o que conta

mario-soares«Contudo, como português, como democrata, não tenho a menor hesitação em afirmar que desapareceu alguém a quem devo muito – a quem devo imenso. Tivesse ele perdido as batalhas em que se empenhou nos primeiros anos da nossa democracia, um tempo em que de alguma forma foi o rosto de um Portugal na vanguarda – na inauguração – daquilo a Samuel P. Huntington chamou a “terceira vaga democrática”, e eu não estaria a escrever este texto. Talvez nem estivesse vivo, ou livre, ou a viver em Portugal.

Por isso, porque prezo antes de tudo a liberdade, foi em liberdade que em 2004 participei no jantar dos seus 80 anos, porventura a maior e mais comovente homenagem que recebeu em toda a sua vida. E é em liberdade que quero continuar a recordá-lo pelos seus melhores anos. Os que marcarão para sempre o seu legado.

Não foi por acaso que, a abrir este texto, escolhi como referência o mais marcante estadista do século XX, Winston Churchill. Na nossa democracia Mário Soares ocupa um idêntico lugar cimeiro.» (daqui)

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livros que vou lendo (2)

o vermelho e o negro

“O Vermelho e o Negro”, de Stendahl

 

«O romance da vida de Vasco Graça Moura é “O Vermelho e o Negro”. Em quatro palavras: amor, morte, poder, traição. Leiam, releiam. “O Vermelho e o Negro” surgiu em 1830, quando o seu autor, Stendhal, aliás Henri Beyle, tinha 47 anos. Foi o seu segundo romance (o seu outro grande romance de referência, “A Cartuxa de Parma”, é posterior) e publicou-o no ano em que, depois de vários amores mal correspondidos, uma mulher – Giulia Rineri – se apaixonou por ele e lhe disse. Nunca lhe tinha acontecido. Não houve um final feliz. Pediu a mão de Giulia ao tutor, que iludiu o pedido e Giulia casou-se com outro, três anos depois. Mas foi, de certo modo, por comparação, um amor feliz. Stendhal já tinha publicado “Do Amor”, a seguir a uma paixão desgraçada por Métilde Dembowski.Não vamos continuar com apontamentos biográficos, “O Vermelho e o Negro” não é uma história de amor desse género. Vasco Graça Moura escolheu-o como o romance da sua vida, e resumiu-o, porque Paulo Nozolino pediu, em quatro palavras – amor, morte, poder, traição. O que faz que, para continuarmos, fique mais ou menos assim:Em Verrières, uma aldeia, Julien Sorel, de 18 anos, um rapaz de origem absolutamente modesta, ambicioso nessa proporção, sonha com o seminário como fuga a um destino igual ao do pai, carpinteiro. Monsieur de Renal, o maire, leva-o para casa como preceptor dos filhos. Julien sabe a Bíblia de cor, o que provoca em todos uma admiração que de certeza ainda dura, e torna-se amante de Madame de Renal; ela só conhece o amor por ter lido romances, está apaixonada e é tão inocente que um dia lhe ocorre fazer confidências ao marido, embora depois, é verdade, desista; ele pensa nela, mas também em Napoleão. Uma das crianças adoece e ela acredita num castigo divino. O marido sabe do adultério por carta anónima. Julien tem de partir. Vai para um seminário em Besançon.O abade director do seminário sugere-lhe que se torne secretário do Marquês de la Mole em Paris, para onde Julien vai, depois de uma última e perigosa visita a Madame de Renal, que vive ainda a paixão que a levara ao adultério.Mathilde, a filha do Marquês, sente-se atraída por Julien e uma noite encontram-se no quarto dela. Uns dias depois, diz-lhe que nunca gostou dele. Entretanto, Julien faz a sua ascensão social tornando-se um homem de confiança do Marquês, interessa-se por outra, “e foi então que Matilde amou pela primeira vez”. Está grávida, de resto, diz-lhe a ele, e diz ao pai que se quer casar com Julien. O Marquês obtém-lhe o título de Marquês Sorel de Vernaye.Enquanto o casamento se prepara, Madame de Renal escreve ao Marquês contando-lhe a história de Julien, que perde a cabeça, chega a Verrières e, na igreja, durante a missa, atira sobre Madame de Renal. Não chega a matá-la.Na prisão, percebe que gosta de Madame de Renal e medita sobre a inutilidade da sua ambição e da ambição em geral. Madame de Renal e Mathilde intervêm para que não seja condenado à morte; ele quer morrer. Uns dias depois da execução, Madame de Renal morre.Chegando aqui, falta admitir que é cómico resumir “O Vermelho e o Negro” como uma telenovela, mas era necessário, porque nem toda a gente se lembra. Claro que o melhor é relerem. Está disponível numa edição da Clássica Editora, tem 572 pgs., custa 9,48.PÚBLICA – Lembra-se da primeira vez que leu “O Vermelho e o Negro”? Vasco Graça Moura – Li-o pela primeira vez, aí pelos doze ou treze anos, quando comecei a ser capaz de ler em francês. Mas já conhecia grande parte da história graças ao meu pai, que era um stendhaliano e um balzaciano ferrenho e que, quando nós éramos pequenos, falava connosco à mesa dos livros que considerava importantes. Interessavam-no particularmente as cenas do seminário e dos bastidores da intriga política.Enquanto, na “Chartreuse”, Fabrice del Dongo não se move propriamente fora do seu meio, mas sim entre os impulsos passionais, as intrigas e os cinismos próprios do seu meio, o que, de algum modo, torna o seu “bonapartismo” qualitativamente diferente, Julien Sorel tem de tentar subir a pulso toda a escala da ascensão social. É um outsider que precisa, por ambição, de se converter em insider e que vive as tensões e as contradições desse percurso, falhando quase no termo, quando os bons resultados estão à vista. Neste aspecto, Julien está mais próximo do Lucien de Rubempré, do Balzac, do que do Eugène de Rastignac, do mesmo Balzac, gente da pequena nobreza de província que tenta também uma ascensão no grand milieu de Paris. Só que Lucien se suicida e Julien é executado, enquanto Rastignac sobrevive e se impõe pelo cinismo…Hoje em dia, creio que esses aspectos contam cada vez menos, salvo para certas audiências televisivas. Deu-se uma espécie de “globalização” nessa matéria.» (daqui)

