a dependência dos cidadãos nos Estados e outros assuntos

josé manuel fernandesUm excelente artigo que o José Manuel Fernandes escreveu no “Observador” sobre a dependência dos cidadãos nos Estados, as soberanias nacionais, o crescimento económico, a globalização, as crises (económica, financeira e política), e que vai além (muito além) deste excerto:

«Comecemos pelo caso da discussão sobre o que se passa nas urgências, mas poderíamos também dar inúmeros outros exemplos. A tentação é responsabilizar sempre o ministro. Isso ocorre porque é o mais fácil para os partidos da oposição, ocorre porque em Portugal é sempre o governo (qualquer governo em qualquer época) o culpado ou o herói, mas ocorre sobretudo porque o ministro é o “patrão” de facto dos hospitais e os utentes nunca pensam que são, ao mesmo tempo, os seus “accionistas”. Por isso o caminho da discussão é sempre o mesmo: se algo não funciona é porque “faltam meios”. Nunca é porque houve falhas de gestão, mau trabalho dos funcionários, falta de empenho ou simples incompetência. Aparentemente o ministro até tem de saber se as escalas de férias e folgas dos médicos estão bem feitas, e se estiverem mal feitas, apenas lhe cabe… contratar mais médicos.

Com este ou com qualquer outro governo teremos sempre discussões destas. Num tempo em que o Estado tende a ocupar-se dos cidadãos desde o momento em que eles nascem até àquele em que eles morrem, não apenas regulando a sua vida ao mais ínfimo detalhe – da quantidade de sal nos alimentos ao diâmetro das laranjas, passando pelos nomes que se pode dar a um filho ou pela distância a que um interruptor está do chão –, mas também tratando directamente das suas necessidades elementares, é natural que tudo o que nos corre mal acabe sempre na culpa de um qualquer ministro.

Em sociedades muito dependentes do Estado – em sociedades onde o partido-Estado, para utilizar uma expressão cunhada por Medina Carreira, é largamente maioritário – é natural que olhemos para os governos como responsáveis e responsabilizáveis por tudo. E que queiramos que os governos atendam às nossas mínimas necessidades, algo que os políticos também apreciam, pois quase sempre fazem a sua carreira de promessas de sempre mais e melhores serviços públicos. (daqui)