“cultura de cumplicidade”

Rui-Ramos-300x300«A propósito dos abusos sexuais do produtor Harvey Weinstein, discute-se agora na América a “cultura de cumplicidade” que o teria protegido durante anos. Não deveríamos nós estar a discutir a “cultura de cumplicidade” que parece haver à volta da corrupção e do abuso do poder na democracia portuguesa? Uma cultura feita de indiferença ética, de comunhão na ganância e de um sentimento de impunidade alimentado, de alto a baixo, pela promiscuidade no Estado, pela dificuldade de provar estes crimes e por votações como as de Oeiras.

A justiça dirá se alguém merece multas e prisões; a política deveria dizer outra coisa: se alguém ainda merece a nossa confiança. Não podemos esperar por 2030. A História os julgará? Mas essa é a prerrogativa dos ditadores, como o general Franco, que, enquanto caudilho de Espanha, “só respondia perante Deus e a História”. É assim que os nossos oligarcas também já pensam: que só a História os poderá julgar?» (daqui)

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perguntas incómodas

joão miguel tavares«Chegados aqui, a pergunta que ninguém quer fazer tem de ser feita: ninguém sabia? Há suspeitas que recaem sobre Sócrates desde os tempos da Covilhã e ninguém soube de nada? O Partido Socialista nunca ouviu falar? Aqueles que hoje em dia acham que Carlos Costa foi vesgo e cobarde por não ter corrido mais cedo com Ricardo Salgado não foram vesgos e cobardes no que diz respeito a José Sócrates? Uma acusação sólida não deve servir apenas para arrumar com Sócrates de vez. Ela também deverá obrigar o PS, que hoje anda por aí tão impoluto e tão impante, a assumir responsabilidades políticas e a responder pela sua cumplicidade com o maior desastre da democracia portuguesa. Os elefantes não voam. Foi preciso alguém abrir-lhe a porta da sala e convidá-lo a entrar.» (daqui)

o problema de costa

nuno.encarnacao«Costa tem um problema crónico: a fobia ao caso Sócrates. Teme como ninguém o dia da sua libertação. Não saberá quantos mais ilustres socialistas terão tido envolvimento neste mesmo caso e resolveu instalar no Rato um lava mãos desinfectante, fazendo um raio X da vida de cada um para que possam ser candidatos a deputados.

Está agora Costa preocupado por algum cidadão ter falhado ou não com a Segurança Social, com a entrega do IRS ou com as dívidas ao fisco? Não foram esses os problemas que deram origem às investigações em curso na justiça. Foi muito pior. Só falta ao Dr. Costa exigir que cada um dos candidatos requeira uma certidão de bom comportamento, que alguém o ateste e assegure ser igualmente bom chefe de família e sócio do Benfica e não ter participado em organizações subversivas. Esquece o Dr. Costa que a entrada na política é um acto de responsabilidade, não é a verificação de uma tutela das obrigações. Um parlamento não funciona com a autoridade do mestre-escola.» (daqui)

assunto de regime

assembleia_da_republica_61«A avaliação dos portugueses sobre o caso Sócrates não iliba o ex-governante, mas fundamenta a tese de que os políticos são todos iguais e uma corja que vive à grande, à conta dos pequeninos. Trata-se mais disto do que de focar culpas num único partido.

Aliás, ninguém ignora que em todos os partidos de poder houve casos escabrosos e escandalosos dos quais apenas uma ínfima parte levou a condenações judiciais. Só essa situação gerou uma percepção de que a corrupção é generalizada em Portugal e noutros países, como a Espanha aqui ao lado. E, apesar de tudo, não foi por isso que entre nós as eleições deixaram de ser ganhas em alternância pelos mesmos partidos.

O tema Sócrates não é um caso só do PS. É, na realidade, um assunto de regime que tem fatalmente de mexer com toda a classe política e com os interesses económicos com que esta promiscuamente convive.» (daqui)

a fragilidade da nossa democracia

josé sócrates«Em época eleitoral, a tendência é para tratar Sócrates como um problema do PS. Mas no seu auge, o socratismo foi um fenómeno politicamente transversal, como aliás lembraram os comentários à publicação das gravações a semana passada: a brutalidade com que Sócrates exerceu o poder fascinou a direita reformista, enquanto ele tentou passar por “liberal”, e fascinou a esquerda radical, quando ele se fez “socialista”, depois da crise de 2008 e sobretudo durante a oposição ao actual governo. Sócrates só não entrou na área do PCP. Ninguém em Portugal teve uma visão tão crua do poder. Enquanto primeiro-ministro, quase provou que era possível submeter o país como um todo ao regime típico do pior municipalismo, aquele que fez de algumas autarquias locais o feudo de tiranetes provincianos que tudo controlam e tudo manipulam. Mas se Sócrates nunca foi só um problema do PS, é agora um problema que só o PS pode resolver. Perante a justiça, Sócrates está a tentar passar por uma espécie de sinédoque do seu partido. Na sua pessoa, estariam a ser perseguidos todos os socialistas. Ora, até as condecorações de 10 de Junho aos ex-ministros Teixeira dos Santos e Mariano Gago (a título póstumo) provam que não há conspiração nenhuma contra o PS. Sócrates é o nome da fragilidade da nossa democracia. O regime precisa de se libertar do socratismo, e é o PS que neste momento lhe pode negar o oxigénio político com que ele está a tentar manter viva a sua causa. Ninguém compreenderá se os líderes socialistas não conseguirem dissociar-se da estratégia de defesa socrática. A solidariedade tribal não pode justificar tudo.» (daqui)