encalhados

12022012-DSC_0114«Agora encalhámos na EDP e as atenções voltaram-se para António Mexia, o que nos faz recordar toda a teia de relações existente nos tempos de Pinho, Sócrates e, claro, Salgado. Ou seja, encalhámos nos mesmos. Mas que não são os únicos, bem pelo contrário, já que boa parte dos grandes empresários portugueses sempre necessitou de se encostar ao Estado para singrar – foi assim no século XIX quando perdemos a Revolução Industrial, foi assim em grande parte do século XX, quando éramos “pobretes mas alegretes”, ainda continua a ser assim neste triste século XXI de estagnação e desilusão.

Economias assim chamam-se “economias extractivas”, onde só uns poucos, protegidos por instituições corruptas, beneficiam de sugarem a riqueza colectiva. São também economias condenadas à pobreza relativa, como bem se explica em “Porque Falham as Nações”, a obra de Daron Acemoglu e James Robinson que já recomendei muitas vezes e que, se ainda não leram, bem podem aproveitar os descontos da Feira do Livro.

É que da EDP não deverão esperar qualquer desconto – como até a troika percebeu, todos estes contratos estão blindados. As “rendas” vieram para ficar por muitos e longos anos. Algumas por mais dez anos.» (daqui)

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a próxima bomba

Montepio-Geral«Como gato escaldado da água fria tem medo, e todos estamos cansados de declarações de “tranquilidade” nas vésperas das várias crises bancárias, as quais já mobilizaram – contas do Banco de Portugal – 13 mil milhões de euros de dinheiros públicos, só podemos olhar com inquietação, mas mesmo muita inquietação, para as notícias sobre uma possível entrada da Santa Casa da Misericórdia para reforçar os capitais da Caixa Económica Montepio Geral. Como é possível? Que riscos é que isso envolve? E que sentido faz, para além de ser um remendo? Faz uma tal operação parte da missão da Santa Casa?

Quando se chega a este ponto é porque a aflição é grande. E as saídas poucas. Antes do colapso do Grupo Espírito Santo, Ricardo Salgado tentou convencer o governo de então a permitir uma “ajuda” da Caixa Geral de Depósitos. Passos Coelho disse que não. E essa foi seguramente uma das decisões mais importantes e mais positivas do seu mandato – basta imaginar a dimensão do buraco para que a Caixa poderia ter sido arrastada.

Será que agora está a acontecer o contrário e logo com a Santa Casa? Tenham medo, muito medo.» (daqui)

o maior problema de passos coelho

225px-Pedro_Passos_Coelho_1«O maior problema de Passos é que, mesmo depois dos difíceis anos de ajustamento, o país não dá sinais de ter entendido a necessidade de reformas e ele, tal como o PSD (e o CDS), parecem ter-se resignado a isso. Por isso não tem um discurso político mais coerente e mais mobilizador. Pode ter toda a razão do mundo quando denuncia os truques orçamentais do Governo (e tem), mas isso é pouco. Pode ir aproveitando as diferentes trapalhadas da geringonça, mas isso também é pouco, é politiquinha que só mobiliza os activistas. Pode (e até deve) continuar a avisar para os perigos do rumo que está a ser seguido, mas continua a ser muito pouco e muito deprimente. Pior: tudo somado é sempre poucochinho.

Dir-se-á: podia ser diferente? A meu ver podia, e não apenas fazendo “mais política”, como recomendam os comentadores que adoram a intriga, a manobra e o jogo de enganos. Mas exigia outra forma de olhar para o país e de fazer política. Uma capacidade para dizer sem rodeios que Portugal nunca irá a lado nenhum enquanto não sair deste atavismo que mistura o corporativismo que vem do Estado Novo com o socialismo “constitucional”, essa sopa pastosa em que nos movemos e que nunca ninguém verdadeiramente desafiou.» (daqui)

juntar os pontos todos

josé manuel fernandes«O socratismo levou pois aos limites o dirigismo e a concentração de poderes, funcionando como uma espécie de estádio superior do socialismo num país que convive bem com isso – que até aprecia o estilo e os objectivos (e por isso é pobre e atrasado). Já o que José Sócrates fez depois em cima do sistema que construiu é, como sabemos, um caso de polícia. Mas a verdade é que o terreno estava bem adubado, tal como o país estava bem anestesiado.

É por isso que é tão importante ligar os pontos todos, não apenas aqueles que a Procuradoria anda a investigar. É por isso que é mesmo necessário saber o que aconteceu com os empréstimos irrecuperáveis da Caixa, aqueles que todos iremos agora pagar e que não querem que os deputados vejam. Assim como é importante conhecer o que se passou com o dinheiro que andou a vir e a ir para a Venezuela e a sua empresa de petróleos com passagem pelo Panamá.» (daqui)

demagogia

logo_sns1«Chegados aqui, perguntar-se-á: como pode um deputado abalançar-se a tanto desvario? Bem sabemos que, para as gentes do Bloco, há muito que a pós-verdade é a sua forma natural de estar, tal como sabemos que isso não lhes é cobrado pois são provavelmente a força política menos escrutinada nos jornais e televisões. Mas para chegar a este ponto é necessária a cegueira própria de quem decorou uma cartilha anti-capitalista e a debita sem sequer pensar. Até o PCP tem hoje mais cuidado, como se verifica na forma como, também se opondo às PPP na saúde, não maltrata tão grosseiramente a verdade. Raras vezes se fala das fixações ideológicas do Bloco, mas é bom não esquecer que se sentam à esquerda do PCP no hemiciclo por escolha própria. O radicalismo e o extremismo fazem mesmo parte da sua natureza.

Mas nestas declarações há também uma demagogia populista que em nada desmerece a de Trump, ou de Iglésias, ou Beppe Grillo, ou de Marine Le Pen. Quando Moisés Ferreira diz que “o orçamento da saúde não pode ser uma renda para negócios privados” está a jogar na confusão e na mistificação. Ele sabe que as PPP têm má imagem em Portugal, por causa das PPP rodoviárias e ferroviárias, pelo que trata de meter tudo no mesmo saco. Ele também sabe que falar de “rendas de privados” é tocar num nervo sensível que suscita a imediata indignação. O facto de na saúde não existirem rendas privadas mas prejuízos privados, e de as PPP terem aqui uma natureza muito diferente das do sector dos transportes, é-lhe absolutamente indiferente. Para a opinião pública, só lhe interessa a frase grandiloquente. Para a vida da geringonça só lhe importa colocar pressão sobre o PS. Sem ela o Bloco perde sentido como partido radical, tal como sem ela perde utilidade para os eleitores, que deixam de o distinguir do PS.» (daqui)