um “não” decente

joão miguel tavares«Dizer isto não é isentar de erros Carlos Costa, Cavaco Silva, Maria Luís Albuquerque ou o próprio Passos Coelho. Uma resolução como a do BES é de tal forma complexa, e teve de ser executada com tal rapidez, que muitos erros terão sido cometidos. Além disso, não restam hoje quaisquer dúvidas de que o Banco de Portugal terá compactuado com Salgado durante demasiado tempo, apesar dos inúmeros alertas e do obsceno recebimento de “liberalidades”. Contudo, é muito fácil apontar alternativas depois dos factos consumados. Independentemente de ser possível fazer melhor, o que me interessa sublinhar aqui é esse “não” central, inédito e relevantíssimo ao Dono Disto Tudo, que conduziu à destruição, nas suas próprias palavras, “do nome Espírito Santo”, apagando “das fachadas dos prédios uma marca com mais de 140 anos”. A importância desse gesto não pode ser desvalorizada: a aparatosa queda do BES é a destruição da impunidade mais desbragada e de uma certa forma de fazer negócios, que dominou o país durante pelo menos duas décadas.» (daqui)

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encalhados

12022012-DSC_0114«Agora encalhámos na EDP e as atenções voltaram-se para António Mexia, o que nos faz recordar toda a teia de relações existente nos tempos de Pinho, Sócrates e, claro, Salgado. Ou seja, encalhámos nos mesmos. Mas que não são os únicos, bem pelo contrário, já que boa parte dos grandes empresários portugueses sempre necessitou de se encostar ao Estado para singrar – foi assim no século XIX quando perdemos a Revolução Industrial, foi assim em grande parte do século XX, quando éramos “pobretes mas alegretes”, ainda continua a ser assim neste triste século XXI de estagnação e desilusão.

Economias assim chamam-se “economias extractivas”, onde só uns poucos, protegidos por instituições corruptas, beneficiam de sugarem a riqueza colectiva. São também economias condenadas à pobreza relativa, como bem se explica em “Porque Falham as Nações”, a obra de Daron Acemoglu e James Robinson que já recomendei muitas vezes e que, se ainda não leram, bem podem aproveitar os descontos da Feira do Livro.

É que da EDP não deverão esperar qualquer desconto – como até a troika percebeu, todos estes contratos estão blindados. As “rendas” vieram para ficar por muitos e longos anos. Algumas por mais dez anos.» (daqui)

os lesados dos lesados

antonio_galamba_3«Por maior que possa ser o sentido de justiça, o resquício de coerência e o sentido de resposta ao presente, é um contrassenso deixar instalar a perceção de facilitismo, de que é possível tudo, para depois o Estado não conseguir responder às suas responsabilidades urgentes e emergentes em questões fundamentais para a integridade física e a segurança das pessoas e dos bens.

Agora que o outsourcing de um consultor do primeiro ministro anunciou uma solução a meses para os lesados do BES, é bom que se tenha a consciência de que o perfil da gestão governativa e do facilitismo dos apoiantes da solução é gerador de novos lesados do Estado, que somam aos de sempre, estruturais, esquecidos e sem relevância eleitoral que baste. Os que estão fora do sistema e do radar eleitoral de quem busca pouco mais que a sobrevivência política.» (daqui)

lesados de portugal

joão miguel tavares«Inspirado na Associação dos Lesados e Indignados do BES, eu próprio estou a pensar criar a Associação dos Lesados e Indignados de Portugal. Com ligeiras adaptações, os objectivos são iguaizinhos. A associação dos lesados do BES tem como missão (está no seu site) “mediar o processo de reembolso de papel comercial do GES, vendido de forma enganosa e fraudulenta, como depósitos a prazo, a clientes de retalho aos balcões do BES”. A associação dos lesados de Portugal terá como missão mediar o processo de reembolso dos impostos, sacados de forma enganosa e fraudulenta, com a promessa de um país mais justo e sustentável, aos eleitores nacionais. Os lesados do BES “partilham o sentimento de engano, pela forma como os produtos foram vendidos, sendo que sempre foi dito ‘isto é como depósitos a prazo’, ‘isto é seguro’, ‘isto é Espírito Santo’.” Os lesados de Portugal partilham o sentimento de engano, pela forma como os programas eleitorais foram vendidos, sendo que sempre foi dito ‘isto é pelo bem do país’, ‘isto é seguro’, ‘isto é o Estado Social’.” Os lesados do BES foram enganados pelo primeiro-ministro, pelo ministro das Finanças, pelo Presidente da República e pelo governador do Banco de Portugal. Os lesados de Portugal foram enganados exactamente pelas mesmas pessoas, só que mais vezes e durante mais anos.» (daqui)