a nova austeridade

helena-garrido«As já décadas de acompanhamento do Orçamento do Estado permitem concluir que é praticamente impossível que o PCP e mesmo o Bloco ignorassem a estratégia que o Governo estava a seguir. Se não o soubessem por via da análise do Orçamento do Estado – o PCP sempre teve excelentes deputados a analisar o Orçamento – tiveram com certeza conhecimento dos apertos financeiros dos serviços através de militantes ou simpatizantes. Quiseram também eles que a austeridade fosse escondida, como querem que se mantenha escondida toda a estratégia europeia do Governo nas matérias a que oficialmente se opõem.

A política da austeridade escondida altamente ameaçadora dos serviços públicos foi prosseguida pelo Governo mas teve a cumplicidade do PCP e do Bloco de Esquerda. Podem hoje competir pelo pódio de quem defendeu mais a reposição dos rendimentos mas todos estão a ser responsáveis pelo risco a que expuseram os serviços públicos. É aliás extraordinário que aqueles que dizem defender o Estado sejam os que mais o põem em causa.» (daqui)

Neste momento resta-nos apenas desejar que não aconteçam outras tragédias.

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de leitura obrigatória

helena-garrido«Nos duros anos da troika cortou-se despesa pública por todo o lado, sem dúvida. Vivíamos numa situação de emergência financeira em que a alternativa a esses cortes, no quadro em que estávamos, seria o colapso do Estado, ou seja, de toda a sociedade. Com a vertente financeira estabilizada e com o crescimento da economia, o Governo ficou com as mãos livres para fazer escolhas.

Este Governo escolheu gastar a margem financeira que o Estado ganhou na recuperação de rendimentos dos funcionários públicos, dos pensionistas e dos contribuintes. Esqueceu-se que também há pessoas atrás das despesas de funcionamento e de investimento do Estado. Os portugueses em geral que precisam de segurança, de justiça, de saúde, de educação, de transportes públicos.

Com essa estratégia satisfez um vasto segmento da população, o Governo ganhou popularidade e intenções de voto espelhadas nas eleições autárquicas. Simplificou-nos o mundo dividindo-o entre “os maus” do anterior Governo que queria a infelicidade de todos e os “bons”, que agora governam, que nos querem fazer felizes. Infantilizou-nos e nós aceitámos ser infantilizados.» (daqui)

ninguém quer saber do passado (nem do futuro)

225px-Pedro_Passos_Coelho_1«Os erros de Pedro Passos Coelho foram esses. O de projectar o futuro de forma linear – não contou com a cumplicidade do PCP – e o de acreditar que era possível aos portugueses verem a realidade dos problemas que temos e não se deixarem iludir. E assim se transformou naquilo que o próprio designou como a “argamassa” desta solução governativa. Sem o querer, era o ex-futuro líder do PSD que estava a unir o PCP e o Bloco de Esquerda ao PS. Transformaram Pedro Passos Coelho – e Pedro Passos Coelho foi deixando que isso acontecesse — numa espécie de “lobo mau”: se não querem, vem aí a “direita e o corte de rendimentos”. Os resultados das eleições autárquicas, os piores de sempre do PSD, confirmaram que boa parte dos cidadãos sentiam o mesmo: não querem este líder social-democrata que os alerta para os problemas.

Ninguém quer saber do passado como também dizia esta semana na SIC Pedro Santana Lopes. Como também ninguém quer saber do futuro. Cansados de crise, queremos viver o presente. A história agradecerá a Passos o que fez pelo país. Esperemos que os portugueses não tenham também de se lembrar dos avisos que fez. Porque os problemas estão lá, à espera de serem resolvidos para não empobrecermos.» (daqui)

o que está realmente em causa

helena-garrido«Perante estes factos, a defesa dos interesses dos trabalhadores aparece como um sub-produto do objectivo principal: a CGTP, afecta ao PCP, quer controlar sindicalmente a Autoeuropa que até agora estava sob a influência do Bloco de Esquerda. Esta é a principal batalha que se desenrola na fábrica e para a qual cada parte está a mobilizar as suas tropas. A defesa dos interesses de quem trabalha na fábrica está em segundo plano. Caso exista um conflito entre os dois objectivos, vai dar-se prioridade ao que garantir a vitória do sindicato e não dos trabalhadores.

São estas batalhas, que colocam os interesses partidários acima dos interesses dos trabalhadores, que têm contribuído para a desacreditação dos sindicatos, enquanto organizações de defesa de uma das partes que integra a comunidade empresa. Mas há também outros factores mais recentes, como o individualismo e na era actual a arma letal para os sindicatos que é a nova organização do trabalho simbolizada pela Uber.» (daqui)

“estado abandalhado”

helena-garrido«É no incêndio de Pedrogão Grande que nos confrontamos com o grau de desorganização do Estado numa das suas funções nucleares: a garantia da segurança dos cidadãos. Morreram pessoas num incêndio e aquilo a que assistimos é a mil e uma explicações. E aquela que se aproxima mais da nossa cultura de “fado” a assume-se como possível logo nas primeiras horas do incêndio, validada pela Polícia Judiciária. Explicação que seguiu o tom dado pelo Presidente da República – fez-se o que se podia, foi uma fatalidade.

E não foi. Quem não sofre de clubismo partidário ou quer conhecer a realidade sabe que não foi uma fatalidade, foi um Estado burocrático, adormecido, abandalhado e desorganizado que entrou pelos nossos olhos a dentro nesses dias de terror em Pedrogão Grande e matou pessoas e deixou centenas sem lar. E depois há a reorganização da floresta que não se vê, que não dá votos.

Quando pensávamos que tínhamos atingido o grau zero, eis que sabemos que em Tancos roubaram calmamente e selectivamente material bélico capaz de deitar um prédio abaixo. Até nas Forças Armadas chegámos ao estado de “deixa andar, tanto faz e logo se vê, não te preocupes”. Tínhamos um espaço recheado de material bélico sem vigilância adequada e com uma vedaçãozinha mesmo ali ao lado da A23? Na era do terrorismo?» (daqui)