aproveitamento político

«O mistério do aproveitamento político dos mortos de Pedrogão é tão mais espantoso quanto as mesmas pessoas que agora consideram ser aproveitamento político querer saber quantos e porquê morreram em Pedrogão, levaram o período entre 2011 e 2015 a denunciar os mortos da austeridade. Eram as pessoas que morriam com fome, os que se suicidavam, os que desistiam de viver… Curiosamente nunca então se colocou a questão do aproveitamento político.» (daqui)

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um “não” decente

joão miguel tavares«Dizer isto não é isentar de erros Carlos Costa, Cavaco Silva, Maria Luís Albuquerque ou o próprio Passos Coelho. Uma resolução como a do BES é de tal forma complexa, e teve de ser executada com tal rapidez, que muitos erros terão sido cometidos. Além disso, não restam hoje quaisquer dúvidas de que o Banco de Portugal terá compactuado com Salgado durante demasiado tempo, apesar dos inúmeros alertas e do obsceno recebimento de “liberalidades”. Contudo, é muito fácil apontar alternativas depois dos factos consumados. Independentemente de ser possível fazer melhor, o que me interessa sublinhar aqui é esse “não” central, inédito e relevantíssimo ao Dono Disto Tudo, que conduziu à destruição, nas suas próprias palavras, “do nome Espírito Santo”, apagando “das fachadas dos prédios uma marca com mais de 140 anos”. A importância desse gesto não pode ser desvalorizada: a aparatosa queda do BES é a destruição da impunidade mais desbragada e de uma certa forma de fazer negócios, que dominou o país durante pelo menos duas décadas.» (daqui)

“donos ideológicos disto tudo”

gentil martins«Já há vários anos que os “donos ideológicos disto tudo” têm conseguido catequizar o povo. Ao longo do tempo, através de um sistema de rega gota-a-gota, conseguiram doutrinar as massas, e os seus clichés ideológicos foram aceites como dogmas de fé. Infiltraram-se no Estado, mais precisamente nos capilares do Ministério da Educação e da Saúde, com a sua cartilha fraturante, criando muitas vezes um clima de pensamento único.

Os donos ideológicos disto tudo monitorizam permanentemente a sociedade, como se fossem um sistema imunitário, vigilantes, à espera que surja algum infiel que ouse expressar uma opinião contrária à verdade por eles estabelecida. Cada vez que alguém se atreve a proferir uma heresia, a estratégia é sempre a mesma: procura-se de imediato desqualificar, intimidar e ridicularizar a pessoa, faz-se um ataque cerrado e recorre-se, num automatismo perverso, à inevitável queixa na respetiva Ordem profissional. Dito numa linguagem médica, aquele que se atreve a sair dos clichés ideológicos estabelecidos, é identificado como um corpo estranho, os macrófagos são ativados e procede-se à sua fagocitose.» (daqui)

os “influentes” e os “caciques”

Rui-Ramos-300x300«A retórica anti-partidos, que se ouve desde o século XIX, ajuda os cidadãos a desinteressarem-se mantendo uma boa consciência. Fica a velha dúvida: os cidadãos não querem saber de política porque a política é assim, ou a política é assim porque os cidadãos não querem saber de política?

É nesse contexto que “todos já sabemos” e que “nada nos espanta”. Mas não nos devia inquietar? Ao contrário de outros regimes, a democracia de 1976 tem um eleitorado amplo e as suas eleições são limpas. Mas um Estado capturado por facções de políticos profissionais continua a ser o meio através do qual são feitas as carreiras na vida pública. Isso quer dizer que elegemos representantes cujos primeiros compromissos não são com os cidadãos, mas com os caciques profissionais dos seus partidos. Vista de baixo, a democracia não é participação de todos, mas a organização de alguns.» (daqui)

dois pesos e duas medidas

alexandre-homem-cristo«Pode alguém com prestígio e reconhecimento social falar enquanto cidadão, sem que as suas declarações sejam extrapoladas para a sua actividade profissional? Em Portugal, depende. A Gentil Martins, que é médico mas não ocupa cargo institucional de representação da sua classe, não foi concedido esse estatuto de falar enquanto cidadão e de expor a sua opinião sem posteriores julgamentos acerca de como exerce a sua actividade. Mas, há dias, Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, pôde pendurar as suas funções institucionais e, através de “posições pessoais”, criticar duramente o Ministério Público em casos que envolvem o governo. Logo ele que, ocupando o segundo lugar da hierarquia do Estado, tem um dever de isenção, que pretendeu suspender para abalar a separação de poderes no regime. E sem que se ouvisse sequer um burburinho. Há aqui algo que não bate certo: uns podem tudo, outros não podem nada. O ar está a tornar-se irrespirável.» (daqui)