decisão censória

«Este pequeno filme que se destinava a passar na televisão francesa foi censurado pelo Conselho Superior de Audiovisual francês, com a alegação de que não se enquadrava nos critérios de serviço público, invocando o argumento de que as imagens de crianças com trissomia 21 sorridentes e felizes poderia “perturbar as consciências de mulheres que tinham tomado, legalmente, outras escolhas de vida pessoais” (leia-se aborto). Esta decisão censória foi posteriormente confirmada pelo Conselho de Estado francês, levando a uma justa indignação das organizações que se dedicam a apoiar as famílias de portadores de trissomia 21.» (daqui)

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les sans dents

helena-matos«Recordemos: o mediatismo esclarecido, com os seus “robespierres”, primeiro escarneceu e depois irritou-se com os deploráveis de Trump. Mas os sem dentes de Le Pen já estão à nossa espera. É melhor ouvi-los. Perceber o que são as suas vidas. Os seus medos. Ou a insistirmos na atitude do “medático esclarecido” mais uma vez, diante dos resultados eleitorais, acabaremos na choradeira incrédula do costume, nas patéticas manifestações de “democratas tão democratas que não aceitam os resultados das urnas” e com a CML a mandar fazer novos cartazes que, pelo menos, se espera não tenham erros gramaticais, matéria em que os franceses seja qual for a sua área política não têm qualquer sentido de humor.

É a Hollande que devemos a expressão “Os sem dentes” para designar os pobres. Para sermos honestos, mais do que a Hollande é à sua por assim dizer atribulada vida conjugal que devemos ter ficado a conhecer a forma por que o actual presidente francês se refere àquelas pessoas que não têm sobre a segurança, a família e o multiculturalismo as mesmas ideias que ele, Hollande, ex-messias da esquerda europeia. Para cúmulo estas pessoas são pobres, vestem-se mal, não têm charme e, ao contrário dos árabes, dos negros ou da “gens du voyage”, estão do lado errado da História: nenhum sociólogo os considera vítimas de uma qualquer fobia ou ismo. As vidas deles são apenas o resultados da sua própria ignorância.» (daqui)

livros que vou lendo (2)

o vermelho e o negro

“O Vermelho e o Negro”, de Stendahl

 

