de leitura obrigatória

helena-garrido«Nos duros anos da troika cortou-se despesa pública por todo o lado, sem dúvida. Vivíamos numa situação de emergência financeira em que a alternativa a esses cortes, no quadro em que estávamos, seria o colapso do Estado, ou seja, de toda a sociedade. Com a vertente financeira estabilizada e com o crescimento da economia, o Governo ficou com as mãos livres para fazer escolhas.

Este Governo escolheu gastar a margem financeira que o Estado ganhou na recuperação de rendimentos dos funcionários públicos, dos pensionistas e dos contribuintes. Esqueceu-se que também há pessoas atrás das despesas de funcionamento e de investimento do Estado. Os portugueses em geral que precisam de segurança, de justiça, de saúde, de educação, de transportes públicos.

Com essa estratégia satisfez um vasto segmento da população, o Governo ganhou popularidade e intenções de voto espelhadas nas eleições autárquicas. Simplificou-nos o mundo dividindo-o entre “os maus” do anterior Governo que queria a infelicidade de todos e os “bons”, que agora governam, que nos querem fazer felizes. Infantilizou-nos e nós aceitámos ser infantilizados.» (daqui)

Anúncios

um ponto de viragem

maria joão avillez«Julgo que o Presidente da República, pelas palavras ditas ontem, mostrou ter a clara noção do que tem às costas. Tem o país inteiro. Portugal não sabe para onde virar-se, na sua aflição desnorteada, na sua raiva contida, na sua perplexidade muda. Tardou, é certo. Marcelo Rebelo de Sousa demorou a mostrar-nos que não apreciava o estado das coisas que chocam e enlutam Portugal desde o início do verão mas foi finalmente firme. Quase cortante. Cem mortos são cem mortos e ocorreram no seu mandato. Não podia continuar a esgotar-se em selfies. A dizer que “tudo tinha sido feito” como desgraçadamente o ouvimos dizer em Pedrogão. A refugiar-se nos seus habituais cálculos para ver “para onde isto cai”, ou sequer em esperas de mais um ou dois “relatórios independentes” ( e de que serviram?). E mesmo que a segunda tragédia, pela sua horrível natureza de “repetição”, lhe exija ainda mais abraços (e ainda bem que ele sabe dá-los tão comovidamente) é preciso que o abraço leve consigo a decisão de mais decência e menos falhanço. Que tanto abraço sirva para mais alguma coisa do que o remake de um breve consolo num instantâneo televisivo triste.» (daqui)

terrorismo

ng1336521_435x190«Pelo que tem sido dito por governantes, autarcas, bombeiros e gente ligada à proteção civil, há crime por detrás do que temos vivido. Falam, mas não usam as palavras certas. Fica aqui escrito. Um incendiário é um terrorista. Lançar fogo a uma floresta é terrorismo e o terrorismo, tal como o crime organizado e violento tipo mafioso, é combatido com meios próprios e excecionais que, apesar de tudo, têm tido resultados parcialmente positivos. Faça-se o mesmo no caso dos incêndios, com as adaptações necessárias. Mas atue-se de vez. Não se pode é argumentar com uma coisa e depois não se ser consequente. Se há crime organizado ou terrorismo (diferença que aqui é meramente semântica), então é importante saber o que já foi feito ou se é apenas uma atoarda para nos agravar a insegurança e disfarçar incompetências.» (daqui)

aproveitamento político

«O mistério do aproveitamento político dos mortos de Pedrogão é tão mais espantoso quanto as mesmas pessoas que agora consideram ser aproveitamento político querer saber quantos e porquê morreram em Pedrogão, levaram o período entre 2011 e 2015 a denunciar os mortos da austeridade. Eram as pessoas que morriam com fome, os que se suicidavam, os que desistiam de viver… Curiosamente nunca então se colocou a questão do aproveitamento político.» (daqui)

“estado abandalhado”

helena-garrido«É no incêndio de Pedrogão Grande que nos confrontamos com o grau de desorganização do Estado numa das suas funções nucleares: a garantia da segurança dos cidadãos. Morreram pessoas num incêndio e aquilo a que assistimos é a mil e uma explicações. E aquela que se aproxima mais da nossa cultura de “fado” a assume-se como possível logo nas primeiras horas do incêndio, validada pela Polícia Judiciária. Explicação que seguiu o tom dado pelo Presidente da República – fez-se o que se podia, foi uma fatalidade.

E não foi. Quem não sofre de clubismo partidário ou quer conhecer a realidade sabe que não foi uma fatalidade, foi um Estado burocrático, adormecido, abandalhado e desorganizado que entrou pelos nossos olhos a dentro nesses dias de terror em Pedrogão Grande e matou pessoas e deixou centenas sem lar. E depois há a reorganização da floresta que não se vê, que não dá votos.

Quando pensávamos que tínhamos atingido o grau zero, eis que sabemos que em Tancos roubaram calmamente e selectivamente material bélico capaz de deitar um prédio abaixo. Até nas Forças Armadas chegámos ao estado de “deixa andar, tanto faz e logo se vê, não te preocupes”. Tínhamos um espaço recheado de material bélico sem vigilância adequada e com uma vedaçãozinha mesmo ali ao lado da A23? Na era do terrorismo?» (daqui)