uma espécie em vias de extinção

winston-c«Curiosamente, a ascensão de Churchill à categoria de sagrado histórico acontece num mundo e numa era em que, provavelmente, ele não conseguiria fazer a política que fez. Diria mesmo mais: Churchill talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea. Isso vai a crédito dele e a débito do mundo em que vivemos. Churchill era o que era e não disfarçava: um aristocrata e um homem do Império, o que hoje provocaria urticária e preconceito.

Fumava e bebia sem demasiada mesura, o que sem dúvida suscitaria nos dias que correm o habitual coro de “fascismos higiénicos” e conveniências sociais. Tinha, deliciosamente, mau feitio e bom carácter, precisamente a equação oposta face à correção política que faz sucesso provisório de não poucos políticos telegénicos e publicitários. Ia contra a corrente com a força de um verso solto e tonitruante, e se necessário mudava de Partido para não mudar de ideias – todo um desafio às conveniências moderninhas. Tinha sentido de humor e sentido da história: duvido que o primeiro correspondesse à ideia de gravitas que a mediania oficializada hoje estabelece, e tenho a certeza, quanto ao segundo, que poucos pregariam a persistência que ele pregou quanto à questão que para ele era essencial: bater-se pela centralidade da Grã-Bretanha num mundo em que a reorganização das potências lhe escapava.

Estes dados são suficientes para perceber que Winston Churchill não se daria especialmente bem numa era sem memória – a nossa -,e numa política de pequenas frases que pretendem resumir, até ao nível mais básico da estupidificação, problemas complexos – o que ouvimos por esse mundo fora todos os dias.» (daqui)

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os opostos atraem-se

Front-National-Flamme syriza1«O que pode significar a vitória eleitoral do Syriza para estes populismos? Pode, claro, não significar nada, a não ser novas eleições na Grécia daqui a uns meses. Mas pode significar muito mais do que uma reconfiguração da área do Euro, por mais grave que essa reconfiguração fosse, com o despejo da Grécia – ou a fuga da Alemanha. O modo como a esquerda radical do Syriza ultrapassou a esquerda social-democrata do Pasok (que caiu de 43,9% dos votos em 2009 para 4,7% ontem), tal como o triunfo da Frente Nacional nas últimas eleições europeias em França, permite imaginar a maior de todas as eventualidade políticas: uma mudança dos partidos que, nas democracias europeias, fixaram desde a segunda guerra mundial as opiniões da maioria dos cidadãos. À esquerda, os actuais partidos de matriz social-democrata dariam lugar a partidos de matriz radical; à direita, os partidos de matriz liberal-conservadora seriam trocados por partidos de matriz nacionalista. Em França, há anos que a família Le Pen não sonha com outra coisa.» (daqui)