apatia e inoperância

Rui-Ramos-300x300«O presidente da república teria de figurar nesta feira de enganos, por este motivo: a uma governação deste tipo, não basta, da parte do presidente, “cooperação institucional”; precisa de cumplicidade política. Este é um dos maiores perigos do actual governo para o regime: de tão fraco, acabará por comprometer tudo e todos.

Nixon caiu porque os americanos levam a sério os abusos de poder e as mentiras de quem exerce cargos públicos, e porque as instituições nos EUA funcionam. Por cá, qualquer governo está resguardado pela apatia pública e pela inoperância institucional. Estamos geralmente condenados a ficar só pelas suspeitas. Mas as suspeitas, se não chegam para derrubar um governo, chegam talvez para desacreditar um regime.» (daqui)

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ironias…

2013-05-03_joao_marques_de_almeida_2«Não nos podemos esquecer que o BE e o PCP estão pela primeira vez no poder, e estão a mostrar ao país a sua verdadeira natureza. Os dois partidos são compostos por verdadeiros profissionais da política. Se for necessário, sacrificam tudo no altar do poder. Mas o episódio Caixa está a testar o profissionalismo dos camaradas. A linguagem corporal da gémea Mortágua e de Louçã, nas suas aparições furiosas na televisão, mostrou tudo. O embaraço é visível, daí o tom de irritação quando discutem a Caixa. Do lado do PCP, o normalmente ponderado João Ferreira garantiu em directo aos portugueses que o seu partido nunca pede a demissão de ministros. Foi embaraçoso assistir ao tamanho da sua mentira, que só poderá ser explicada pela contradição entre o poder e o discurso. Tal como na guerra, a verdade foi a primeira vítima da geringonça. E a mentira tornou-se o método para esconder as contradições entre os três partidos.

Foram essas contradições que em grande medida explicam o modo como a equipa de António Domingues foi contratada. O governo sabia que o BE e o PCP nunca aceitariam as condições acordadas com Domingues, como aliás se viu. Por isso tentou manter tudo em segredo. Quando foi apanhado, fez a única coisa possível: deixou cair Domingues. Toda a gente sabe que Centeno e António Costa aceitaram as condições de Domingues e todos sabem que eles mentiram. A única dúvida é saber se se encontram as provas da mentira.» (daqui)

descrédito completo

«Trump dá muito jeito à geringonça e ao bufão presidencial. A constante histeria sobre os EUA desvia o olhar de Portugal. Olha-se para longe, faz-se uma declaração grandiloquente contra o “ditador” que ameaça a “democracia” enquanto valor abstracto e, no final do dia, dá-se pouca importância aos casos concretos que destroem aqui em Portugal o respeito pela nossa III República.

O caso Centeno é claríssimo a este respeito. Ao não demitir um ministro que mentiu ao pais, Costa contribui para o tal descrédito das instituições que levam à abstenção, ao populismo, etc. O curioso é que muita gente vai defender Centeno numa lógica tribal. Estamos a falar de pessoas que passam o dia inteiro a xingar o novo presidente americano. Trump é uma bela muleta.» (daqui)

incapacidade nacional

vpv«Para mim o mistério desta história toda está em que não há um único culpado para o imbróglio. Parece que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças não tiveram nada com isso e que as manadas de juristas da Presidência do Conselho e da administração central estavam a dormir. Ninguém confessou um erro, uma inadvertência, uma confusão. Só os partidos (tirando o PS) se esganiçaram, segundo o seu hábito e vocação, a proclamar a sua virtude e a santa defesa do contribuinte. Como, aliás, Marcelo Rebelo de Sousa, que perpassa por detrás desta história toda, esperou para abrir a boca que o sarilho estivesse consumado: não lhe dizem nada? e ele não pergunta nada?

Mas como querem estes senhores que os levem a sério, quando um governo normal e um Presidente normal teriam tratado do assunto em meia dúzia de dias, sem desentendimentos, sem conflitos, sem a exaltada polémica que por aí consola e alimenta os comentadores? Que o problema de nomear um nova administração para a Caixa Geral de Depósitos sirva de causa e de pretexto para pôr o país num estado de indignação geral (quer a favor de Domingues, quer a favor da lei) é um sintoma da nossa incapacidade nacional e da crescente deterioração do regime em que infelizmente vivemos.» (daqui)

a típica manhosice política

josé manuel fernandes«Isto não é apenas uma trapalhada – isto é um modus operandi típico de quem fez uma combinação que não devia ter feito, de quem aprovou uma lei que não devia ter aprovado, de quem procura atirar a responsabilidade (primeiro) e as culpas (depois) para cima de outros e, sobretudo, de quem não quer definir-se e só procura um bode expiatório. A comandar este exercício de suprema hipocrisia política está naturalmente o primeiro-ministro, por certo convencido que a arte de bem se esgueirar como uma enguia é a suprema arte do bom político.

Tudo pode acabar mal, e o supremo cinismo é nem sequer assumir com frontalidade que se prometeu o que não se podia ter prometido. Mas se acabar mal, e se esta administração da Caixa cair, o terreno está desbravado para serem eles os maus da fita, os que não quiseram cumprir a lei, os que se julgam acima do comum dos mortais. Nessa altura António Domingues terá toda a razão para se sentir enganado, mas sobretudo perceberá que pouco proveito terá em ter colocado as suas condições em devido tempo e ter moralmente razão. Perceberá como vale pouco a palavra dada em política – em especial a palavra de certos políticos – e que engolir sapos faz parte do menu de quem vai para uma Caixa Geral de Depósitos.» (daqui)