a nova austeridade

helena-garrido«As já décadas de acompanhamento do Orçamento do Estado permitem concluir que é praticamente impossível que o PCP e mesmo o Bloco ignorassem a estratégia que o Governo estava a seguir. Se não o soubessem por via da análise do Orçamento do Estado – o PCP sempre teve excelentes deputados a analisar o Orçamento – tiveram com certeza conhecimento dos apertos financeiros dos serviços através de militantes ou simpatizantes. Quiseram também eles que a austeridade fosse escondida, como querem que se mantenha escondida toda a estratégia europeia do Governo nas matérias a que oficialmente se opõem.

A política da austeridade escondida altamente ameaçadora dos serviços públicos foi prosseguida pelo Governo mas teve a cumplicidade do PCP e do Bloco de Esquerda. Podem hoje competir pelo pódio de quem defendeu mais a reposição dos rendimentos mas todos estão a ser responsáveis pelo risco a que expuseram os serviços públicos. É aliás extraordinário que aqueles que dizem defender o Estado sejam os que mais o põem em causa.» (daqui)

Neste momento resta-nos apenas desejar que não aconteçam outras tragédias.

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“algo não bate certo”

antonio_galamba_3«A presunção, a água benta e os decretos cada um toma os que quer. O espantoso em toda a retórica política a que se assiste é ter um governo a proclamar o fim da austeridade, constatar-se o nível de cativações para que se cumpram objetivos da austeridade e vislumbrar a agitação que grassa nos apoiantes da solução governativa para extraírem dividendos de um crescimento que não está diretamente associado às soluções viabilizadas. Não foi induzido pelo consumo privado, não foi catalisado pelo investimento público, não resultou de nenhuma das opções de fundo que não sejam o crescimento do turismo e das exportações, num quadro de legislação laboral que é anterior a 2015.

O espantoso é que as mesmas proclamações ou decretos do governo suscitem atitudes totalmente diferenciadas, condescendente com o primeiro ministro e o ministro das finanças, intolerante com o ministro das finanças, logo objeto de setas para baixo e outros distrates por abuso de euforia. Essa condescendência, essa falta de escrutínio a par da falta de assertividade da oposição tem feito com que muito papem tudo.

É esse “come a papa” que tem feito com que, estando aos olhos de todos que algo não bate certo, se continue a achar que está tudo bem, enquanto se batem recordes de dívida pública, a realidade desmente algumas narrativas e se correm demasiados riscos com questões importantes para as pessoas e para o crescimento económico.» (daqui)

o foguetório

josé manuel fernandes«Para já tudo vai também passando no crivo de uma Comissão Europeia “assumidamente política”, mas um dia vai estoirar-nos nas mãos sob a forma de um novo colapso por falta de crescimento sustentado, como bem sublinha João César das Neves num livro acabado de publicar. Diz o povo que enquanto o pau vai e vem folgam as costas, e é assim que fomos vivendo este ano. Assim e empurrando os problemas (e as contas) com a barriga, que para mais é volumosa. O pior é que o fazemos sem que isso nos incomode ou sem que desejemos qualquer mudança.

Viva o foguetório, viva a decadência: o que conta é que não incomodem a nossa elite, que essa tem as suas prebendas garantidas. O resto é conversa de uns desmancha prazeres como este vosso escriba. A conta pagá-la-ão os meus filhos, e isso é o que mais me custa.» (daqui)

almofadas

ScreenShot358O primeiro-ministro assegurou à Comissão Europeia que o Orçamento de Estado de 2016 possui uma almofada financeira equivalente a 0,2% do PIB. Ou seja, o mesmo valor pelo qual poderemos ser penalizados por incumprimento das regras do Tratado Orçamental.

Para tal, o Ministério das Finanças já procedeu à cativação de verbas o que, segundo o “Público”, «exigem aperto nos serviços públicos».

Estou curioso em saber como vai ser lá mais para o final do ano, quando os cofres dos serviços públicos necessitarem, como de pão para a boca, das verbas que foram cativadas. Nessa altura, o governo vai estar perante um dilema: ou cumpre o défice previsto para 2016 ou insiste no aperto financeiro aos diversos organismos do Estado, colocando em risco o serviço público por eles prestados?