les sans dents

helena-matos«Recordemos: o mediatismo esclarecido, com os seus “robespierres”, primeiro escarneceu e depois irritou-se com os deploráveis de Trump. Mas os sem dentes de Le Pen já estão à nossa espera. É melhor ouvi-los. Perceber o que são as suas vidas. Os seus medos. Ou a insistirmos na atitude do “medático esclarecido” mais uma vez, diante dos resultados eleitorais, acabaremos na choradeira incrédula do costume, nas patéticas manifestações de “democratas tão democratas que não aceitam os resultados das urnas” e com a CML a mandar fazer novos cartazes que, pelo menos, se espera não tenham erros gramaticais, matéria em que os franceses seja qual for a sua área política não têm qualquer sentido de humor.

É a Hollande que devemos a expressão “Os sem dentes” para designar os pobres. Para sermos honestos, mais do que a Hollande é à sua por assim dizer atribulada vida conjugal que devemos ter ficado a conhecer a forma por que o actual presidente francês se refere àquelas pessoas que não têm sobre a segurança, a família e o multiculturalismo as mesmas ideias que ele, Hollande, ex-messias da esquerda europeia. Para cúmulo estas pessoas são pobres, vestem-se mal, não têm charme e, ao contrário dos árabes, dos negros ou da “gens du voyage”, estão do lado errado da História: nenhum sociólogo os considera vítimas de uma qualquer fobia ou ismo. As vidas deles são apenas o resultados da sua própria ignorância.» (daqui)

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a tragédia da esquerda

josé manuel fernandes«A desilusão brasileira é, contudo, apenas a mais recente desilusão das esquerdas eternamente românticas. Aqui pela Europa, nos últimos anos, a sua primeira grande desilusão chamou-se François Hollande. Mal chegou ao Eliseu e se confrontou com a realidade, o socialista esqueceu-se de todas as promessas eleitorais e começou a tratar de fazer – mas enfrentando enormes resistências –, as reformas que tinha prometido combater. O homem que ia fazer frente a Merkel sucumbiu logo nos primeiros embates e a desordem criada na paisagem política francesa é hoje tal que o impensável – uma vitória da Frente Nacional – até já aconteceu, se bem que ainda só numas eleições europeias.

Mas Hollande, dirão os nossos românticos, não era senão “um frouxo”, um típico produto dos partidos socialistas e sociais-democratas que são cúmplices do “neoliberalismo” e demasiado acomodados para transportarem qualquer ousadia de esperança. Havia que encontrar um novo messias, e ele logo surgiu sob a forma de um jovem deus grego, Alexis Tzipras, e do seu Syriza. A sua vitória, garantiam-nos, ir mudar a Europa e “acabar com a austeridade”.

50 dias depois o balanço é quase trágico. A pouca confiança que havia entre a Grécia e os seus credores desapareceu por completo. Por troca com algumas variações semânticas, o governo do Syriza já começou a comprometer-se na Europa com medidas que nem teve coragem de colocar à discussão e votação no Parlamento onde tem a maioria. Agora já se fala abertamente de “suspender ou atrasar a implementação das promessas [eleitorais]”, e todos sabemos como isso pode ser apenas um eufemismo face ao que vai mesmo acontecer. Pior: em poucas semanas o mal feito à economia grega é já enorme, pelo que a recuperação iniciada em 2014 deve estar comprometida. Isto se tudo não acabar de forma ainda mais dolorosa no curto prazo, com uma saída caótica do euro.» (daqui)