o que está realmente em causa

helena-garrido«Perante estes factos, a defesa dos interesses dos trabalhadores aparece como um sub-produto do objectivo principal: a CGTP, afecta ao PCP, quer controlar sindicalmente a Autoeuropa que até agora estava sob a influência do Bloco de Esquerda. Esta é a principal batalha que se desenrola na fábrica e para a qual cada parte está a mobilizar as suas tropas. A defesa dos interesses de quem trabalha na fábrica está em segundo plano. Caso exista um conflito entre os dois objectivos, vai dar-se prioridade ao que garantir a vitória do sindicato e não dos trabalhadores.

São estas batalhas, que colocam os interesses partidários acima dos interesses dos trabalhadores, que têm contribuído para a desacreditação dos sindicatos, enquanto organizações de defesa de uma das partes que integra a comunidade empresa. Mas há também outros factores mais recentes, como o individualismo e na era actual a arma letal para os sindicatos que é a nova organização do trabalho simbolizada pela Uber.» (daqui)

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a nova cartilha

maria joão avillez«Vigiam-nos. Estão atentos. Estão de serviço. Mobilizados pelo pensamento único, uma nova forma de vida. Nunca se cansam. São ferozes na vigilância, implacáveis na perseguição, sonoros na censura. A nova cartilha e os seus mandamentos não incluem desvios. A nobre arte de debater, a esgrima dos argumentos, a relevância da dúvida, o valor da discordância, estão proibidos pela própria natureza da subversão civilizacional em curso.

Os novos proprietários querem-nos fora de pé, ao largo de nos próprios, cortados pela raiz do que somos e representamos. Querem que nos transfiguremos noutros, atraiçoando o nosso “nós” individual e anestesiando o “nós” colectivo.

Querem-no com ferocidade, não usando de contemplação: o castigo terá apenas o limite da sua própria obscenidade: a intimidação, a denúncia, a manipulação, a mentira, o escárnio público, abater-se-ão sobre os prevaricadores, qual raio ou trovão. A extrema-esquerda, radical de seu nome próprio, é aliás exímia na aplicação destes instrumentos que manuseia com a habilidade ácida do ódio. Temo-lo visto. É preciso licença prévia para pensar e depois dizer alto o que se pensou.

Qualquer “forma mentis” que não encaixe no novo código de conduta está automaticamente banida do seu direito de cidade, privada do oxigénio da liberdade e da vitamínica possibilidade da interrogação e debate. Há uma guerra cultural em curso.» (daqui)

politicamente correcto

Rui-Ramos-300x300«A crer nos apóstolos do politicamente correcto, o passado foi um horror e a sua memória e os seus monumentos deviam ser abolidos. Mas o presente, apesar de constantes “vitórias”, não é melhor: nunca o racismo foi tão grave, nunca a homofobia foi tão alta, nunca a misoginia foi tão aguda. Não há progresso. Porquê? Porque as pessoas, deixadas em liberdade, tendem ao erro e à malícia, como outrora tendiam ao pecado. Há sempre uma piada reveladora, um gesto sintomático. O problema é, portanto, a liberdade. O politicamente correcto tem assim de pressupor um poder absoluto, capaz de fiscalizar todas as relações, de modo a extirpar todos os preconceitos e impurezas, tenham a forma de um piropo ou de uma cortesia. Por enquanto, vai havendo a caça às bruxas nas redes sociais.

Há ainda um aspecto significativo: de todas as tendências ocidentais, esta é a única que não tem aspirações universais. Os seus defensores, que combatem a separação entre brinquedos para meninos e meninas, nada têm a dizer sobre a segregação dos sexos nas comunidades islâmicas. A barbie indigna-os, mas a burqa não lhes diz nada. O politicamente correcto é um sinal do que pode vir a ser um Ocidente em declínio: uma aglomeração paroquial de pequenos lóbis identitários, em disputas absurdas, sob a vigilância de um poder despótico. Parece que era assim Bizâncio antes da conquista muçulmana.» (daqui)

terrorismo

ng1336521_435x190«Pelo que tem sido dito por governantes, autarcas, bombeiros e gente ligada à proteção civil, há crime por detrás do que temos vivido. Falam, mas não usam as palavras certas. Fica aqui escrito. Um incendiário é um terrorista. Lançar fogo a uma floresta é terrorismo e o terrorismo, tal como o crime organizado e violento tipo mafioso, é combatido com meios próprios e excecionais que, apesar de tudo, têm tido resultados parcialmente positivos. Faça-se o mesmo no caso dos incêndios, com as adaptações necessárias. Mas atue-se de vez. Não se pode é argumentar com uma coisa e depois não se ser consequente. Se há crime organizado ou terrorismo (diferença que aqui é meramente semântica), então é importante saber o que já foi feito ou se é apenas uma atoarda para nos agravar a insegurança e disfarçar incompetências.» (daqui)

as águas, os ataques e os aproveitamentos políticos

(publicado originalmente na página Almeirim 2017)

Quando tudo parecia correr às “mil maravilhas” no reino cor-de-rosa que é Almeirim, eis que os problemas com uma conduta que abastece de água a cidade, levaram a que se levantasse um coro de vozes, nomeadamente nas redes sociais (vulgo Facebook), contra o presidente do município, criticando e exigindo soluções rápidas. Logo a seguir e em resposta, um outro coro, desta feita dos defensores do autarca, acusando os primeiros de ataques políticos em plena época de campanha eleitoral para as próximas autárquicas.

Vamos por partes. O Município de Almeirim não tem responsabilidade directa nos problemas que possam existir na rede de abastecimento de água ao concelho. Com a criação da empresa intermunicipal Águas do Ribatejo, a gestão e a exploração dos sistemas de abastecimento e distribuição de água para consumo público e de saneamento de águas residuais, passaram dos municípios que a integram para a empresa. No entanto, e como o Município de Almeirim é um dos accionistas da empresa, tem a sua quota-parte de responsabilidade no que à gestão da empresa diz respeito, nomeadamente ao nível da prevenção de situações desta e na criação de mecanismos que permitam minorar os efeitos que um problema destes tem junto das populações.

[Apenas um esclarecimento depois de alguns comentários que li. Com a passagem para a Águas do Ribatejo, a água não foi privatizada. A empresa intermunicipal Águas do Ribatejo é uma entidade cem por cento pública, cujos estatutos não permitem, sequer, a entrada de parceiros privados. Na minha opinião, uma medida populista e com um forte cariz ideológico, que não impediu a empresa de proceder a aumentos tarifários bem acima dos valores da taxa de inflação e de apresentar, em 2016, lucros superiores a um milhão e meio de euros.]

Quando se transformam as redes sociais numa espécie de diário público, na maioria das vezes com publicações que não passam de meras manifestações de propaganda política, não é de estranhar que aqueles que se sentiram atingidos por este problema usem as mesmas redes sociais para pedir explicações sobre o sucedido e para ali derramarem o seu descontentamento (seria bastante melhor para a nossa democracia que usassem o boletim de voto mas, o mais provável, é que nem se dignem a votar). Não os podemos acusar de ataques políticos em época eleitoral. Apenas estão a usar as mesmas armas que outros usam durante quatro anos para efeitos propagandísticos.