os lesados dos lesados

antonio_galamba_3«Por maior que possa ser o sentido de justiça, o resquício de coerência e o sentido de resposta ao presente, é um contrassenso deixar instalar a perceção de facilitismo, de que é possível tudo, para depois o Estado não conseguir responder às suas responsabilidades urgentes e emergentes em questões fundamentais para a integridade física e a segurança das pessoas e dos bens.

Agora que o outsourcing de um consultor do primeiro ministro anunciou uma solução a meses para os lesados do BES, é bom que se tenha a consciência de que o perfil da gestão governativa e do facilitismo dos apoiantes da solução é gerador de novos lesados do Estado, que somam aos de sempre, estruturais, esquecidos e sem relevância eleitoral que baste. Os que estão fora do sistema e do radar eleitoral de quem busca pouco mais que a sobrevivência política.» (daqui)

Anúncios

imensa lata

lata-aco-750«Não devia ser assim. Mas talvez seja mesmo assim. Ter muita lata parece ter-se tornado na grande qualidade de um político. Na pós-verdade da pós-modernidade a realidade já não é o que é, é a “narrativa” que se criar dela. Até um dia em que tudo se esboroará, dia que só esperamos não surja tarde demais para o país, que já experimentou há bem pouco tempo para onde são capazes de nos levar os malabaristas das “narrativas”.» (daqui)

então, tal como agora…

1808_di_laurentino_gomes
“1808”, de Laurentino Gomes

«Nos treze anos em que D. João viveu no Brasil, as despesas da mal-administrada e corrupta Ucharia Real mais do que triplicou. O déficit crescia sem parar. No último ano, 1821, o buraco no orçamento tinha aumentado mais de vinte vezes — de 10 contos de réis para 239 contos de réis. Apesar disso, a corte continuou a bancar todo mundo, sem se preocupar com a origem dos recursos. “Todos, sem exceção, recebiam ração, de acordo com seu lugar e valimento”, explica o historiador Jurandir Malerba. “Nobres, mas também cada artista contratado, como os cantores e músicos italianos, ou pintores e arquitetos franceses e naturalistas austríacos, embaixadores e funcionários das repartições recebiam sua cota de víveres à custa da Ucharia Real, prática extinta apenas no governo do austero D. Pedro I.”

Onde achar dinheiro para socorrer tanta gente? A primeira solução foi obter um empréstimo da Inglaterra, no valor de 600000 libras esterlinas. Esse dinheiro, usado em 1809 para cobrir as despesas da viagem e os primeiros gastos da corte no Rio de Janeiro, seria um pedaço da dívida de 2 milhões de libras esterlinas que o Brasil herdaria de Portugal depois da Independência. Outra providência, igualmente insustentável no longo prazo, foi criar um banco estatal para emitir moeda. A breve e triste história do primeiro Banco do Brasil, criado pelo príncipe regente sete meses depois de chegar ao Rio de Janeiro, é um exemplo do compadrio que se estabeleceu entre a monarquia e uma casta de privilegiados negociantes, fazendeiros e traficantes de escravos a partir de 1808.

Pela carta régia de outubro de 1808, o capital do Banco do Brasil seria composto de 1200 ações no valor unitário de um conto de réis. Para estimular a compra dessas ações, a Coroa estabeleceu uma política de toma-lá-dá-cá. Os novos acionistas eram recompensados com títulos de nobreza, comendas e a nomeação para cargos de deputados da Real Junta do Comércio, além da promessa de dividendos muito superiores aos resultados gerados pela instituição. Em troca, o príncipe regente tinha à disposição um banco para emitir papel-moeda à vontade, tanto quanto fossem as necessidades da corte recém-chegada. Como resultado, quem era rico e plebeu virou nobre. Quem já era rico e nobre, enriqueceu ainda mais. A mágica funcionou durante pouco mais de dez anos.

Em 1820, o novo banco já estava arruinado. Seus depósitos em ouro, que serviam de garantia para a emissão de moeda, representavam apenas 20% do total de dinheiro em circulação. Ou seja, 80% correspondiam a dinheiro podre, sem lastro. Noventa por cento de todos os saques eram feitos pela realeza. Para piorar a situação, ao retornar a Portugal, em 1821, D. João VI levou todas as barras de ouro e os diamantes que a Coroa mantinha nos cofres do banco, abalando definitivamente sua credibilidade. Falida e sem chances de recuperação, a instituição teve de ser liquidada em 1829, sete anos depois da Independência. Foi recriada duas décadas e meia mais tarde, em 1853, já no governo do imperador Pedro II.»

pegar o touro pelos cornos

225px-Pedro_Passos_Coelho_1«É claro que Passos poderia perder e ver-se obrigado a sair da liderança. Talvez sim, se a derrota fosse muito pesada em termos nacionais. Mas aí teria dado a cara e sairia pela porta grande, dando o corpo às balas num momento difícil, não se furtando a responsabilidades como certos barões que se resguardam no regaço das suas vidas profissionais e das suas aparições mediáticas construídas na política. De facto, se realmente fosse derrotado em Lisboa (que está perdida de antemão), nem por isso Passos teria de ter a sua liderança comprometida, desde que (repete-se) os resultados globais no país fossem aceitáveis. Além disso, nos tempos de hoje, perder eleições nem sempre é um problema, como se prova pela marcha da geringonça que António Costa construiu depois de o PS ter ficado atrás do PSD. Na política há mais vida para além do resultado eleitoral.» (daqui)

vara nunca esteve na caixa

vitor-rainho«É óbvio que os governos laranja também tiveram responsabilidades no forrobodó da banca portuguesa, esse elefante de papel que parecia sólido como uma rocha impenetrável. Olhando, no entanto, para um passado recente em que o antigo Dono Disto Tudo e o antigo ministro de José Sócrates espalhavam as suas influências, é extraordinário perceber que as baterias estão agora apontadas para aqueles que exigiram a comissão parlamentar de inquérito. Sejamos honestos: ninguém tem a capacidade de inverter a lógica do jogo que alguns socialistas têm revelado.

João Galamba e seus pares aprenderam numa escola onde os laranjinhas ficaram à porta, apesar de alguns insistirem muito para entrar. Percebe-se que a “criançada” que surgiu das jotas procura seguir o caminho daqueles que se tornaram importantes, mas se querem, efetivamente, ter o talento para transformar derrotas em vitórias, sigam antes o exemplo de Galamba. Afinal, Vara nunca passou pela CGD e os laranjas é que emprestaram rios de dinheiro a amigos de Sócrates para assaltarem o BCP…» (daqui)