à deriva

Rui-Ramos-300x300«Este governo e esta maioria romperam ainda com outra coisa: com tudo aquilo que os partidos que formam a maioria e apoiam o governo tinham dito, aconselhado e exigido enquanto estiveram na oposição. Até Novembro de 2015, PS, PCP e BE pareciam acreditar, por vias diferentes, que os problemas portugueses se resolveriam pondo a economia a crescer, e não equilibrando as contas do país, como pretendia a troika. Eram pelo “investimento público” e pelos “estímulos à economia”. Desprezavam as “metas do défice”. Mais: consideravam a política europeia errada, e achavam que deveria ser contestada e resistida até às últimas consequências. Mas ei-los no poder, e de um dia para o outro o crescimento deixa de lhes importar, cortam o investimento público, e parecem obcecados com as metas do défice. Perante Bruxelas, emitem por vezes uns ruídos anti-germânicos, mas de resto dão a entender que não há problemas. Que significa isto? Por um lado, tudo faz sentido: uma vez no poder, as antigas oposições descobriram que não lhes convinha dispensar o financiamento do BCE. Mas por outro lado, tudo é bizarro: o governo não prepara o país para ser competitivo dentro do quadro do Euro, porque o BE e o PCP recusam reformas, mas também não prepara o país para sair do Euro, porque o PS não aceita a saída do Euro. Limitamo-nos a viver do dinheiro do BCE, à deriva.» (daqui)

Anúncios

cenários e conclusões

«Quando tanto se tem falado da governabilidade, é a ingovernabilidade que nos espreita. E talvez na pior altura. Há pelo menos 2 anos que Cavaco não esconde a preferência por uma solução de consenso, de preferência de governação, entre os partidos de governo tradicionais (PSD, PP e PS). Não o conseguiu em 2013, corre o sério risco de não o conseguir em 2015.

Passos tem tempo. Paradoxalmente, qualquer um dos cenários não lhe é radicalmente desfavorável (talvez por isso mantenha uma atitude calma, quase passiva, na presente circunstância). Ele sabe-o. Um seu governo minoritário, com ou sem acordo com o PS, dificilmente durará a legislatura; mas eleições provocadas pelos socialistas (aos olhos dos eleitores) dar-lhe-ão a probabilidade de uma maioria absoluta. Em caso de governo de esquerda, basta-lhe esperar: o cimento que une os partidos em presença, PS, Bloco e PC, é tão espesso como uma fina camada de orvalho nas manhãs da serra. A hipótese de uma ruptura é mais do que hipótese. E o PSD, sem ter aos olhos do público responsabilidade nessa ruptura terá de novo fortes possibilidades de vencer novas eleições com larga maioria. E o mesmo sucede se o próximo Presidente decidir dissolver a Assembleia e convocar eleições para clarificar o ambiente político (e contribuir para o normal funcionamento das instituições).

Costa já perdeu. Sabe-o. Pode vir a ser primeiro-ministro, mas dificilmente deixará de estar a prazo. Se governar à esquerda estará sempre iminente uma ruptura, quando as exigências do Bloco e (sobretudo) dos comunistas se tornarem insuportáveis, com reflexos públicos e nas instituições. Se apoiar Passos, dificilmente escapa à demissão no anunciado congresso. O referendo interno, caso se realize, poderá salvá-lo? Poder, pode (e só por isso será feito). Mas é pouco provável. E o risco de pasokização do PS, ao contrário do que defendem alguns dos seus dirigentes, está ao virar da esquina.

O Bloco só tem a ganhar. Curioso será ver que pastas sobraçarão os membros do partido, e se farão jus à célebre frase de Clemenceau: “conheci muitos radicais ministros, mas nunca ministros radicais”.

E o PCP? Confesso que não faço a menor ideia.

Sobra o povo português. O que lhe estão a fazer não se faz: depois de 6 anos de demasia socratista e 4 de austeridade (pouco) suave, já merece descanso; e poder beneficiar do esforço e sacrifício que fez com tanta dignidade e coragem (é bom não o esquecermos). Mas à esquina (a outra esquina), espreitam já as agências de rating e os mercados em geral, atentas ao presente deste pequeno, antigo e sábio país europeu.

É caso para dizer: perdoa-lhes, povo, que eles não sabem o que fazem. Ou sabem?» (daqui)

pague quem pagar

antonio_costa3

«O PS sempre foi um partido com uma ala mais centrista e uma ala mais a puxar à esquerda. Sócrates deixou lá dentro uma facção própria que complicou esta antiga arrumação a que todos estavam habituados. Mas com António Costa, o Partido Socialista está inextricavelmente balcanizado: são os socratistas, os alegristas, os seguristas, os galambistas, os soaristas de Mário e de João Soares, alguma “tralha guterrista”, e, surpresa das surpresas, os novíssimos “nunistas”. Sim, nunistas, uma seita ruidosa cujo representante máximo, um tal Pedro Nuno Santos, Costa leva sempre consigo na augusta delegação socialista que peregrina pelas outras sedes partidárias. Galamba há muito que se celebrizou por ser sempre uma espinha cravada da garganta de qualquer moderado. De Nuno Santos só me lembro do momento em que berrou no Parlamento, com hercúlea coragem, “Quero lá saber da Troika ou da Europa!” Pelos vistos, singrou. Finalmente, há pelo menos ainda um grupo de “costistas”. Mas quem são, afinal, os costistas? Indaguei junto dos meus amigos socialistas (que são a maioria). Ninguém me soube dizer ao certo. Concluí, portanto, por minha conta e risco. “Costistas” são todos aqueles que se servem de António Costa para que ele usurpe o poder contra o eleitorado e lhes devolva a “importância”, os “lugares”, as prebendas e o acesso ao “spoils system” a que já se tinham habituado. Uma excepção honrosa cumpre desde já destacar: Sérgio Sousa Pinto não teve estômago para semelhante caldeirada. Demitiu-se ontem do secretariado do PS.

Toda esta tropa heterogéna só perdoará a Costa a hecatombe em que lançou o partido se for transitória e rapidamente invertida. Costa carece do seu apoio para conferir existência coerente ao “costismo” e dispor de novo de um partido submetido à sua autoridade, que aliás nunca chegou a ser indiscutível. Para tanto, precisa de ser primeiro-ministro. Menos um milímetro do que isto já não lhe chega para salvar a sua pele. Pague quem pagar, pague o PS e o País todo. Porque se lá chegar, a história ainda estará muito longe de terminada.» (daqui)