uma anedota em estilo de conto moral

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«Um português, um espanhol e um francês, os eternos companheiros das anedotas, lamentavam não poder satisfazer os seus desejos. A amargura eram tanta que Deus Nosso Senhor, bem acordado e bem disposto nesse dia, ouvi-os e resolveu surpreendê-los. Apareceu, apresentou-se com conveniência para não haver dúvidas ou hesitações e disse:
– Deixem-se de lamúrias, acreditem em mim e aproveitem a oportunidade que lhes vou dar. Peçam o que quiserem e eu irei satisfazer de imediato os vossos desejos.
Como os três, muito desconfiados, se miraram sem saber o que dizer, Deus avisou-os de que não estava para desconfianças: Tomé, o tal do ver para crer, tinha havido um e chegava.
Deus apontou para o francês e perguntou qual era a coisa que ele mais desejava. O francês queria que lhe servissem uma refeição exemplar. Com todo o à-vontade disse que queria o Alain Senderens para lhe confeccionar uma sopa, o Ducasse para imaginar umas entradas, o Bocuse para lhe preparar um peixe e o Michel Guérard para lhe servir uma peça de caça cozinhada com a ligeireza da sua imaginação.
– Posso pedir mais?, perguntou o francês.
– Pede., respondeu Deus.
– Para sobremesa o Le Notre, mas ele próprio, que me irá prepara algo de raro. Para beber tenho uma lista extensa. Quero começar , ou terminar, tanto faz, com um Chateaux d’Yquem, depois um Petrus, deixo o ano à escolha, e um Clos de Vougeot para celebrar a vinha mais antiga da Europa.
Deus fez um gesto e o francês ficou servido para o resto da vida.
– Agora tu, espanhol, é a tua vez, disse Deus.
– Ay Señor, Señor, lo que quiero nadie lo puede hacer!
– Continuas a não acreditar? Olha que eu passo já para o português…, resmungou o Senhor já pouco satisfeito.
– Bueno, si quieres yo te lo digo mas verás que és impossible, replicou o espanhol que, por acaso, era de Sevilha.
– Pa mi, no!, exclamou Nosso Senhor em bom acento sevilhano, capador de letras.
– Pois bem, quero estar sentado numa barreira na Maestranza de Sevilha e ver tourear três que já morreram, e por isso digo que é impossível. Quero ver o Josellito El Gallo, Manolete e António Ordoñez. Touros de Verágua, Parladé e Albasserada. Podem pôr um Miúra de sobrero. Quero pendurar-me num bom charuto cubano, e ficar no meio de duas sevilhanas trajadas a rigor com «mantilla e peiñeta».
Olé! Deus fez um gesto e o espanhol ficou feliz para o resto da vida.
– Agora tu, português., disse Deus. O que desejas mais na vida?
O português, pensou, coçou a barba e perguntou:
– Vocemecê sabe onde eu moro?
– Ó homem, se sou Deus sei onde tu moras e onde mora toda a gente.
Voltou a responder o português:
– Então, se assim é, Vocemecê sabe onde mora o meu vizinho, aquele que tem uma cabra muito gorda, que dá muito leite e que lhe nascem muitos cabritos?!
– Claro que sei., respondeu Deus.
– Então mate-lhe a cabra., disse o português.
Parece que Deus não lhe fez a vontade e o português nunca foi feliz até ao fim da vida.»

(original escrito por Alfredo Saramago e publicado no editorial da 19ª edição da revista “Epicur”)

 

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o engraxanço e o culambismo português

5f5b8269cd2931cd7c52246d95f13d85«Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço». Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.
Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada. O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas. Ninguém gostava de um engraxador.

Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu. O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu. Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing. Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo.

(…) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional. O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês.»

Miguel Esteves Cardoso, in ‘Último Volume’

(texto retirado daqui)

perguntas que incomodam

foto_laurindaalves«Perante esta realidade é impossível não olhar com perplexidade para o cúmulo de excessos, mas também é impossível não nos interrogarmos. Algumas perguntas têm que ficar a fazer eco e a incomodar-nos. Questões sobre quem organiza tudo isto, naturalmente, mas também sobre as relações entre pais e filhos, alunos e professores, amigos e amigas. As famílias já não são o que eram e, por isso, ninguém sabe até que ponto uma rapariga ou um rapaz têm condições para entender o impacto daquilo que estão a viver. Muito menos para fazerem a sua catarse pós-ressaca, no caso de terem consciência do que viveram durante a bebedeira.

Estes rapazes e estas raparigas são jovens e têm um futuro pela frente. Muitos deles virão a ser pais, terão os seus filhos e as suas filhas, e uma das grandes interrogações também passa por saber como agiriam se soubessem que as suas próprias filhas se vendem por um par de shots ou de cervejas. Neste tempo, em que são filhos, entram no jogo e estabelecem os seus valores e preços, mas será que gostariam que a sua filha se prostituísse e fosse filmada enquanto se prostituía? E será que não se angustiariam com o facto de essas imagens ficarem para sempre na net?» (daqui)

a dessocialização e o hiperindividualismo

BaleiaAzul«Os “desinteressados da vida” formam um verdadeiro exército de pessoas desvinculadas, sem pertença, que vivem adormecidas numa indolência perigosa, em risco de serem recrutadas por líderes populistas e extremistas. Este recrutamento tanto pode servir para matar em nome de uma ideologia radical ou de um grupo terrorista (veja-se o tipo de recrutamento realizado pelo Estado Islâmico nos jovens europeus), como pode ser utilizado para morrer, num jogo absurdo e perverso, como é o caso da baleia azul.

O Homem tem uma inclinação natural para socializar. Quando essa característica é comprometida, o indivíduo fica fragilizado, favorecendo o aparecimento de comportamentos imprevisíveis e autodestrutivos. As novas tecnologias estão a modificar a relação entre as pessoas, se o seu uso não for equilibrado podem colocar em risco a coesão social. Citando Ortega y Gasset, “convém salientar que não há nenhum progresso seguro, nenhuma evolução, sem a ameaça de involução e retrocesso” (daqui)

deserção cívica e liberdade de expressão

joão miguel tavares«Primeira lição a tirar deste caso: a deserção cívica é o primeiro passo para os extremistas imporem a sua lei.

Segundo lição a tirar deste caso: a luta pela liberdade de expressão é um dos combates mais sérios e necessários dos nossos dias. Aquilo que se está a fazer em nome de uma agenda progressista é promover o exercício da censura nos espaços que nasceram para estimular o debate intelectual livre. Ler a acta da RGA que impediu Nogueira Pinto de falar, o conteúdo da moção que foi aprovada e a subsequente justificação da associação de estudantes é chocante, desde logo porque encaixa como uma luva na vergonhosa cultura dos trigger warnings e atenta contra a mais básica lição de John Stuart Mill: silenciar uma opinião é roubar a humanidade do seu mais valioso património, pois se essa opinião estiver certa perdemos uma oportunidade de corrigir a nossa própria opinião, e se essa opinião estiver errada perdemos uma oportunidade de denunciar a sua falsidade.» (daqui)