“encanar a perna à rã”

Há certas situações que ultrapassam a minha modesta capacidade de entendimento. Não, não estou a falar dos derrotados de 4 de Outubro terem elevadas probabilidades de (des)governarem este país.

Estou a falar, sim, de estarmos dotados de uma constituição e de uma lei eleitoral ultrapassadas temporalmente, que necessitam, urgentemente, de reformulação. Não é compreensível que, em pleno século XXI, numa era onde as tecnologias da informação e da comunicação assumem um papel cada vez mais importante nas nossas vidas, que se demorem 10 dias após as eleições a contar os votos dos portugueses residentes no estrangeiro! Não é compreensível que exista tanto formalismo, que se tenham que dar tantos passos com vista a endereçar um convite para formar um governo!

As eleições legislativas foram a 4 de Outubro! Entre apuramento eleitoral, convites, negociações, tomadas de posse e votação do programa de governo, já passou mais de um mês. Ao que parece, ainda não será nesta semana que a coisa avançará: o Presidente da República tem uma importantíssima visita de Estado à Região Autónoma da Madeira, que não pode ser adiada (ou mesmo cancelada).

Pelo menos, num aspecto, a Grécia está mais avançada que nós: no dia seguinte às eleições já existe governo! Por cá, “encana-se a perna à rã”!

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um governo de derrotados?

maria joão avillez«Anda por aí um debate mal-intencionado segundo o qual há uma de gente de má-fé que vê uma golpada, uma fraude, uma usurpação, um golpe de Estado, na concretização de um governo do PS em aliança com a esquerda radical, quando esse governo teria afinal toda a legitimidade política e eleitoral. Pela enésima vez terei que voltar ao que me choca e surpreende. E o que me choca e surpreende não é um governo desses – embora nunca o defendesse politicamente e o ache assassino para o país – mas uma coisa bem distinta e é nela que reside a diferença que me interessa neste debate: quem perdeu as eleições não pode reivindicar uma vitória e um governo como se as tivesse ganho. Ponto. Com o mistificador argumento de que somando o que nunca se anunciou que se somaria, se alcançará a estabilidade através de uma maioria de deputados no Parlamento. De uma vez por todas: a ilegitimidade de que me reclamo não radica na natureza de um governo de extrema-esquerda mas no facto de ele não ter sido votado (e menos ainda anunciado).» (daqui)

pague quem pagar

antonio_costa3

«O PS sempre foi um partido com uma ala mais centrista e uma ala mais a puxar à esquerda. Sócrates deixou lá dentro uma facção própria que complicou esta antiga arrumação a que todos estavam habituados. Mas com António Costa, o Partido Socialista está inextricavelmente balcanizado: são os socratistas, os alegristas, os seguristas, os galambistas, os soaristas de Mário e de João Soares, alguma “tralha guterrista”, e, surpresa das surpresas, os novíssimos “nunistas”. Sim, nunistas, uma seita ruidosa cujo representante máximo, um tal Pedro Nuno Santos, Costa leva sempre consigo na augusta delegação socialista que peregrina pelas outras sedes partidárias. Galamba há muito que se celebrizou por ser sempre uma espinha cravada da garganta de qualquer moderado. De Nuno Santos só me lembro do momento em que berrou no Parlamento, com hercúlea coragem, “Quero lá saber da Troika ou da Europa!” Pelos vistos, singrou. Finalmente, há pelo menos ainda um grupo de “costistas”. Mas quem são, afinal, os costistas? Indaguei junto dos meus amigos socialistas (que são a maioria). Ninguém me soube dizer ao certo. Concluí, portanto, por minha conta e risco. “Costistas” são todos aqueles que se servem de António Costa para que ele usurpe o poder contra o eleitorado e lhes devolva a “importância”, os “lugares”, as prebendas e o acesso ao “spoils system” a que já se tinham habituado. Uma excepção honrosa cumpre desde já destacar: Sérgio Sousa Pinto não teve estômago para semelhante caldeirada. Demitiu-se ontem do secretariado do PS.

Toda esta tropa heterogéna só perdoará a Costa a hecatombe em que lançou o partido se for transitória e rapidamente invertida. Costa carece do seu apoio para conferir existência coerente ao “costismo” e dispor de novo de um partido submetido à sua autoridade, que aliás nunca chegou a ser indiscutível. Para tanto, precisa de ser primeiro-ministro. Menos um milímetro do que isto já não lhe chega para salvar a sua pele. Pague quem pagar, pague o PS e o País todo. Porque se lá chegar, a história ainda estará muito longe de terminada.» (daqui)

palavra de socialista (2)

antonio_costa4«Mas o mais confrangedor desta noite foi verificar o desespero com que o líder do PS se agarrou ao poder, não tirando qualquer consequência das suas responsabilidades e caindo na figura incompreensível do derrotado mais satisfeito da história da democracia portuguesa.

Num discurso confuso, em que não se percebeu até onde pretende ir num eventual acordo à sua esquerda, deu mais uma prova porque não mereceu a confiança dos portugueses.

António Costa falhou em toda a linha e partindo com o objetivo de obter uma maioria absoluta não sai porque, afinal, a coligação não conseguiu obter essa mesma maioria.

A forma como conquistou o partido, a contradição de líder que vence por poucochinho ter que sair e líder que perde claramente querer continuar, numa perspetiva lamentável de colocar os seus interesses pessoais, acima dos interesses do PS e do país é o elemento mais caracterizável do político que perde o respeito por si próprio.» (daqui)

os simples

joão pereira coutinho«Com as sondagens a enterrarem António Costa, já se procuram cabeças. Há para todos os gostos: o radicalismo de Costa; o despesismo de Centeno; a sombra de Sócrates; pessoalmente, a ingratidão de Seguro (nem uma palavrinha de apoio, Tozé?). Mas todos sabemos que os verdadeiros culpados são os ‘portugueses simples’, de que falava Passos, e que lamentavelmente não vivem em Lisboa.

Espalhados por essa coisa chamada Portugal, que vêem os simples? À esquerda, o abismo: um cenário grego, em que os bancos ficariam à míngua e a saída do euro seria uma possibilidade. No PS, encontram a mesma tralha que faliu o país em 2011 e que os obrigou a comer o pão que o diabo amassou. No meio deste horror, sobra uma coligação que já espremeu o que havia para espremer – e que começa a mostrar umas folgas no cinto. Sem entusiasmo e com resignação, os simples têm uma ideia simples: isto está mal, mas com outros pode ficar pior.» (daqui)