matar o futebol

violencia_futebol_claque«Sejamos claros: a violência no futebol culmina nos estádios, mas concebe-se fora do campo. Nos clubes grandes (sem excepção), através do discurso crispado dos seus dirigentes, que não medem as palavras nem olham a meios para atacar os adversários – acusações, insinuações, insultos, ataques pessoais, processos, todas as semanas há um novo episódio. Nos programas de comentário desportivo, cujos intervenientes incendeiam os debates usando de uma agressividade verbal que em mais nenhum contexto se aceita na televisão portuguesa. Na comunicação social, que adora picardias, polémicas e ajustes de contas – nada melhor para vender jornais ou somar espectadores do que exibição de ânimos exaltados. E nas instituições que gerem o futebol português, enfraquecidas, passivas, permissivas, e incapazes de impor as regras.

Anda tudo indignado com o culto de ódio das claques mas, no final de contas, quem emite os comunicados a censurar as suas manifestações de violência é, na prática, quem as financia e mais incentiva. Está-se a matar o futebol. E estamos, assim, a regressar a um passado que já tínhamos por distante, no qual assistir a um dérbi no estádio correspondia a uma actividade de risco. Não é destino ou fatalismo cultural do sul europeu, é uma escolha consciente. Há cerca de vinte anos, em Inglaterra, perseguiram-se as claques, expulsaram-se os desordeiros dos estádios, reforçou-se a autoridade das instituições, castigaram-se os clubes coniventes com abusos, impôs-se uma mordaça às sucessivas críticas à arbitragem, travaram-se os excessos dos dirigentes. O que se salvou? O futebol. Por cá, só não se faz igual se não se quiser.» (daqui)

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