a rejeição das elites

usa-flag«Tudo isto criou um vazio junto das bases operárias, das classes trabalhadoras, dos pobres, dos desempregados, dos desiludidos, que, à falta doutras alternativas, passaram a estar recetivos aos discursos antissistema, quando não xenófobos e primários, pois nada mobiliza melhor os desesperados do que ideias, não necessariamente certas, mas simples de fixar e repetidas até à exaustão.

Numa primeira e ainda muito sumária análise à votação de Trump é justamente o voto em massa do operariado branco inquieto com o seu futuro (nomeadamente em indústrias tradicionais como a siderurgia ou o automóvel) que, juntamente com o voto rural dos estados das montanhas e das planícies do interior e acrescido do voto ultraconservador dos cristãos fundamentalistas ajuda a explicar a diferença de votação relativamente a Hillary Clinton. E que passou pela viragem eleitoral em estados que nos últimos anos tinham votado Obama e pelo operariado a ignorar as diretivas sindicais pró-Hillary.» (daqui)

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os simples

joão pereira coutinho«Com as sondagens a enterrarem António Costa, já se procuram cabeças. Há para todos os gostos: o radicalismo de Costa; o despesismo de Centeno; a sombra de Sócrates; pessoalmente, a ingratidão de Seguro (nem uma palavrinha de apoio, Tozé?). Mas todos sabemos que os verdadeiros culpados são os ‘portugueses simples’, de que falava Passos, e que lamentavelmente não vivem em Lisboa.

Espalhados por essa coisa chamada Portugal, que vêem os simples? À esquerda, o abismo: um cenário grego, em que os bancos ficariam à míngua e a saída do euro seria uma possibilidade. No PS, encontram a mesma tralha que faliu o país em 2011 e que os obrigou a comer o pão que o diabo amassou. No meio deste horror, sobra uma coligação que já espremeu o que havia para espremer – e que começa a mostrar umas folgas no cinto. Sem entusiasmo e com resignação, os simples têm uma ideia simples: isto está mal, mas com outros pode ficar pior.» (daqui)

dos “moradores suburbanos com fatos de alfaiates de segunda”

MassamNorte
Massamá Norte

«Só que esse país, por mais fotogénico que fosse, e de facto era e ainda é nas reportagens paternalistas que o New York Times nos dedica, coexiste com um Portugal suburbano, cheio de homens que vestem fatos de alfaiates de segunda para ir trabalhar. Alguns optam por uma ainda mais esteticamente dramática versão desportiva. As élites partidárias, culturais e mediáticas abominam este mundo que não fica bem nas fotografias, não aparece muito nas encíclicas e não encontra explicação em Marx. Das universidades onde se multiplicam os centros de estudos dirigidos por clones de Raquel Varela às sedes partidárias sejam elas de esquerda ou de direita, a dicotomia entre os muito pobres e os muito ricos justifica-lhes muito mais o seu pendor intervencionista.

Mas o país suburbano existe e é fundamental que os grandes partidos e os seus líderes democratizem a relação que têm com ele. Caso não o façam o desinteresse dessas pessoas será um dos terrenos em que crescerão os populismos que tornarão o país ingovernável. Os casos da França e da Espanha são um bom exemplo daquilo a que pode conduzir a clivagem entre os partidos democráticos e a realidade. Só que em Portugal não será sequer necessário que surjam uma Frente Nacional ou um Podemos para que acabemos num beco sem saída ou mais propriamente a acreditar que é possível regressar ao passado. PS e PSD têm mais do que quanto baste de gente que acredita que tal não só é possível como desejável.» (daqui)