«O romance da vida de Vasco Graça Moura é “O Vermelho e o Negro”. Em quatro palavras: amor, morte, poder, traição. Leiam, releiam. “O Vermelho e o Negro” surgiu em 1830, quando o seu autor, Stendhal, aliás Henri Beyle, tinha 47 anos. Foi o seu segundo romance (o seu outro grande romance de referência, “A Cartuxa de Parma”, é posterior) e publicou-o no ano em que, depois de vários amores mal correspondidos, uma mulher – Giulia Rineri – se apaixonou por ele e lhe disse. Nunca lhe tinha acontecido. Não houve um final feliz. Pediu a mão de Giulia ao tutor, que iludiu o pedido e Giulia casou-se com outro, três anos depois. Mas foi, de certo modo, por comparação, um amor feliz. Stendhal já tinha publicado “Do Amor”, a seguir a uma paixão desgraçada por Métilde Dembowski.Não vamos continuar com apontamentos biográficos, “O Vermelho e o Negro” não é uma história de amor desse género. Vasco Graça Moura escolheu-o como o romance da sua vida, e resumiu-o, porque Paulo Nozolino pediu, em quatro palavras – amor, morte, poder, traição. O que faz que, para continuarmos, fique mais ou menos assim:Em Verrières, uma aldeia, Julien Sorel, de 18 anos, um rapaz de origem absolutamente modesta, ambicioso nessa proporção, sonha com o seminário como fuga a um destino igual ao do pai, carpinteiro. Monsieur de Renal, o maire, leva-o para casa como preceptor dos filhos. Julien sabe a Bíblia de cor, o que provoca em todos uma admiração que de certeza ainda dura, e torna-se amante de Madame de Renal; ela só conhece o amor por ter lido romances, está apaixonada e é tão inocente que um dia lhe ocorre fazer confidências ao marido, embora depois, é verdade, desista; ele pensa nela, mas também em Napoleão. Uma das crianças adoece e ela acredita num castigo divino. O marido sabe do adultério por carta anónima. Julien tem de partir. Vai para um seminário em Besançon.O abade director do seminário sugere-lhe que se torne secretário do Marquês de la Mole em Paris, para onde Julien vai, depois de uma última e perigosa visita a Madame de Renal, que vive ainda a paixão que a levara ao adultério.Mathilde, a filha do Marquês, sente-se atraída por Julien e uma noite encontram-se no quarto dela. Uns dias depois, diz-lhe que nunca gostou dele. Entretanto, Julien faz a sua ascensão social tornando-se um homem de confiança do Marquês, interessa-se por outra, “e foi então que Matilde amou pela primeira vez”. Está grávida, de resto, diz-lhe a ele, e diz ao pai que se quer casar com Julien. O Marquês obtém-lhe o título de Marquês Sorel de Vernaye.Enquanto o casamento se prepara, Madame de Renal escreve ao Marquês contando-lhe a história de Julien, que perde a cabeça, chega a Verrières e, na igreja, durante a missa, atira sobre Madame de Renal. Não chega a matá-la.Na prisão, percebe que gosta de Madame de Renal e medita sobre a inutilidade da sua ambição e da ambição em geral. Madame de Renal e Mathilde intervêm para que não seja condenado à morte; ele quer morrer. Uns dias depois da execução, Madame de Renal morre.Chegando aqui, falta admitir que é cómico resumir “O Vermelho e o Negro” como uma telenovela, mas era necessário, porque nem toda a gente se lembra. Claro que o melhor é relerem. Está disponível numa edição da Clássica Editora, tem 572 pgs., custa 9,48.PÚBLICA – Lembra-se da primeira vez que leu “O Vermelho e o Negro”? Vasco Graça Moura – Li-o pela primeira vez, aí pelos doze ou treze anos, quando comecei a ser capaz de ler em francês. Mas já conhecia grande parte da história graças ao meu pai, que era um stendhaliano e um balzaciano ferrenho e que, quando nós éramos pequenos, falava connosco à mesa dos livros que considerava importantes. Interessavam-no particularmente as cenas do seminário e dos bastidores da intriga política.Enquanto, na “Chartreuse”, Fabrice del Dongo não se move propriamente fora do seu meio, mas sim entre os impulsos passionais, as intrigas e os cinismos próprios do seu meio, o que, de algum modo, torna o seu “bonapartismo” qualitativamente diferente, Julien Sorel tem de tentar subir a pulso toda a escala da ascensão social. É um outsider que precisa, por ambição, de se converter em insider e que vive as tensões e as contradições desse percurso, falhando quase no termo, quando os bons resultados estão à vista. Neste aspecto, Julien está mais próximo do Lucien de Rubempré, do Balzac, do que do Eugène de Rastignac, do mesmo Balzac, gente da pequena nobreza de província que tenta também uma ascensão no grand milieu de Paris. Só que Lucien se suicida e Julien é executado, enquanto Rastignac sobrevive e se impõe pelo cinismo…Hoje em dia, creio que esses aspectos contam cada vez menos, salvo para certas audiências televisivas. Deu-se uma espécie de “globalização” nessa matéria.» (daqui)

os opostos atraem-se

Front-National-Flamme syriza1«O que pode significar a vitória eleitoral do Syriza para estes populismos? Pode, claro, não significar nada, a não ser novas eleições na Grécia daqui a uns meses. Mas pode significar muito mais do que uma reconfiguração da área do Euro, por mais grave que essa reconfiguração fosse, com o despejo da Grécia – ou a fuga da Alemanha. O modo como a esquerda radical do Syriza ultrapassou a esquerda social-democrata do Pasok (que caiu de 43,9% dos votos em 2009 para 4,7% ontem), tal como o triunfo da Frente Nacional nas últimas eleições europeias em França, permite imaginar a maior de todas as eventualidade políticas: uma mudança dos partidos que, nas democracias europeias, fixaram desde a segunda guerra mundial as opiniões da maioria dos cidadãos. À esquerda, os actuais partidos de matriz social-democrata dariam lugar a partidos de matriz radical; à direita, os partidos de matriz liberal-conservadora seriam trocados por partidos de matriz nacionalista. Em França, há anos que a família Le Pen não sonha com outra coisa.» (daqui)

je suis charlie

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«Nós somos Charlie porque não temos medo de idiotas que acham que vão para o céu e depois não vão. Hão de estar num sítio escuro, ou escondidos da polícia, ou escondidos do Deus bondoso e risonho, o único que todas as teologias permitem. E somos mais Charlie ainda, porque não tendo medo, não ripostamos: não proibimos Mesquitas como vocês proíbem Igrejas. Não decapitamos inocentes e, se alguns dos nossos países têm pena de morte, não é por motivos religiosos, nem por blasfémia. Ultrapassámos essa fase há séculos, seus retardados mentais.» (daqui)