dúvidas e objecções

p_1121_Livro-ViagensGulliver«Assim que concluí os meus longos discursos, Sua Majestade, numa sexta audiência, examinando os seus extractos, apresentou-me muitas dúvidas e grandes objecções acerca de cada assunto. Perguntou-me quais eram os meios vulgares empregados para cultivar o espírito da nossa juvenil nobreza; quais as medidas que se tomavam, quando uma casa nobre se extinguia, o que podia dar-se de tempos a tempos; quais as qualidades precisas aos que deviam ser criados como novos pares; se o capricho do príncipe ou uma importante quantia dada de propósito a uma dama da corte e a um favorito, ou um desejo de fortalecer um partido da oposição ao bem público, não eram nunca motivos para essas promoções; qual era o grau de ciência que os pares possuíam acerca das leis do seu país, e como se tornavam capazes de decidir em último recurso dos direitos dos seus compatriotas; se eram sempre isentos de avareza e preconceitos; se os santos bispos de que eu falara, alcançavam sempre esse alto cargo pela sua ciência sobre matérias teológicas e pela santidade da sua vida; se nunca tiveram fraquezas; se nunca tinham intrigado enquanto padres; se não tinham sido outrora esmoleres de um par, por intermédio do qual conseguiam ser elevados a bispos e se, neste caso, não seguiam sempre, cegamente, a opinião do par e não serviam a sua paixão ou o seu preconceito na assembleia do Parlamento.

Quis saber como se procedia para a eleição daqueles que chamara de comuns; se um estranho, com uma bolsa recheada de ouro, não podia, algumas vezes, ganhar o sufrágio dos eleitores à força do dinheiro, fazer-se preferido ao seu próprio senhor, ou aos mais importantes e mais distintos da nobreza na vizinhança; por que é que havia tamanha paixão em se ser eleito para a assembleia, pois que esta eleição dava ensejo a uma grande despesa e não rendia coisa alguma; que era preciso, pois, que os eleitos fossem homens de um completo desinteresse e de uma eminente e heróica virtude, ou, ainda, que contassem ser indemnizados e reembolsados com usura pelo príncipe e pelos ministros, sacrificando por eles o bem público. Sua Majestade apresentou-me, sobre esta matéria, dificuldades extraordinárias, que a prudência me não permite repetir.» (excerto de “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Smith – Segunda Parte, Capítulo IV)

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