aproveitamento político

«O mistério do aproveitamento político dos mortos de Pedrogão é tão mais espantoso quanto as mesmas pessoas que agora consideram ser aproveitamento político querer saber quantos e porquê morreram em Pedrogão, levaram o período entre 2011 e 2015 a denunciar os mortos da austeridade. Eram as pessoas que morriam com fome, os que se suicidavam, os que desistiam de viver… Curiosamente nunca então se colocou a questão do aproveitamento político.» (daqui)

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o medo

jaime-nogueira-pinto«Não foram as ameaças a impedir a conferência de Jaime Nogueira Pinto. Foi o medo. Foi a conivência. Foi o reconhecimento da superioridade da extrema-esquerda. Caso Jaime Nogueira Pinto tivesse sido ameaçado por ultras de direita, neste momento a sua conferência não só teria lugar como até aconteceria num espaço mais solene. Diversos colegas, os dirigentes das juventudes partidárias, catedráticos de outras faculdades e os eleitos das associações de estudantes marcariam presença nessa conferência transformada em acto de desagravo e de força, do lado da liberdade. Todos fariam declarações inflamadas para os jornalistas que as repetiriam enfaticamente. Obviamente aqueles que tinham procurado impedir a conferência meteriam a violinha no saco e apareceriam a dizer que tudo aquilo não passara de um enorme mal-entendido.

Mas, como Jaime Nogueira Pinto foi ameaçado pela extrema-esquerda, nada disso acontece. Antes pelo contrário, a anulação da sua conferência é apresentada como um gesto de bom senso perante as tais ameaças e, o que não é dito mas está implícito, também perante as ideias de Jaime Nogueira Pinto e de quem o convidou, ideias essas que têm o condão de irritar aquelas almas inflamadas mas bem intencionadas. Aliás, se nós formos bonzinhos, fofinhos, queriduchos eles não se irritam. São até bons rapazes. Vejam como eles se portam bem nas conferências do professor Boaventura!» (daqui)

les sans dents

helena-matos«Recordemos: o mediatismo esclarecido, com os seus “robespierres”, primeiro escarneceu e depois irritou-se com os deploráveis de Trump. Mas os sem dentes de Le Pen já estão à nossa espera. É melhor ouvi-los. Perceber o que são as suas vidas. Os seus medos. Ou a insistirmos na atitude do “medático esclarecido” mais uma vez, diante dos resultados eleitorais, acabaremos na choradeira incrédula do costume, nas patéticas manifestações de “democratas tão democratas que não aceitam os resultados das urnas” e com a CML a mandar fazer novos cartazes que, pelo menos, se espera não tenham erros gramaticais, matéria em que os franceses seja qual for a sua área política não têm qualquer sentido de humor.

É a Hollande que devemos a expressão “Os sem dentes” para designar os pobres. Para sermos honestos, mais do que a Hollande é à sua por assim dizer atribulada vida conjugal que devemos ter ficado a conhecer a forma por que o actual presidente francês se refere àquelas pessoas que não têm sobre a segurança, a família e o multiculturalismo as mesmas ideias que ele, Hollande, ex-messias da esquerda europeia. Para cúmulo estas pessoas são pobres, vestem-se mal, não têm charme e, ao contrário dos árabes, dos negros ou da “gens du voyage”, estão do lado errado da História: nenhum sociólogo os considera vítimas de uma qualquer fobia ou ismo. As vidas deles são apenas o resultados da sua própria ignorância.» (daqui)

a (in)sustentabilidade da segurança social (1)

segsocial«Quando o que fora anunciado como um processo histórico único e superior se tornou numa tragédia [processo de descolonização], eles, os anteriormente cheios de certezas, os proclamadores de um futuro radioso, desapareceram literalmente de cena. Ou mais propriamente desapareceram daquela cena porque outras cenas e outros palcos esperavam o seu brilhantismo, o seu espírito libertador e a sua clarividência.

E é exactamente este processo a que vamos assistir em matéria de sustentabilidade de segurança social: aqueles que agora tanto se insurgem com a necessidade de fazer ajustamentos, aqueles que têm a certeza de que basta o crescimento económico para resolver os problemas, esses terão saído discretamente desta discussão quando dentro de algum tempo a geração que agora sustenta a Segurança Social se confrontar com a degradação do valor das pensões que irá receber.

Mas nada disso interessa. O que interessa é que está estabelecido que dizer a verdade como fez Maria Luís pode levar a perder as eleições porque numa lógica eleitoral completamente dominada pelo populismo estabeleceu-se que há que mentir ao povo prometendo-lhe sobretudo o que já se sabe não ser possível.» (daqui)

dos “moradores suburbanos com fatos de alfaiates de segunda”

MassamNorte
Massamá Norte

«Só que esse país, por mais fotogénico que fosse, e de facto era e ainda é nas reportagens paternalistas que o New York Times nos dedica, coexiste com um Portugal suburbano, cheio de homens que vestem fatos de alfaiates de segunda para ir trabalhar. Alguns optam por uma ainda mais esteticamente dramática versão desportiva. As élites partidárias, culturais e mediáticas abominam este mundo que não fica bem nas fotografias, não aparece muito nas encíclicas e não encontra explicação em Marx. Das universidades onde se multiplicam os centros de estudos dirigidos por clones de Raquel Varela às sedes partidárias sejam elas de esquerda ou de direita, a dicotomia entre os muito pobres e os muito ricos justifica-lhes muito mais o seu pendor intervencionista.

Mas o país suburbano existe e é fundamental que os grandes partidos e os seus líderes democratizem a relação que têm com ele. Caso não o façam o desinteresse dessas pessoas será um dos terrenos em que crescerão os populismos que tornarão o país ingovernável. Os casos da França e da Espanha são um bom exemplo daquilo a que pode conduzir a clivagem entre os partidos democráticos e a realidade. Só que em Portugal não será sequer necessário que surjam uma Frente Nacional ou um Podemos para que acabemos num beco sem saída ou mais propriamente a acreditar que é possível regressar ao passado. PS e PSD têm mais do que quanto baste de gente que acredita que tal não só é possível como desejável.» (daqui)