à deriva

Rui-Ramos-300x300«Este governo e esta maioria romperam ainda com outra coisa: com tudo aquilo que os partidos que formam a maioria e apoiam o governo tinham dito, aconselhado e exigido enquanto estiveram na oposição. Até Novembro de 2015, PS, PCP e BE pareciam acreditar, por vias diferentes, que os problemas portugueses se resolveriam pondo a economia a crescer, e não equilibrando as contas do país, como pretendia a troika. Eram pelo “investimento público” e pelos “estímulos à economia”. Desprezavam as “metas do défice”. Mais: consideravam a política europeia errada, e achavam que deveria ser contestada e resistida até às últimas consequências. Mas ei-los no poder, e de um dia para o outro o crescimento deixa de lhes importar, cortam o investimento público, e parecem obcecados com as metas do défice. Perante Bruxelas, emitem por vezes uns ruídos anti-germânicos, mas de resto dão a entender que não há problemas. Que significa isto? Por um lado, tudo faz sentido: uma vez no poder, as antigas oposições descobriram que não lhes convinha dispensar o financiamento do BCE. Mas por outro lado, tudo é bizarro: o governo não prepara o país para ser competitivo dentro do quadro do Euro, porque o BE e o PCP recusam reformas, mas também não prepara o país para sair do Euro, porque o PS não aceita a saída do Euro. Limitamo-nos a viver do dinheiro do BCE, à deriva.» (daqui)

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os “doutores”

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Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém

Iniciei, há precisamente oito anos, o meu percurso académico no ensino superior politécnico como aluno do curso de Administração Pública da Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém, grau de licenciatura que concluí nos três anos previstos no plano de estudos. Para além da frequência positiva a todas as unidades curriculares, tive ainda que redigir, apresentar, discutir e defender um trabalho final de curso, para que pudesse concluir a licenciatura com sucesso. Não usufruí, por isso, de qualquer tipo de ajuda para a conclusão do curso.

Quando me candidatei ao ensino superior, incentivado por amigos, foi com o objectivo de enriquecimento pessoal e, também, porque na altura estava envolvido na política autárquica e acreditava que a licenciatura seria uma mais-valia. Nunca o fiz por vaidade, nem muito menos para que me pudessem tratar por “senhor doutor”, coisa, aliás, que abomino!!! Doutores, para mim, são os licenciados em medicina e, quanto muito, os advogados. Doutores são aqueles que, com base num trabalho de investigação científica, são aprovados nas rigorosas provas de doutoramento. Todos os que terminam uma licenciatura são, apenas e só, licenciados!

Somos um país onde possuir um título significa mais do que se ser alguém. É neste afã de se querer ser “doutor” a todo o custo que uns que obtém umas creditações e concluem, num único ano, os três da licenciatura; outros são-lhes feitos exames aos domingos; e outros, ainda, que apesar de nunca terem terminado a licenciatura, também são tratados por “doutor”!!!

E esta, hein???

“com ferros mata, com ferros morre”

2016-02-05-mariana-mortagua«Há muitos anos, quando foi apeado do poder de primeiro-ministro Francisco Balsemão, um homem que conhece a comunicação social melhor do que ninguém, ele recordou o velho ditado de que quem com ferros mata, com ferros morre.

É uma verdade que ainda hoje se mantém. Quem vive da imprensa e pela imprensa sem ter verdadeiramente uma base sólida de apoio, mas apenas um suporte baseado em estados de alma de uma burguesia urbana e preconceituosa que se reclama de esquerda, sujeita-se a ser vitimado por movimentos pendulares como o que atingiu Mariana e o Bloco.

O que agora sucedeu ao BE dificilmente acontecerá à instituição que é o PCP, que conta com uma base de apoio efetiva e permanente, ainda que desgastada, e que tem uma experiência política incomparável, além de conhecer bem a mentalidade real dos portugueses. Para Jerónimo de Sousa, o tropeção de Mariana foi uma benesse. Mas para António Costa foi mais do que isso. Na realidade, tratou-se quase de uma bênção divina. Acabou-se a superioridade moral. Doravante, o Bloco é um partido de poder e, pior ainda, de governo. Além do PCP, quem mais pode beneficiar com esse novo estatuto do BE é, objetivamente, António Costa e o seu PS, pois, como é sabido, a generalidade dos peixes grandes alimentam-se dos mais pequenos. É assim na vida do mar e, muitas vezes, no terreno da política.» (daqui)

imperador francesco

totti«É isto que faz de Francesco Totti, que hoje completa 40 anos de vida, um jogador para lá do futebol moderno, do negócio fácil, dos negociadores implacáveis, da camisola descartável, do símbolo pisado, do desgosto dos adeptos. É isto que faz de Francesco Totti, que hoje celebra uma vida dedicada a Roma, o último reduto dos que acreditam que um clube é muito mais do que uma sociedade anónima, que uma curva não é uma mera bancada mas um lugar permanente de peregrinação, de crença, de amizade, de cumplicidade, que um Capitão é a encarnação do símbolo do clube em campo, no treino, no banco e no balneário, e que é sempre o primeiro a entrar no aquecimento e o último a sair, sobretudo quando perde.» (daqui)

“um tremendo vazio moral”

Rui-Ramos-300x300«José Sócrates faz o que julga convém aos seus interesses, e naturalmente que convém aos seus interesses criar a impressão de que, no regime, ninguém leva a sério o inquérito judicial, tanto que não se inibem de o cumprimentar, convidar e homenagear. D. Sebastião deveria ter regressado numa manhã de nevoeiro. José Sócrates regressa num crepúsculo de confusão moral. É a complacência da direcção do PS, que se limita a não tirar selfies com o arguido; é a indiferença dos outros partidos, que nada dizem; é a excitação da imprensa, que lá há-de estar para lhe ampliar as lições; é provavelmente o cansaço de toda a gente, que há anos ouve falar de Sócrates e dos seus casos. Chegou a vida pública portuguesa àquele grau de tribalismo em que aos do nosso lado tudo é admitido e desculpado, e a ética na vida pública só se aplica aos nossos adversários? Ou pura e simplesmente já ninguém quer saber de nada, neste cada vez mais óbvio desmanchar de feira, em que uma classe política se prepara para legar aos vindouros não só a enorme dívida de um Estado desequilibrado, mas um tremendo vazio moral?» (daqui)