uma espécie em vias de extinção

winston-c«Curiosamente, a ascensão de Churchill à categoria de sagrado histórico acontece num mundo e numa era em que, provavelmente, ele não conseguiria fazer a política que fez. Diria mesmo mais: Churchill talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea. Isso vai a crédito dele e a débito do mundo em que vivemos. Churchill era o que era e não disfarçava: um aristocrata e um homem do Império, o que hoje provocaria urticária e preconceito.

Fumava e bebia sem demasiada mesura, o que sem dúvida suscitaria nos dias que correm o habitual coro de “fascismos higiénicos” e conveniências sociais. Tinha, deliciosamente, mau feitio e bom carácter, precisamente a equação oposta face à correção política que faz sucesso provisório de não poucos políticos telegénicos e publicitários. Ia contra a corrente com a força de um verso solto e tonitruante, e se necessário mudava de Partido para não mudar de ideias – todo um desafio às conveniências moderninhas. Tinha sentido de humor e sentido da história: duvido que o primeiro correspondesse à ideia de gravitas que a mediania oficializada hoje estabelece, e tenho a certeza, quanto ao segundo, que poucos pregariam a persistência que ele pregou quanto à questão que para ele era essencial: bater-se pela centralidade da Grã-Bretanha num mundo em que a reorganização das potências lhe escapava.

Estes dados são suficientes para perceber que Winston Churchill não se daria especialmente bem numa era sem memória – a nossa -,e numa política de pequenas frases que pretendem resumir, até ao nível mais básico da estupidificação, problemas complexos – o que ouvimos por esse mundo fora todos os dias.» (daqui)

Para saber mais sobre Winston Churchill, clique aqui.

sinais dos tempos?

Quando, há uns tempos atrás, via nos telejornais as notícias de idosos que eram encontrados mortos nas suas casas, sempre pensei que isso era um sinal dos tempos e, principalmente, um mal das grandes cidades.

Por aqui, Almeirim, apesar do crescimento urbanístico que se registou nos últimos anos, ainda existe uma cultura de vizinhança, onde a ausência dos idosos (e não só) é notada e, muito dificilmente, ocorreriam casos desses.

Afinal, parece-me que me enganei!