as escolhas

sergio.azevedo«Afinal de contas, foi Passos que afastou os notáveis do PSD, ou foram os notáveis de um certo PSD representativo dos interesses instalados, dos negócios com o centrão, que deliberadamente se afastaram de Passos, da sua governação e do caminho que defende para o nosso país?

É evidente que isso tem custos e consequências, mas são sempre daquelas que valem a pena correr. É inquestionável que Passos transformou o PSD que, em certa medida, o refundou e recentrou naquele que é o seu objetivo principal. Ou seja, contribuir para um modelo de desenvolvimento diferente, para a transformação do nosso país libertando-lhe as amarras de certos interesses que ao longo da nossa história democrática nos afunilaram e sufocaram numa sociedade desigual de elites políticas e económicas conspurcadas para quem o exercício do poder assentava fundamentalmente num exercício de auto-governação em detrimento de uma real governação coletiva.

Por isso dizer que Passos está reduzido aos seus mais próximos quando recorre a Teresa Leal Coelho para um combate difícil quando todos os outros fizeram questão de lhe voltar costas e ao partido que fez deles o que são é, ao contrario do que alguns nos pretendem fazer crer, o melhor dos elogios que lhe poderiam fazer. No dia em que Passos se rodear daqueles que não lhe são próximos e se rodear daqueles que durante anos pululam nas televisões e jornais com o objetivo de o fragilizar, é o dia em que Passos falhou. Consigo próprio, com aquilo a que se propôs e com todos aqueles que estiveram consigo desde o primeiro dia e que viram nele uma audácia de esperança e de mudança.» (daqui)

simplesmente, pai!

Outubro de 1972, com o meu Pai«Infelizmente nenhum pai dura para sempre. Nunca saberemos quando será o seu último dia, mas esse dia chega muitas vezes quando menos esperamos. Acordamos com pai e adormecemos órfãos. Assim mesmo. E no momento em que o perdemos, percebemos que não estávamos preparados. Por mais velho que seja, parece que nunca é suficientemente velho para partir. Egoisticamente apetece que fique connosco muito mais tempo, até para podermos ainda reparar alguma coisa que, porventura, precise de ser reparada ou feita de novo. Ser pai e ser filho implica perdoar e ser perdoado. Exige aceitação e perdão, pois nenhum pai é perfeito e nenhum filho é sem mancha. E o tempo é, como dizia Yourcenar, um grande escultor. O tempo serve para nos afastarmos e voltarmos a aproximar, porque há realmente um tempo para tudo. E é esse tempo que apetece aproveitar, mas nem sempre nos é dado. Ou não é dado a todos na mesma medida.» (daqui)

perguntas incómodas

joão miguel tavares«Chegados aqui, a pergunta que ninguém quer fazer tem de ser feita: ninguém sabia? Há suspeitas que recaem sobre Sócrates desde os tempos da Covilhã e ninguém soube de nada? O Partido Socialista nunca ouviu falar? Aqueles que hoje em dia acham que Carlos Costa foi vesgo e cobarde por não ter corrido mais cedo com Ricardo Salgado não foram vesgos e cobardes no que diz respeito a José Sócrates? Uma acusação sólida não deve servir apenas para arrumar com Sócrates de vez. Ela também deverá obrigar o PS, que hoje anda por aí tão impoluto e tão impante, a assumir responsabilidades políticas e a responder pela sua cumplicidade com o maior desastre da democracia portuguesa. Os elefantes não voam. Foi preciso alguém abrir-lhe a porta da sala e convidá-lo a entrar.» (daqui)

farto…

NunoMelo«Fica então explicado que quando o PSD e o CDS detinham uma maioria expressa em mandatos, confirmada pública e formalmente no apoio ao Governo da coligação, Jorge Sampaio tenha dissolvido o Parlamento, cinco meses depois de dada posse a Pedro Santana Lopes. Estava farto, farto, farto. E porque estava farto, mandou a Constituição às “urtigas”. Isto é, não demitiu o Governo, pela simples razão de que não podia. E não podendo, como confessado 12 anos mais tarde, fez batota e dissolveu o Parlamento, sem razão objetiva que lhe pudesse ser imputável. Valorizou o capricho. Fê-lo, com a mesma facilidade com que atribuiu condecorações a metro – 2374 em 10 anos, à média de duas por dia – entre elas a Camilo Mortágua, Grande Oficial da Ordem da Liberdade, apesar dos assaltos, apesar das mortes, apesar da LUAR, apesar das ocupações e a Isabel do Carmo, com a mesma Ordem, apesar das Brigadas Revolucionárias e apesar de mais assaltos, em abundantes episódios de vidas cheias que por certo, na avaliação, deixaram Jorge Sampaio eufórico. Entre estados de alma, as coisas passaram-se assim.» (daqui)

juntar os pontos todos

josé manuel fernandes«O socratismo levou pois aos limites o dirigismo e a concentração de poderes, funcionando como uma espécie de estádio superior do socialismo num país que convive bem com isso – que até aprecia o estilo e os objectivos (e por isso é pobre e atrasado). Já o que José Sócrates fez depois em cima do sistema que construiu é, como sabemos, um caso de polícia. Mas a verdade é que o terreno estava bem adubado, tal como o país estava bem anestesiado.

É por isso que é tão importante ligar os pontos todos, não apenas aqueles que a Procuradoria anda a investigar. É por isso que é mesmo necessário saber o que aconteceu com os empréstimos irrecuperáveis da Caixa, aqueles que todos iremos agora pagar e que não querem que os deputados vejam. Assim como é importante conhecer o que se passou com o dinheiro que andou a vir e a ir para a Venezuela e a sua empresa de petróleos com passagem pelo Panamá.» (daqui)