um ponto de viragem

maria joão avillez«Julgo que o Presidente da República, pelas palavras ditas ontem, mostrou ter a clara noção do que tem às costas. Tem o país inteiro. Portugal não sabe para onde virar-se, na sua aflição desnorteada, na sua raiva contida, na sua perplexidade muda. Tardou, é certo. Marcelo Rebelo de Sousa demorou a mostrar-nos que não apreciava o estado das coisas que chocam e enlutam Portugal desde o início do verão mas foi finalmente firme. Quase cortante. Cem mortos são cem mortos e ocorreram no seu mandato. Não podia continuar a esgotar-se em selfies. A dizer que “tudo tinha sido feito” como desgraçadamente o ouvimos dizer em Pedrogão. A refugiar-se nos seus habituais cálculos para ver “para onde isto cai”, ou sequer em esperas de mais um ou dois “relatórios independentes” ( e de que serviram?). E mesmo que a segunda tragédia, pela sua horrível natureza de “repetição”, lhe exija ainda mais abraços (e ainda bem que ele sabe dá-los tão comovidamente) é preciso que o abraço leve consigo a decisão de mais decência e menos falhanço. Que tanto abraço sirva para mais alguma coisa do que o remake de um breve consolo num instantâneo televisivo triste.» (daqui)

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uma parceria imprudente

joão miguel tavares«(…) por que aceita Marcelo desempenhar o papel de ventríloquo de António Costa?

Será porque gosta muito de Costa? Porque odeia Passos? Porque acha que é o melhor para o país? Porque não quer chatices? Não tenho uma boa resposta – sei apenas que esta osmose é absurda e perigosa. Uma coisa é o Presidente da República desejar “estabilidade”. Até hoje, todos os presidentes da República desejaram “estabilidade”. Outra coisa, inteiramente diferente, é o palácio de Belém assinar uma inédita PPP (Parceria Presidente Primeiro-ministro) com o palácio de São Bento, nos seguintes termos: o segundo vende ao primeiro toda a argumentação acerca do espectacular estado do país; o primeiro compra essa versão e vende-a a todos os portugueses como se fosse sua e, portanto, “neutra”. Mais. Esta PPP até já vem com o seu credit default swap incluído, na figura do comentador e conselheiro de Estado Marques Mendes, que tem vindo cada vez mais a desempenhar o papel de avalista mediático do Presidente – e conspirador ocasional.» (daqui)

com amigos assim…

225px-Pedro_Passos_Coelho_1«Passos Coelho não precisa de inimigos nos outros partidos, já que os tem em número suficiente no interior do seu. Marques Mendes, por exemplo, ao domingo tem tempo de antena para desfazer Passos sem piedade. Se quer ou não voltar a ser líder do PSD, não faço ideia, mas que não quer lá Passos Coelho é evidente.

O governo de Costa bem pode receber avisos de Bruxelas a dizer que a geringonça (leia-se “o país”) não vai ter um final feliz; o PCP bem pode defender a saída do euro; o BE bem pode querer a renegociação da dívida – nada disso interessa para os gurus do PSD. O que interessa, acima de tudo, é correr com o homem que chegou ao governo para tirar o país da bancarrota… Se fossem os seus adversários a fazerem as críticas, percebia-se perfeitamente. Mas Passos leva mais pancada em casa do que fora.» (daqui)

sim, é possível!

Duarte-Marques-PSD

«(…) apesar de todos os condicionalismos históricos e culturais, é possível um candidato de direita vencer em qualquer concelho do território nacional. Para tal, basta ter qualidade, credibilidade e ser melhor do que os outros. Este resultado prova, mais uma vez, que os eleitores portugueses são inteligentes, que sabem distinguir os atos eleitorais e que não votam apenas no candidato do seu partido. Mais uma boa lição, que todos devemos reter.» (daqui)

calculismo

Marcelo-Rebelo-Sousa«Recentemente, vimo-lo a solidarizar-se com os gregos durante as negociações com os credores, parecendo mais próximo da linha do Syriza do que dos parceiros europeus, e a criticar duramente o governo de Passos. O que terá levado o professor a assumir estas posições aparentemente contraditórias com as convicções da sua família política?
Penso que há uma explicação simples para isso. Como ilustre figura do PSD, Marcelo acredita ter garantidos os votos do eleitorado de direita. Ao criticar o governo, agrada aos insatisfeitos (que são muitos) e espera porventura conseguir conquistar eleitores à esquerda, o que lhe permitiria fazer o pleno e obter uma vitória confortável nas presidenciais.

Mas há um perigo que Marcelo talvez não esteja a acautelar. Se, por algum momento, o comentador não for fiel às suas convicções e os telespectadores se aperceberem disso, o calculismo poderá sair-lhe caro. É aquilo a que se chama, em bom português, virar-se o feitiço contra o feiticeiro.» (daqui)