livros que vou lendo (22)

os duros

“Os Duros Não Dançam”

Sinopse:

«Um romance narrado como se fora uma autobiografia actual. Decorrendo numa pequena cidade da nova Inglaterra o protagonista, com cerca de quarenta anos, recentemente separado da mulher, recorda o passado. A infância miserável, as aspirações de tornar-se pugilista profissional, o longo noivado. Esta rememoração retrospectiva intercala-se na narrativa do presente, em que se vê envolvido numa série de crimes inexplicáveis que procura desvendar.»

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uma anedota em estilo de conto moral

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«Um português, um espanhol e um francês, os eternos companheiros das anedotas, lamentavam não poder satisfazer os seus desejos. A amargura eram tanta que Deus Nosso Senhor, bem acordado e bem disposto nesse dia, ouvi-os e resolveu surpreendê-los. Apareceu, apresentou-se com conveniência para não haver dúvidas ou hesitações e disse:
– Deixem-se de lamúrias, acreditem em mim e aproveitem a oportunidade que lhes vou dar. Peçam o que quiserem e eu irei satisfazer de imediato os vossos desejos.
Como os três, muito desconfiados, se miraram sem saber o que dizer, Deus avisou-os de que não estava para desconfianças: Tomé, o tal do ver para crer, tinha havido um e chegava.
Deus apontou para o francês e perguntou qual era a coisa que ele mais desejava. O francês queria que lhe servissem uma refeição exemplar. Com todo o à-vontade disse que queria o Alain Senderens para lhe confeccionar uma sopa, o Ducasse para imaginar umas entradas, o Bocuse para lhe preparar um peixe e o Michel Guérard para lhe servir uma peça de caça cozinhada com a ligeireza da sua imaginação.
– Posso pedir mais?, perguntou o francês.
– Pede., respondeu Deus.
– Para sobremesa o Le Notre, mas ele próprio, que me irá prepara algo de raro. Para beber tenho uma lista extensa. Quero começar , ou terminar, tanto faz, com um Chateaux d’Yquem, depois um Petrus, deixo o ano à escolha, e um Clos de Vougeot para celebrar a vinha mais antiga da Europa.
Deus fez um gesto e o francês ficou servido para o resto da vida.
– Agora tu, espanhol, é a tua vez, disse Deus.
– Ay Señor, Señor, lo que quiero nadie lo puede hacer!
– Continuas a não acreditar? Olha que eu passo já para o português…, resmungou o Senhor já pouco satisfeito.
– Bueno, si quieres yo te lo digo mas verás que és impossible, replicou o espanhol que, por acaso, era de Sevilha.
– Pa mi, no!, exclamou Nosso Senhor em bom acento sevilhano, capador de letras.
– Pois bem, quero estar sentado numa barreira na Maestranza de Sevilha e ver tourear três que já morreram, e por isso digo que é impossível. Quero ver o Josellito El Gallo, Manolete e António Ordoñez. Touros de Verágua, Parladé e Albasserada. Podem pôr um Miúra de sobrero. Quero pendurar-me num bom charuto cubano, e ficar no meio de duas sevilhanas trajadas a rigor com «mantilla e peiñeta».
Olé! Deus fez um gesto e o espanhol ficou feliz para o resto da vida.
– Agora tu, português., disse Deus. O que desejas mais na vida?
O português, pensou, coçou a barba e perguntou:
– Vocemecê sabe onde eu moro?
– Ó homem, se sou Deus sei onde tu moras e onde mora toda a gente.
Voltou a responder o português:
– Então, se assim é, Vocemecê sabe onde mora o meu vizinho, aquele que tem uma cabra muito gorda, que dá muito leite e que lhe nascem muitos cabritos?!
– Claro que sei., respondeu Deus.
– Então mate-lhe a cabra., disse o português.
Parece que Deus não lhe fez a vontade e o português nunca foi feliz até ao fim da vida.»

(original escrito por Alfredo Saramago e publicado no editorial da 19ª edição da revista “Epicur”)

 

o meu primeiro trail

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Rio Tejo com a Ponte Salgueiro Maia ao fundo

Corro há mais de um ano e só por uma vez aqui escrevi sobre isso, mas de forma indirecta. Nunca aqui escrevi sobre as minhas experiências de corrida, sobre as minhas conquistas, sobre os meus fracassos. Tenho deixado isso para umas curtas publicações no Facebook, juntamente com a partilha dos treinos e de imagens.

