“algo não bate certo”

antonio_galamba_3«A presunção, a água benta e os decretos cada um toma os que quer. O espantoso em toda a retórica política a que se assiste é ter um governo a proclamar o fim da austeridade, constatar-se o nível de cativações para que se cumpram objetivos da austeridade e vislumbrar a agitação que grassa nos apoiantes da solução governativa para extraírem dividendos de um crescimento que não está diretamente associado às soluções viabilizadas. Não foi induzido pelo consumo privado, não foi catalisado pelo investimento público, não resultou de nenhuma das opções de fundo que não sejam o crescimento do turismo e das exportações, num quadro de legislação laboral que é anterior a 2015.

O espantoso é que as mesmas proclamações ou decretos do governo suscitem atitudes totalmente diferenciadas, condescendente com o primeiro ministro e o ministro das finanças, intolerante com o ministro das finanças, logo objeto de setas para baixo e outros distrates por abuso de euforia. Essa condescendência, essa falta de escrutínio a par da falta de assertividade da oposição tem feito com que muito papem tudo.

É esse “come a papa” que tem feito com que, estando aos olhos de todos que algo não bate certo, se continue a achar que está tudo bem, enquanto se batem recordes de dívida pública, a realidade desmente algumas narrativas e se correm demasiados riscos com questões importantes para as pessoas e para o crescimento económico.» (daqui)

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“ignorar bactérias”

antonio_galamba_3«O que aconteceu em Pedrógão Grande ou em Tancos foram manifestações de sintomas de falência de funcionamento de órgãos do Estado, sinais de prenúncio de risco de septicémia do Estado de direito democrático. Não deve ser relativizado nem a culpa política deve morrer solteira, como tantas vezes acontece. Negar a realidade é o primeiro passo para que pouco se faça para impedir que se repita e para identificar situações similares com elevado potencial de risco. Se não fizermos o que depende da vontade política e da iniciativa humana, dificilmente estaremos em condições de ter uma resposta aceitável perante situações mais exigentes, não controláveis.

É esse o drama de ignorar as bactérias, os seus riscos e as suas consequências. Se pode correr mal, acaba por correr mal. Há matérias em que o luso desenrasca há muito deixou de ser suficiente. É da vida.» (daqui)

os lesados dos lesados

antonio_galamba_3«Por maior que possa ser o sentido de justiça, o resquício de coerência e o sentido de resposta ao presente, é um contrassenso deixar instalar a perceção de facilitismo, de que é possível tudo, para depois o Estado não conseguir responder às suas responsabilidades urgentes e emergentes em questões fundamentais para a integridade física e a segurança das pessoas e dos bens.

Agora que o outsourcing de um consultor do primeiro ministro anunciou uma solução a meses para os lesados do BES, é bom que se tenha a consciência de que o perfil da gestão governativa e do facilitismo dos apoiantes da solução é gerador de novos lesados do Estado, que somam aos de sempre, estruturais, esquecidos e sem relevância eleitoral que baste. Os que estão fora do sistema e do radar eleitoral de quem busca pouco mais que a sobrevivência política.» (daqui)

palavra de socialista (3)

antonio_galamba_3«Como o poder não deve ser um fim em si mesmo, importa saber qual a banda larga e a banda estreita de um governo das esquerdas. Como, com que garantias, para quê e para que horizonte temporal? A súbita predisposição das esquerdas pode ser uma auto-estrada para o diálogo e para a convergência, mas que ninguém tenha dúvidas de que é uma PPP cuja factura será apresentada mais à frente ao país e ao PS.

As sequelas serão mais graves que as que resultaram da assinatura do memorando com a troika, em 2011. Embora para alguns sejam eleições menores, importa renovar a maioria absoluta nos Açores em 2016 e, no mínimo, em 2017, manter as 150 câmaras municipais lideradas pelo PS. É por isso que o encantamento de alguns pelo poder, pelas euforias presentes e pela geometria variável das regras, dos valores e dos princípios soa à orquestra do Titanic que, depois de embater no iceberg, prosseguiu com a música enquanto o navio se afundava. E mesmo nessas circunstâncias, a orquestra tocava convictamente afinada, algo que não se vislumbra na presente situação.

A música que foi pedida pelos portugueses foi a da mudança das políticas. Quem ganha deve governar com esse registo. Não é o da austeridade custe o que custar nem é o do protesto. Tudo o resto é confundir o trágico com o histórico. Na política como na vida, não vale tudo.» (daqui)

palavra de socialista

antonio_galamba_3«A oportunidade de António Costa concretizar o seu primeiro compromisso com os militantes e simpatizantes socialistas: a conquista da maioria absoluta. Fundamental para o País se livrar da Direita, com estabilidade e foco na criação de emprego. Depois do quadro macroeconómico, do programa eleitoral e da escolha dos protagonistas, em que se proclamou a salvaguarda da divergência no grupo parlamentar mas excluiu-se quem pensa diferente, António Costa condescendeu com a sucessão de tiros nos pés à volta dos cartazes, com a escolha de bodes expiatórios para camuflar a falta de comando político e a incompetência pura. “Aselhices”, nas palavras de António Costa, com graves danos na afirmação do PS como alternativa. Não perceber o papel das redes sociais, ignorar as mensagens subliminares que vão ganhando espaço na perceção das pessoas e deixar sem resposta as ideias que os adversários vão instalando, como se de autocolantes apostos no PS se tratassem, é não compreender a política, como ela se faz em 2015. É estranho para quem tem tanta experiência política.» (daqui)