então, tal como agora…

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“1808”, de Laurentino Gomes

«Nos treze anos em que D. João viveu no Brasil, as despesas da mal-administrada e corrupta Ucharia Real mais do que triplicou. O déficit crescia sem parar. No último ano, 1821, o buraco no orçamento tinha aumentado mais de vinte vezes — de 10 contos de réis para 239 contos de réis. Apesar disso, a corte continuou a bancar todo mundo, sem se preocupar com a origem dos recursos. “Todos, sem exceção, recebiam ração, de acordo com seu lugar e valimento”, explica o historiador Jurandir Malerba. “Nobres, mas também cada artista contratado, como os cantores e músicos italianos, ou pintores e arquitetos franceses e naturalistas austríacos, embaixadores e funcionários das repartições recebiam sua cota de víveres à custa da Ucharia Real, prática extinta apenas no governo do austero D. Pedro I.”

Onde achar dinheiro para socorrer tanta gente? A primeira solução foi obter um empréstimo da Inglaterra, no valor de 600000 libras esterlinas. Esse dinheiro, usado em 1809 para cobrir as despesas da viagem e os primeiros gastos da corte no Rio de Janeiro, seria um pedaço da dívida de 2 milhões de libras esterlinas que o Brasil herdaria de Portugal depois da Independência. Outra providência, igualmente insustentável no longo prazo, foi criar um banco estatal para emitir moeda. A breve e triste história do primeiro Banco do Brasil, criado pelo príncipe regente sete meses depois de chegar ao Rio de Janeiro, é um exemplo do compadrio que se estabeleceu entre a monarquia e uma casta de privilegiados negociantes, fazendeiros e traficantes de escravos a partir de 1808.

Pela carta régia de outubro de 1808, o capital do Banco do Brasil seria composto de 1200 ações no valor unitário de um conto de réis. Para estimular a compra dessas ações, a Coroa estabeleceu uma política de toma-lá-dá-cá. Os novos acionistas eram recompensados com títulos de nobreza, comendas e a nomeação para cargos de deputados da Real Junta do Comércio, além da promessa de dividendos muito superiores aos resultados gerados pela instituição. Em troca, o príncipe regente tinha à disposição um banco para emitir papel-moeda à vontade, tanto quanto fossem as necessidades da corte recém-chegada. Como resultado, quem era rico e plebeu virou nobre. Quem já era rico e nobre, enriqueceu ainda mais. A mágica funcionou durante pouco mais de dez anos.

Em 1820, o novo banco já estava arruinado. Seus depósitos em ouro, que serviam de garantia para a emissão de moeda, representavam apenas 20% do total de dinheiro em circulação. Ou seja, 80% correspondiam a dinheiro podre, sem lastro. Noventa por cento de todos os saques eram feitos pela realeza. Para piorar a situação, ao retornar a Portugal, em 1821, D. João VI levou todas as barras de ouro e os diamantes que a Coroa mantinha nos cofres do banco, abalando definitivamente sua credibilidade. Falida e sem chances de recuperação, a instituição teve de ser liquidada em 1829, sete anos depois da Independência. Foi recriada duas décadas e meia mais tarde, em 1853, já no governo do imperador Pedro II.»

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os “doutores”

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Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém

Iniciei, há precisamente oito anos, o meu percurso académico no ensino superior politécnico como aluno do curso de Administração Pública da Escola Superior de Gestão e Tecnologia de Santarém, grau de licenciatura que concluí nos três anos previstos no plano de estudos. Para além da frequência positiva a todas as unidades curriculares, tive ainda que redigir, apresentar, discutir e defender um trabalho final de curso, para que pudesse concluir a licenciatura com sucesso. Não usufruí, por isso, de qualquer tipo de ajuda para a conclusão do curso.

