à deriva

Rui-Ramos-300x300«Este governo e esta maioria romperam ainda com outra coisa: com tudo aquilo que os partidos que formam a maioria e apoiam o governo tinham dito, aconselhado e exigido enquanto estiveram na oposição. Até Novembro de 2015, PS, PCP e BE pareciam acreditar, por vias diferentes, que os problemas portugueses se resolveriam pondo a economia a crescer, e não equilibrando as contas do país, como pretendia a troika. Eram pelo “investimento público” e pelos “estímulos à economia”. Desprezavam as “metas do défice”. Mais: consideravam a política europeia errada, e achavam que deveria ser contestada e resistida até às últimas consequências. Mas ei-los no poder, e de um dia para o outro o crescimento deixa de lhes importar, cortam o investimento público, e parecem obcecados com as metas do défice. Perante Bruxelas, emitem por vezes uns ruídos anti-germânicos, mas de resto dão a entender que não há problemas. Que significa isto? Por um lado, tudo faz sentido: uma vez no poder, as antigas oposições descobriram que não lhes convinha dispensar o financiamento do BCE. Mas por outro lado, tudo é bizarro: o governo não prepara o país para ser competitivo dentro do quadro do Euro, porque o BE e o PCP recusam reformas, mas também não prepara o país para sair do Euro, porque o PS não aceita a saída do Euro. Limitamo-nos a viver do dinheiro do BCE, à deriva.» (daqui)

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a propósito das migrações

migrantes«Angela Merkel tem dito o que é necessário. A sua firmeza contra os assomos de violência anti-imigrante é mais do que politicamente correcta. As nossas leis e os nossos valores e até as necessidades demográficas de um continente envelhecido não nos permitem simplesmente levantar muralhas e fechar as portas. Mas tal como não devemos tolerar xenofobias e racismos, não nos podemos permitir demonizar aqueles a quem as centenas de milhares de chegadas sugerem dúvidas e preocupações. A imigração, para as sociedades europeias, é um problema muito específico. É costume lembrar que 86% dos refugiados do mundo estão em países fora da Europa. Mas uma coisa é ceder um canto de deserto para um acampamento mantido pela ONU, e outra é providenciar casas, lugares em escolas e atendimento em hospitais, sempre com a “inclusão” em mente, como é hábito do norte da Europa. No resto do mundo, não é desse modo que os migrantes são tratados: quase setenta anos depois, os palestinianos no Líbano e na Jordânia continuam segregados nos campos de refugiados da ONU; na África do Sul, os trabalhadores de Moçambique e do Zimbabué são perseguidos; o Japão quase não conheceu imigração até agora. A Europa não é assim, não quer ser assim, nem pode ser assim. É por isso que os refugiados sírios preferem a Alemanha à Turquia. Mas não ser como a Turquia tem custos e, por isso, também tem limites.?» (daqui)

não existe só a democracia grega

Rui-Ramos-300x300«Nos últimos meses, temos todos andado distraídos com a progressão dos festivais de esquerda radical no sul da Europa. É o Podemos em Espanha, é o Syriza na Grécia, é ainda o que se está para ver, mas que começa a demorar, em Portugal. Nesse ambiente de arraial, temo-nos esquecido de que noutros países, mais a norte, também tem havido progressão, não tanto da esquerda radical, mas de populismos nacionalistas ou de eurocepticismos conservadores, para os quais os abusos fiscais do governo grego, mais uma vez sufragado pelo voto dos gregos, não são propriamente a melhor publicidade para a causa europeísta.  

A esse respeito, o sinal que ontem mais nos devia ter importado foi a reacção da social-democracia alemã ao referendo grego. Na Alemanha, os sociais-democratas, tal como os democrata cristãos, sabem que o subsídio permanente a uma Grécia governada pela irresponsabilidade fiscal acabará, mais tarde ou mais cedo, por ter de sair das cimeiras governamentais para se tornar um tema de debates no parlamento, ou mesmo de consultas populares. Ora, quem é que deseja fazer campanha na Alemanha, na Finlândia ou até em Portugal pedindo aos eleitores mais dinheiro para a Grécia? E ainda por cima, sem nada para contrabalançar a dádiva, a não ser a decisão do governo e do eleitorado grego de rejeitarem todas as mudanças necessárias para deixarem de depender da Europa?» (daqui)

o egoísmo da oligarquia grega

Bandeiras dos Paises«O poder político na Grécia é um poder fundamentalmente deficitário, tolerante da evasão fiscal e das posições de renda, e que só foi viável até agora através da sua dependência da Europa. Não é uma herança levantina: é o que se desenvolveu na Grécia graças aos subsídios de Bruxelas e ao crédito barato do euro, e que ainda se mantém com os empréstimos dos seus parceiros europeus e do BCE.

A ironia desta história é que a Europa esperou mudar a Grécia, e mudou-a para pior, ao poupar os seus oligarcas à pressão mais efectiva, que não é aquela que consiste em sermões europeus, mas a que provém de contribuintes cansados, credores sem confiança, e empresários e trabalhadores frustrados. As propostas europeias das últimas semanas têm consistido em reformas graduais em troca de liquidez. O Syriza não pode aceitar. Por razões ideológicas? Sim, mas também pelas mesmas razões por que Samaras e Papandreou resistiram a propostas idênticas: porque receia perder poder, isto é, decepcionar aqueles a quem tem servido e enfrentar aqueles a quem mentiu. A oligarquia grega invoca as dificuldades sociais, a soberania nacional ou a democracia. São apenas véus para disfarçar a nudez do seu egoísmo.» (daqui)

repetição da história?

estrela amarela judeu«Na Europa, só em 2013 foram registadas formas de perseguição a judeus, por parte de indivíduos ou de grupos sociais, em 34 dos 45 países do continente (76%). É esta a realidade da Europa do século XXI. Uma realidade que está bem presente também na forma como são tratados os refugiados e os migrantes. Uma realidade que justifica uma fronteira com torres de vigilância e arame farpado entre a Hungria e a Sérvia. Uma realidade que passa pelo retorno dos fantasmas do passado. Uma realidade que, queira-se ou não, representa o regresso do nazismo e do comunismo em novas roupagens. Mas se nos anos 30 e 40 do século XX os judeus não tinham saída para a barbárie, hoje há Israel, um Estado forte e democrático, uma espinha na garganta de tantos democratas de pacotilha, de tantos anti-semitas travestidos de amigos dos palestinianos. A Europa caminha para o abismo moral e material. Israel é o presente e o futuro de um povo que não se rende e que nunca mais irá viver os horrores de um novo holocausto.» (daqui)