direita e o corte de rendimentos”. Os resultados das eleições autárquicas, os piores de sempre do PSD, confirmaram que boa parte dos cidadãos sentiam o mesmo: não querem este líder social-democrata que os alerta para os problemas.

Ninguém quer saber do passado como também dizia esta semana na SIC Pedro Santana Lopes. Como também ninguém quer saber do futuro. Cansados de crise, queremos viver o presente. A história agradecerá a Passos o que fez pelo país. Esperemos que os portugueses não tenham também de se lembrar dos avisos que fez. Porque os problemas estão lá, à espera de serem resolvidos para não empobrecermos.» (daqui)

o verdadeiro problema do PSD

Rui-Ramos-300x300«O problema do PSD não é Passos Coelho, mas este: o PS, desde o fim do governo de Cavaco Silva, transformou-se no partido do Estado e das clientelas do Estado, que são, neste como em anteriores regimes, a base do poder político em Portugal. Domina quem, a partir do Estado, tem meios para multiplicar e alimentar bocas. Nos últimos vinte anos, o PSD nunca teve esses meios. Apanhou sempre o lado mau do ciclo da governação, quando, após uma temporada de despesismo socialista, foi preciso congelar e cortar — em 2002 e em 2011. O PS pôde governar sozinho, em maioria ou em minoria, em ambiente geralmente de optimismo e consenso; o PSD teve de governar em coligação, no meio de toda a espécie de crispações. Previsivelmente, o PS emergiu como o “partido natural do governo”, o guardião do “sistema”, o abrigo dos interesses. A aliança de Ricardo Salgado com José Sócrates é a prova mais clara de como os poderes fácticos da sociedade portuguesa reconheceram os socialistas como interlocutores privilegiados.» (daqui)