dois pesos e duas medidas

alexandre-homem-cristo«Pode alguém com prestígio e reconhecimento social falar enquanto cidadão, sem que as suas declarações sejam extrapoladas para a sua actividade profissional? Em Portugal, depende. A Gentil Martins, que é médico mas não ocupa cargo institucional de representação da sua classe, não foi concedido esse estatuto de falar enquanto cidadão e de expor a sua opinião sem posteriores julgamentos acerca de como exerce a sua actividade. Mas, há dias, Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, pôde pendurar as suas funções institucionais e, através de “posições pessoais”, criticar duramente o Ministério Público em casos que envolvem o governo. Logo ele que, ocupando o segundo lugar da hierarquia do Estado, tem um dever de isenção, que pretendeu suspender para abalar a separação de poderes no regime. E sem que se ouvisse sequer um burburinho. Há aqui algo que não bate certo: uns podem tudo, outros não podem nada. O ar está a tornar-se irrespirável.» (daqui)

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desacreditar as instituições

teodora_cardoso«A única questão que interessa hoje está na forma como, dia após dia, figuras de PS-PCP-BE têm intimidado o funcionamento de instituições independentes. Há que sair das trincheiras partidárias e perceber que esta não é uma questão de esquerda ou de direita, de partido A ou partido B. É de bom funcionamento da democracia. Porque uma coisa é discordar dos pareceres das instituições que enquadram a actuação do governo – é da vida e faz parte do xadrez democrático, feito de equilíbrios, freios e contrapesos. E porque outra coisa é desacreditar as instituições, ameaçar os seus representantes com sanções e cercar a crítica. Isso já não é combate político, mas sim abalar as instituições públicas cuja independência determina a saúde de uma democracia.

É, pois, admirável que esta intimidação passe como um facto normal no nosso debate público – o que mostra quão frágeis são os alicerces da nossa democracia entre os nossos partidos. E ainda mais admirável que quem tem a responsabilidade máxima na salvaguarda das instituições democráticas – o Presidente da República – alinhe no enxovalho e venha ele próprio contestar Teodora Cardoso. Sobre Marcelo, escrevia Vasco Pulido Valente (VPV) que a direita não está satisfeita por causa da sua assistência ao governo. Ora, o tiro de VPV falha o alvo: a insatisfação justifica-se, antes de mais, pela conivência de Marcelo para com esta sucessão de atropelos institucionais. Que isso preocupe mais a direita do que a esquerda diz, na verdade, mais sobre a esquerda do que sobre a direita.» (daqui)

dois pesos, duas medidas

antonio_costa2«Num país com uma real cultura de liberdade, os insultos via SMS que António Costa dirigiu ao jornalista João Vieira Pereira, director-adjunto do jornal Expresso, teriam merecido reprovação generalizada e embaraçado o líder socialista. Mas, como estamos em Portugal e como se trata de António Costa, foi apenas nota de rodapé durante um feriado. Imagine o que seria se o mesmo tivesse acontecido nos EUA, no Reino Unido ou em França. Ou, tão simplesmente, o que se diria caso o autor do SMS fosse Passos Coelho ou Miguel Relvas, em vez de António Costa. Quando a nossa disponibilidade para condenar ataques à liberdade de imprensa é selectiva, algo está mal. E é por isso que não é fácil desempatar e decidir o que é mais grave neste episódio: se o próprio SMS de António Costa ou se o facto de ninguém se ter realmente importado.» (daqui)

dúvidas várias

daniel proença carvalho«É que, de facto, resistem várias dúvidas quanto a esse contexto. Qual a relação que Sócrates teria tido na compra da Controlinveste (DN, JN, TSF, O Jogo), da qual Proença é hoje chairman? Qual a influência que o ex-primeiro-ministro teria tido – como escutas publicadas indiciam que teve – na escolha do jornalista Afonso Camões para a direcção do JN? Por que razões não considera existir uma incompatibilidade ética entre ser chairman de um grupo de comunicação e, através desse grupo, defender pessoas que lhe estão profissionalmente associadas – como defendeu Sócrates na TSF, no seguimento da sua detenção e do motorista João Perna, que o seu escritório representou? E por que razão não vê implicações na coincidência de ser o mais reputado crítico do juiz Carlos Alexandre, quando este é responsável pela investigação ao ex-primeiro-ministro e ao banqueiro Ricardo Salgado, seu cliente?» (daqui)