nossa culpa

helena-garrido«A economia é por definição escolher entre alternativas, num ambiente de recursos escassos. Nunca há almoços grátis, há sempre alguém a pagar. O que os políticos em geral fazem é adiar custos ou distribuir a factura pelos mais fracos ou sem poder de pressão. É a isto que temos assistido no país, proveitos generosos para alguns com custos para o povo em geral ou para pequenos grupos sem poder. Assim foi com as estradas desnecessárias, a política energética, a banca, as pensões e agora de novo com o arrendamento. A iliteracia financeira e uma sociedade infantilizada e que se auto-desresponsabiliza têm sido dois dos grandes aliados para a falta de qualidade das nossas políticas públicas.

O que se passou em Torremolinos com os estudantes em viagem de finalistas e, especialmente, a reacção de alguns pais expôs de forma dramática a hierarquia de valores de parte da sociedade portuguesa. A destruição tem como culpado o hotel e os pais consideram normal entregar os filhos para uma viagem com bar aberto a partir das 11 da manhã. É a desresponsabilização levada ao seu extremo, com os próprios filhos, e que exemplifica a atitude que temos tido em relação à dívida e aos ditos “direitos” ao salário, aos subsídios, às pensões, enfim a tudo, até a ter uma casa com a renda que se pode pagar no sítio favorito.» (daqui)

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incerteza no horizonte

megan-greene«E a economia? O crescimento neste ano deverá rondar 1%, o que é cerca de metade do que se previa para este ano. Tem olhado para este resultado e para as suas explicações?
Sim, penso que é relativamente simples. Parece que o plano do governo era reverter algumas medidas de austeridade, dar um empurrão ao consumo interno. Julgo que terá dado uma ajuda, mas a verdade é que, ao mesmo tempo, houve um impacto negativo muito grande sobre o investimento. Toda a incerteza em torno das políticas deste governo leva muitos investidores, e não apenas os investidores bolsistas, a preferirem ficar de fora. Isso mais do que compensa, pela negativa, qualquer impulso ao consumo interno. Portugal já tem uma dívida elevada, não cresceu nem nos tempos de vacas gordas, portanto é improvável que o país seja capaz de crescer de forma robusta para eliminar a dívida. A leitura que faço é que as empresas têm-se mostrado muito inseguras e reticentes no que toca a reinvestir quaisquer lucros na empresa ou injetar mais capital, e isso reduz os investimentos, o que na gíria se chama capex (investimento de capital).

 

Porquê, exatamente?
Ninguém investe porque ninguém sabe o que pode vir aí. Há muita incerteza sobre o caminho que será feito por Portugal mas, na realidade, Portugal pode ser visto como um microcosmos do que se passa em várias partes do mundo ocidental. Mas a situação é especialmente grave porque existe muita incerteza sobre o que o poder político vai querer fazer.

Mas fala, especificamente, de quê? Política fiscal, por exemplo?
Sim, os impostos são parte da questão. Depois, este governo fez marcha-atrás em uma série de coisas que foram aplicadas pelo anterior governo e pela troika. Refiro-me, por exemplo, à devolução total dos salários do setor público.

Que imagem é que isso passa?
Passa uma imagem de que este governo não está a levar a sério a necessidade de endireitar as contas públicas.» (daqui)

Megan Greene é uma economista norte-americana que iniciou a sua actividade na Economist Intelligence Unit e foi directora de pesquisa económica europeia da empresa do famoso economista Nouriel Roubini (Dr. Doom). Presentemente, é economista-chefe da Manulife Asset Management e é convidada frequente em canais financeiros como a Bloomberg TV e a CNBC.

a economia não é a física

física«De física não posso elucidar. A leitura de uns livros de Carl Sagan e uma discussão em que um amigo físico me explicou entusiasmado o que eram os wormholes referidos em Contacto não me habilitam particularmente. Mas no caso dos modelos económicos há que dizer com frontalidade, como os treinadores de futebol: fazer promessas de números macroeconómicos com base em modelos económicos é aldrabice da mais básica que a política portuguesa tem conhecido. É certo que António Costa já veio dizer que não prometeu 207.000 empregos, mas enrolou a verdade de maneira a dar a ideia de que é uma previsão muito segura.

Ora não é. Convém explicar que os modelos económicos servem para pouco mais do que testar teorias económicas (a ver se os modelos teóricos produzem resultados semelhantes aos comportamentos observados na realidade) e fazer previsões que deem alguma informação aos governantes e decisores económicos. Mas qualquer economista minimamente decente sabe que só por acaso as previsões acertam. E a razão é muito simples: na realidade há demasiadas variáveis que influenciam as muitas decisões económicas e é impraticável contemplar todas essas variáveis no modelo económico. Por isso muitas variáveis ficam de fora ou são, como simplificação, colocadas como constantes ou com padrão de alteração previsto – e nada nos garante que não venham a ser essas variáveis (excluídas ou com comportamento afinal errático) a influir mais na decisão dos agentes económicos. Para complicar, há toda a incerteza normal do mundo. Quem sabe como vai evoluir a economia chinesa e qual o seu efeito no resto do mundo? Aposto que convulsões chinesas não constaram das contas do PS, mas certamente que determinarão a realidade. Quem sabe que mais choques aí virão? E, por fim, há a própria natureza dos modelos. Imaginem quão exato pode ser colocar o comportamento da produção de um país numa equação.» (daqui)