“algo não bate certo”

antonio_galamba_3«A presunção, a água benta e os decretos cada um toma os que quer. O espantoso em toda a retórica política a que se assiste é ter um governo a proclamar o fim da austeridade, constatar-se o nível de cativações para que se cumpram objetivos da austeridade e vislumbrar a agitação que grassa nos apoiantes da solução governativa para extraírem dividendos de um crescimento que não está diretamente associado às soluções viabilizadas. Não foi induzido pelo consumo privado, não foi catalisado pelo investimento público, não resultou de nenhuma das opções de fundo que não sejam o crescimento do turismo e das exportações, num quadro de legislação laboral que é anterior a 2015.

O espantoso é que as mesmas proclamações ou decretos do governo suscitem atitudes totalmente diferenciadas, condescendente com o primeiro ministro e o ministro das finanças, intolerante com o ministro das finanças, logo objeto de setas para baixo e outros distrates por abuso de euforia. Essa condescendência, essa falta de escrutínio a par da falta de assertividade da oposição tem feito com que muito papem tudo.

É esse “come a papa” que tem feito com que, estando aos olhos de todos que algo não bate certo, se continue a achar que está tudo bem, enquanto se batem recordes de dívida pública, a realidade desmente algumas narrativas e se correm demasiados riscos com questões importantes para as pessoas e para o crescimento económico.» (daqui)

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almofadas

ScreenShot358O primeiro-ministro assegurou à Comissão Europeia que o Orçamento de Estado de 2016 possui uma almofada financeira equivalente a 0,2% do PIB. Ou seja, o mesmo valor pelo qual poderemos ser penalizados por incumprimento das regras do Tratado Orçamental.

Para tal, o Ministério das Finanças já procedeu à cativação de verbas o que, segundo o “Público”, «exigem aperto nos serviços públicos».

Estou curioso em saber como vai ser lá mais para o final do ano, quando os cofres dos serviços públicos necessitarem, como de pão para a boca, das verbas que foram cativadas. Nessa altura, o governo vai estar perante um dilema: ou cumpre o défice previsto para 2016 ou insiste no aperto financeiro aos diversos organismos do Estado, colocando em risco o serviço público por eles prestados?

resumo das propostas socialistas

Do muito que já li sobre as propostas apresentadas ontem pelo Partido Socialista sob o nome de “Uma Década Para Portugal”, sintetizo as mesmas em dois pequenos excertos publicados no Observador, o primeiro da autoria de Paulo Ferreira e, o segundo, de Inês Domingos.

«Os cemitérios de empresas e de programas eleitorais estão cheios de magníficos planos de negócio e de políticas públicas que tinham uma coisa em comum: funcionavam optimamente no papel só que depois a realidade foi madrasta.

O papel aguenta tudo, costumava dizer-se. A folha de cálculo aguenta tudo, diz-se agora. Não ponho em causa a competência técnica, a crença programática e a honestidade intelectual do trabalho que o grupo de economistas fez para o PS – Mário Centeno, como outros que integram o grupo, só se envolveria e daria a cara por um trabalho sério em que acredita.

Mas, e esta é mais uma banalidade naqueles cemitérios, temos de ficar de pé atrás quando as despesas são certas, quantificadas e calendarizadas mas as receitas e os ganhos são hipotéticos, incertos e sem encontro marcado com dia e hora.» (daqui)

ScreenShot261«Globalmente, com algumas excepções, este programa é parco em detalhes sobre as receitas que podem ser geradas para compensar os aumentos da despesa. Num contexto em que as incertezas sobre o futuro da zona euro são elevadas, aumentar em Portugal a despesa com poucas garantias de compensação do lado da receita poderiam facilmente tornar Portugal um dos elos mais fracos da união monetária.» (daqui)