Quando me candidatei ao ensino superior, incentivado por amigos, foi com o objectivo de enriquecimento pessoal e, também, porque na altura estava envolvido na política autárquica e acreditava que a licenciatura seria uma mais-valia. Nunca o fiz por vaidade, nem muito menos para que me pudessem tratar por “senhor doutor”, coisa, aliás, que abomino!!! Doutores, para mim, são os licenciados em medicina e, quanto muito, os advogados. Doutores são aqueles que, com base num trabalho de investigação científica, são aprovados nas rigorosas provas de doutoramento. Todos os que terminam uma licenciatura são, apenas e só, licenciados!

Somos um país onde possuir um título significa mais do que se ser alguém. É neste afã de se querer ser “doutor” a todo o custo que uns que obtém umas creditações e concluem, num único ano, os três da licenciatura; outros são-lhes feitos exames aos domingos; e outros, ainda, que apesar de nunca terem terminado a licenciatura, também são tratados por “doutor”!!!

E esta, hein???

“twitto, logo existo”

redes-sociais_1«Parece difícil de imaginar, mas houve tempos em que os seres humanos não sentiam necessidade de partilhar cada momento que passavam acordados com milhões, senão mesmo milhares de milhões, de completos e perfeitos desconhecidos. Se uma pessoa ia a um centro comercial comprar uma peça de roupa, não fazia publicações com actualizações a cada minuto numa rede social; e se fazia figuras tristes numa festa, não deixava registo fotográfico desse episódio lamentável num álbum digital que sobreviveria para toda a eternidade. Mas actualmente, na era das inibições perdidas, parecia que nenhum pormenor da vida era demasiado trivial ou humilhante para ser partilhado. Nos tempos em linha, era mais importante viver sonoramente do que viver com dignidade. Os seguidores que tinha na Internet era mais prezados que os amigos de carne e osso, já que traziam a promessa ilusória da celebridade, senão mesmo da imortalidade. Se Descartes fosse vivo, poderia ter escrito: Twitto, logo existo.» (in “O Assalto”, de Daniel Silva)

“maturidade democrática”

A Ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, concedeu uma entrevista ao Observador, na qual afirma que Pedro Passos Coelho seria um excelente líder de oposição e que isso seria um sinal de “maturidade democrática”.

«O dr. Pedro Passos Coelho tem demonstrado ser um líder muito forte, muito convicto, muito preocupado com o interesse do país. E acho que seria sempre um excelente líder – com um contributo relevante para o país – quer à frente do Governo, quer à frente, eventualmente, da oposição.»

Concordo plenamente! Mas, se é certo que não faltam exemplos, na Europa, de líderes de governo que passam para líderes da oposição sem que venha grande mal ao mundo, em Portugal isso é impossível de acontecer! Basta relembrar o que se passou no principal partido da oposição que, após ter ganho duas eleições, mudou de secretário-geral.

Por outro lado, estamos a falar do PSD. Um partido que tem uma propensão elevada para se ver livre de líderes perdedores. Quantos presidentes teve o PSD após a derrota eleitoral de 2005? Cinco! Não creio, pois, que uma derrota eleitoral em 2015 conduza a um cenário muito diferente deste. Até porque existem militantes descontentes com a actual direcção partidária e com a linha política seguida pelo governo e que não perderão a oportunidade por ajustar contas.

1º de dezembro

restauração independenciaA propósito da abolição dos feriados nacionais impostos pela troika mas, principalmente, pelo que representa a Restauração da Independência após 60 anos de domínio castelhano, estava para fazer escrever uma longa dissertação, mas julgo que seria uma perda de tempo.

Assim, resumo-me a uma ideia básica e bastante simples: só damos valor às coisas quando as perdemos!

Nunca, como agora, se falou tanto do 1.º de Dezembro e do que ele significa, para nós, portugueses. Antes de ter sido decretada a abolição deste feriado, ele apenas representava um dia a menos de trabalho (para alguns). Que este ano, por sinal, significava um fim-de-semana prolongado.

Não sou daqueles fanáticos que acredita que a produtividade aumentou porque se aboliram quatro feriados. Mas, também não sou ingénuo ao ponto de acreditar que a solução dos problemas económicos deste país passa pela reposição destes dias.