“encanar a perna à rã”

Há certas situações que ultrapassam a minha modesta capacidade de entendimento. Não, não estou a falar dos derrotados de 4 de Outubro terem elevadas probabilidades de (des)governarem este país.

Estou a falar, sim, de estarmos dotados de uma constituição e de uma lei eleitoral ultrapassadas temporalmente, que necessitam, urgentemente, de reformulação. Não é compreensível que, em pleno século XXI, numa era onde as tecnologias da informação e da comunicação assumem um papel cada vez mais importante nas nossas vidas, que se demorem 10 dias após as eleições a contar os votos dos portugueses residentes no estrangeiro! Não é compreensível que exista tanto formalismo, que se tenham que dar tantos passos com vista a endereçar um convite para formar um governo!

As eleições legislativas foram a 4 de Outubro! Entre apuramento eleitoral, convites, negociações, tomadas de posse e votação do programa de governo, já passou mais de um mês. Ao que parece, ainda não será nesta semana que a coisa avançará: o Presidente da República tem uma importantíssima visita de Estado à Região Autónoma da Madeira, que não pode ser adiada (ou mesmo cancelada).

Pelo menos, num aspecto, a Grécia está mais avançada que nós: no dia seguinte às eleições já existe governo! Por cá, “encana-se a perna à rã”!

os simples

joão pereira coutinho«Com as sondagens a enterrarem António Costa, já se procuram cabeças. Há para todos os gostos: o radicalismo de Costa; o despesismo de Centeno; a sombra de Sócrates; pessoalmente, a ingratidão de Seguro (nem uma palavrinha de apoio, Tozé?). Mas todos sabemos que os verdadeiros culpados são os ‘portugueses simples’, de que falava Passos, e que lamentavelmente não vivem em Lisboa.

Espalhados por essa coisa chamada Portugal, que vêem os simples? À esquerda, o abismo: um cenário grego, em que os bancos ficariam à míngua e a saída do euro seria uma possibilidade. No PS, encontram a mesma tralha que faliu o país em 2011 e que os obrigou a comer o pão que o diabo amassou. No meio deste horror, sobra uma coligação que já espremeu o que havia para espremer – e que começa a mostrar umas folgas no cinto. Sem entusiasmo e com resignação, os simples têm uma ideia simples: isto está mal, mas com outros pode ficar pior.» (daqui)

a oligarquia*

Rui-Ramos-300x300«(…) a oligarquia política é dona do país, e a democracia é o regime através do qual o povo é convidado a reconhecer esse senhorio. Ora, é difícil imaginar oligarca mais fácil de identificar do que António Costa. Costa cresceu ao colo do regime. Não houve dirigente do PS nos últimos trinta anos que não o tivesse posto num qualquer altar. Costa dá-se com toda a gente, da direita à esquerda. Chama-se a isso, em linguagem oligárquica, ser “consensual”. Passos não é assim. Andou na JSD, mas veio da província. Tirando Marques Mendes, nenhum líder do PSD lhe deu a mão e houve mesmo quem o tivesse perseguido. Não consta que fale com muita gente. Para a oligarquia, é um intruso, um “desconhecido”, como insinuou Costa. A frieza com que se permitiu tratar Ricardo Salgado, o banqueiro do regime, é a prova. No momento em que Costa apareceu, o país, como o cão de Ulisses, tinha obrigação de reagir. Que se passa? Os portugueses já não veem televisão?

No país da oligarquia, Ricardo Salgado ainda deveria ter um banco (com o dinheiro dos contribuintes), um ex-primeiro ministro nunca poderia ter sido preso, e um membro honorário da Quadratura do Círculo teria de estar à frente nas sondagens. A oligarquia está confusa. Querem ver que, afinal, a “austeridade” não foi tão má como os próprios oligarcas andaram a dizer? Terá sido a Grécia? O fantasma de Sócrates? As fatalidades do euro? Ou a culpa é toda do Costa, esse eterno hesitante? Tudo passa pela cabeça aos nossos oligarcas. Menos uma coisa: a hipótese de o povo os ter percebido, a começar pelo fracasso e fuga de 2011.» (daqui)

* oligarquia

substantivo feminino;

Estado de uma nação em que a preponderância de alguma família dispõe do governo.

quem todos quer convencer, acaba por não convencer nenhum

antonio_costa2«António Costa acabou por ser vítima da síndrome lisboeta, tomou a corte da capital (circuito fechado de políticos, jornalistas e comentadores) como representando todo o país e caiu na armadilha. Avançou, chiquérrimo, com uma pasta bonita, cheia de propostas, carregada de números. E, no entanto, o povo, pelo país fora, só lhe pedia uma ideia. Uma ideia de país, que fosse verdadeira alternativa à ideia que a coligação “vende”, com eficácia, ininterruptamente há quatro anos. Passos Coelho, Paulo Portas, o brasileiro que eles contrataram, quem quer que seja o responsável, sabe mais de política do que toda a máquina socialista junta. Eles vendem a ideia de que um país só sobrevive com independência se tiver as contas certas e que isso deve existir mesmo que uma parte dos portugueses tenha de ficar para trás.

Há muitos, mesmo muitos, portugueses que pensam exactamente da mesma maneira. E há quem pense que a mais importante função do Estado é não deixar ninguém desprotegido. E ainda os que procuram perceber como se pode ficar entre o meio caminho das duas coisas. É aqui que faz sentido falar de direita, de esquerda e do centro. A coligação não perde um minuto a tentar convencer a esquerda, já tem a direita consigo e agora procura ganhar votos ao centro. O PS anda perdido a tentar convencer toda a gente, não convencendo sequer quem está fervorosamente contra a ideia que a coligação defende para o país.» (daqui)