Mas hoje abro uma excepção! Em todo este tempo que corro (e que não é muito!), nunca tinha experimentado o trail. Maioritariamente, corro em estrada divergindo, algumas vezes, para zonas rurais com pavimento de terra batida. E gosto de correr aqui, no meio da natureza, mas nunca me aventurei para zonas desconhecidas. Ou melhor, nunca saí da minha zona de conforto que, basicamente é correr em plano, sem grandes subidas (o máximo de elevação acumulada que tinha atingido foram uns meros 144m D+ na Corrida das Fogueiras, em Peniche). Até que resolvi inscrever-me no Big Trail McDonald’s/SNR 2017, que iria decorrer nas encostas de Santarém.

Sabia, de antemão, que o acumulado rondaria o 500m D+. Mas desconhecia, por completo, o trajecto. Excepto a partida e a chegada, que seriam no Instituto Politécnico de Santarém (deu para matar saudades daquele espaço) e que foram os únicos segmentos planos do treino! ScreenShot487Todo o resto foi um constante sobe e desce, por locais que apenas conhecia por os avistar ao longe, na comodidade dum carro (da próxima vez que atravessar a Ponte D. Luís I e olhar em frente, em direcção a Santarém, vou lembrar-me que já andei ali, naquelas encostas) e por outros que eu julgava praticamente impossível de transpor. Até os ter enfrentado e ultrapassado! Alguns, com a ajuda de pessoas que eu nunca tinha visto, com quem eu nunca tinha falado mas que, nos momentos mais difíceis para mim, literalmente, me estenderam a mão! Aliás, a forma como terminei esta minha prestação, no meio de dois atletas desconhecidos mas, com os quais partilhei os últimos quilómetros, diz muito do ambiente de amizade e de entre-ajuda que vive nestes treinos/provas.

Resumindo e concluindo, foram 14,8km percorridos em 2:26:57, com um acumulado de 587D+!!! O maior empeno de toda a minha vida (até agora)! De tal forma que, quarenta e oito horas depois, ainda não consegui recuperar o meu antigo andar 😀 😀 😀

 

um homem com a “vertigem do risco”

Sá-Carneiro«Devemos-lhe a integração tranquila e democrática da direita no regime, somente cinco anos após a revolução. O paralisante Mota Amaral disse uma vez que Sá Carneiro tinha a “vertigem do risco”. Infelizmente, muitos dos que se reclamam da “herança” que não deixou, porque era atípico disto, nunca a tiveram e jogaram sempre pelo seguro. Sá Carneiro tinha os olhos exigentes do futuro e, sem pretensões de infalibilidade matemática, arriscava quase sempre no limite. Por exemplo, ninguém o veria na “comissão de instalados” contra Santana Lopes que ornamenta, pela negativa, a candidatura Rio no PSD. Ali, não há vestígio de ruptura democrática ou de inconformismo reformista, afinal o programa não escrito do PPD/PSD e de Sá Carneiro.» (daqui)

o regresso ao passado

manuel-carvalho«O que está a acontecer vai provocar um aumento desmesurado da despesa rígida do Estado. O destino das contas do Estado voltará a deixar de ficar sob a alçada do nosso controlo e passará a depender da providência das taxas de juros, do crescimento dos nossos parceiros ou da estabilidade política na União Europeia. Voltamos ao passado, como se fôssemos um país estúpido e incapaz de aprender à sua custa dos seus erros. O Governo que até agora tinha conseguido afastar o diabo mantendo um sólido compromisso entre o equilíbrio das contas públicas e a melhoria dos rendimentos dos deslumbrou-se e viajou para a estratosfera.

Com este passo imprudente, António Costa arrisca-se a perder o pé. O eleitorado moderado tenderá a mudar-se para outras latitudes. “A sociedade tem de ter a coragem de assumir os seus problemas”, lembrou uma vez mais Marcelo Rebelo de Sousa, e a sociedade portuguesa teve essa coragem. Quando perceber que o Governo virou a cara aos problemas para garantir o seu confortável “saber durar”, dificilmente lhe perdoará. Como mostraram as eleições de 2015, uma ampla franja dos portugueses perceberam o que se passou. E percebem também o perigo de se encarar o leve alívio na economia como um estímulo ao agravamento da despesa. Sabemos pelos sinais da dívida, do mundo, ou pela fragilidade da economia que a situação recomenda juízo, prudência e paciência para, como tantas vezes acontece na vida, ir melhorando a vida aos poucos.» (daqui)