a oligarquia*

Rui-Ramos-300x300«(…) a oligarquia política é dona do país, e a democracia é o regime através do qual o povo é convidado a reconhecer esse senhorio. Ora, é difícil imaginar oligarca mais fácil de identificar do que António Costa. Costa cresceu ao colo do regime. Não houve dirigente do PS nos últimos trinta anos que não o tivesse posto num qualquer altar. Costa dá-se com toda a gente, da direita à esquerda. Chama-se a isso, em linguagem oligárquica, ser “consensual”. Passos não é assim. Andou na JSD, mas veio da província. Tirando Marques Mendes, nenhum líder do PSD lhe deu a mão e houve mesmo quem o tivesse perseguido. Não consta que fale com muita gente. Para a oligarquia, é um intruso, um “desconhecido”, como insinuou Costa. A frieza com que se permitiu tratar Ricardo Salgado, o banqueiro do regime, é a prova. No momento em que Costa apareceu, o país, como o cão de Ulisses, tinha obrigação de reagir. Que se passa? Os portugueses já não veem televisão?

No país da oligarquia, Ricardo Salgado ainda deveria ter um banco (com o dinheiro dos contribuintes), um ex-primeiro ministro nunca poderia ter sido preso, e um membro honorário da Quadratura do Círculo teria de estar à frente nas sondagens. A oligarquia está confusa. Querem ver que, afinal, a “austeridade” não foi tão má como os próprios oligarcas andaram a dizer? Terá sido a Grécia? O fantasma de Sócrates? As fatalidades do euro? Ou a culpa é toda do Costa, esse eterno hesitante? Tudo passa pela cabeça aos nossos oligarcas. Menos uma coisa: a hipótese de o povo os ter percebido, a começar pelo fracasso e fuga de 2011.» (daqui)

* oligarquia

substantivo feminino;

Estado de uma nação em que a preponderância de alguma família dispõe do governo.
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quem todos quer convencer, acaba por não convencer nenhum

antonio_costa2«António Costa acabou por ser vítima da síndrome lisboeta, tomou a corte da capital (circuito fechado de políticos, jornalistas e comentadores) como representando todo o país e caiu na armadilha. Avançou, chiquérrimo, com uma pasta bonita, cheia de propostas, carregada de números. E, no entanto, o povo, pelo país fora, só lhe pedia uma ideia. Uma ideia de país, que fosse verdadeira alternativa à ideia que a coligação “vende”, com eficácia, ininterruptamente há quatro anos. Passos Coelho, Paulo Portas, o brasileiro que eles contrataram, quem quer que seja o responsável, sabe mais de política do que toda a máquina socialista junta. Eles vendem a ideia de que um país só sobrevive com independência se tiver as contas certas e que isso deve existir mesmo que uma parte dos portugueses tenha de ficar para trás.

Há muitos, mesmo muitos, portugueses que pensam exactamente da mesma maneira. E há quem pense que a mais importante função do Estado é não deixar ninguém desprotegido. E ainda os que procuram perceber como se pode ficar entre o meio caminho das duas coisas. É aqui que faz sentido falar de direita, de esquerda e do centro. A coligação não perde um minuto a tentar convencer a esquerda, já tem a direita consigo e agora procura ganhar votos ao centro. O PS anda perdido a tentar convencer toda a gente, não convencendo sequer quem está fervorosamente contra a ideia que a coligação defende para o país.» (daqui)

o país das televisões e o outro

sofia galvão«O País que sabe que os experimentalismos económicos e sociais propostos pelo PS e pela Esquerda jamais seriam inócuos e que não quer fazer perigar resultados adquiridos. O País que não aguenta o risco da instabilidade política e da inviabilidade das soluções governativas. O País que recusa entregar os seus destinos a uma frente unitária de esquerda, chamada a terreiro pelo secretário-geral do PS que, antes do voto, interpreta o sentido de putativos resultados eleitorais, rechaçando entendimentos parlamentares à sua direita (seja para viabilizar uma solução governativa, seja para viabilizar o próprio Orçamento de Estado).

Quem vai – ou não – votar no dia 4 de Outubro? Hoje, ninguém sabe ainda. Mas logo veremos se, na intimidade daqueles minutos que decidem se e como se sai de casa, ganharão as ponderações do País real ou as projecções do País das televisões.

No fim, os resultados falarão tanto do País que somos como, em boa medida, da comunicação social que temos.» (daqui)

livros que vou lendo (12)

"Paris É Uma Festa", de Ernest Hemingway

“Paris É Uma Festa”, de Ernest Hemingway

Sinopse:

«Paris é uma Festa encontra-se na linha da melhor tradição de Hemingway. A visão a um tempo lúcida e desencantada da vida, ombreando paradoxalmente com a confiança e a plenitude dos anos de criação, o retrato objetivo de muitos dos grandes escritores da nossa época que, como ele, respiravam no ar de Paris o melhor estímulo de aprendizagem e formação, a evocação dessa cidade incomparável, com os seus bistros, os seus velhos castanheiros, os cais, os boulevards, as pontes, imprimem a Paris é uma Festa um lirismo saudoso e pungentemente dramático. Aí encontramos o jovem Hem, no começo de uma carreira que se ignorava se terminaria na ignomínia ou na glória. Aí o encontramos, de algibeiras vazias e a cabeça povoada de sonhos, atento aos mais simples prazeres da vida. Aí o encontramos, ainda moço e rebelde, pronto a invadir o mundo e a sacudi-lo com os abalos da sua rebeldia genial.»

promete tudo e o seu contrário

antonio_costa3«No afã de agradar a todos, ele [António Costa] tem sido tudo e o seu contrário. Vai virar a página da austeridade, mas esconde os cortes de 1000 milhões nas pensões sociais não contributivas. Tanto aplaude as vitórias do Syriza como se apressa a condenar a “estratégia tonta” de Tsipras. Ora garante aos chineses que o país está melhor como, logo de seguida, tenta convencer as pessoas de que está tudo mal. À mesa dos empresários ou na “Quadratura”, perora sobre a estabilidade. Mas no calor comicieiro rasga as vestes e dá lugar ao radical que chumba um Orçamento que nem sequer conhece, liderando uma coligação negativa (com PCP e BE) para lançar o país no pântano. Um dia diz que vai usar o dinheiro das portagens para financiar a Segurança Social, no outro já está a dizer que baixa as portagens. Às segundas, quartas e sextas diz que o emprego qualificado é “a causa das causas”. Às terças, quintas e sábados aponta a construção civil (com os dinheiros da Segurança Social) e a restauração (com a baixa do IVA) como os sectores criadores de emprego qualificado (?). Como candidato a primeiro-ministro, gaba-se da sua grande gestão em Lisboa. Mas como presidente de câmara, apesar do perdão de 286M€ consentido pelo governo, a dívida cresceu 44 milhões de euros – só para falar da registada.

António Costa é do velho PS e do novo PS. É de direita e de esquerda. E às vezes do centro. Ele é de tudo e de nada. É um candidato “credível” e de “confiança”? E se tivesse governado Portugal, o país estaria mais próximo do pântano de Guterres ou da bancarrota de Sócrates? Como António Costa gosta de agradar, talvez estivesse a meio caminho, na “pantarrota”. Dia 4, os portugueses darão a resposta e escolherão o caminho.» (daqui)