livros que vou lendo (2)

o vermelho e o negro

“O Vermelho e o Negro”, de Stendahl

 

«O romance da vida de Vasco Graça Moura é “O Vermelho e o Negro”. Em quatro palavras: amor, morte, poder, traição. Leiam, releiam. “O Vermelho e o Negro” surgiu em 1830, quando o seu autor, Stendhal, aliás Henri Beyle, tinha 47 anos. Foi o seu segundo romance (o seu outro grande romance de referência, “A Cartuxa de Parma”, é posterior) e publicou-o no ano em que, depois de vários amores mal correspondidos, uma mulher – Giulia Rineri – se apaixonou por ele e lhe disse. Nunca lhe tinha acontecido. Não houve um final feliz. Pediu a mão de Giulia ao tutor, que iludiu o pedido e Giulia casou-se com outro, três anos depois. Mas foi, de certo modo, por comparação, um amor feliz. Stendhal já tinha publicado “Do Amor”, a seguir a uma paixão desgraçada por Métilde Dembowski.Não vamos continuar com apontamentos biográficos, “O Vermelho e o Negro” não é uma história de amor desse género. Vasco Graça Moura escolheu-o como o romance da sua vida, e resumiu-o, porque Paulo Nozolino pediu, em quatro palavras – amor, morte, poder, traição. O que faz que, para continuarmos, fique mais ou menos assim:Em Verrières, uma aldeia, Julien Sorel, de 18 anos, um rapaz de origem absolutamente modesta, ambicioso nessa proporção, sonha com o seminário como fuga a um destino igual ao do pai, carpinteiro. Monsieur de Renal, o maire, leva-o para casa como preceptor dos filhos. Julien sabe a Bíblia de cor, o que provoca em todos uma admiração que de certeza ainda dura, e torna-se amante de Madame de Renal; ela só conhece o amor por ter lido romances, está apaixonada e é tão inocente que um dia lhe ocorre fazer confidências ao marido, embora depois, é verdade, desista; ele pensa nela, mas também em Napoleão. Uma das crianças adoece e ela acredita num castigo divino. O marido sabe do adultério por carta anónima. Julien tem de partir. Vai para um seminário em Besançon.O abade director do seminário sugere-lhe que se torne secretário do Marquês de la Mole em Paris, para onde Julien vai, depois de uma última e perigosa visita a Madame de Renal, que vive ainda a paixão que a levara ao adultério.Mathilde, a filha do Marquês, sente-se atraída por Julien e uma noite encontram-se no quarto dela. Uns dias depois, diz-lhe que nunca gostou dele. Entretanto, Julien faz a sua ascensão social tornando-se um homem de confiança do Marquês, interessa-se por outra, “e foi então que Matilde amou pela primeira vez”. Está grávida, de resto, diz-lhe a ele, e diz ao pai que se quer casar com Julien. O Marquês obtém-lhe o título de Marquês Sorel de Vernaye.Enquanto o casamento se prepara, Madame de Renal escreve ao Marquês contando-lhe a história de Julien, que perde a cabeça, chega a Verrières e, na igreja, durante a missa, atira sobre Madame de Renal. Não chega a matá-la.Na prisão, percebe que gosta de Madame de Renal e medita sobre a inutilidade da sua ambição e da ambição em geral. Madame de Renal e Mathilde intervêm para que não seja condenado à morte; ele quer morrer. Uns dias depois da execução, Madame de Renal morre.Chegando aqui, falta admitir que é cómico resumir “O Vermelho e o Negro” como uma telenovela, mas era necessário, porque nem toda a gente se lembra. Claro que o melhor é relerem. Está disponível numa edição da Clássica Editora, tem 572 pgs., custa 9,48.PÚBLICA – Lembra-se da primeira vez que leu “O Vermelho e o Negro”? Vasco Graça Moura – Li-o pela primeira vez, aí pelos doze ou treze anos, quando comecei a ser capaz de ler em francês. Mas já conhecia grande parte da história graças ao meu pai, que era um stendhaliano e um balzaciano ferrenho e que, quando nós éramos pequenos, falava connosco à mesa dos livros que considerava importantes. Interessavam-no particularmente as cenas do seminário e dos bastidores da intriga política.Enquanto, na “Chartreuse”, Fabrice del Dongo não se move propriamente fora do seu meio, mas sim entre os impulsos passionais, as intrigas e os cinismos próprios do seu meio, o que, de algum modo, torna o seu “bonapartismo” qualitativamente diferente, Julien Sorel tem de tentar subir a pulso toda a escala da ascensão social. É um outsider que precisa, por ambição, de se converter em insider e que vive as tensões e as contradições desse percurso, falhando quase no termo, quando os bons resultados estão à vista. Neste aspecto, Julien está mais próximo do Lucien de Rubempré, do Balzac, do que do Eugène de Rastignac, do mesmo Balzac, gente da pequena nobreza de província que tenta também uma ascensão no grand milieu de Paris. Só que Lucien se suicida e Julien é executado, enquanto Rastignac sobrevive e se impõe pelo cinismo…Hoje em dia, creio que esses aspectos contam cada vez menos, salvo para certas audiências televisivas. Deu-se uma espécie de “globalização” nessa matéria.» (daqui)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.