perguntas incómodas

joão miguel tavares«Chegados aqui, a pergunta que ninguém quer fazer tem de ser feita: ninguém sabia? Há suspeitas que recaem sobre Sócrates desde os tempos da Covilhã e ninguém soube de nada? O Partido Socialista nunca ouviu falar? Aqueles que hoje em dia acham que Carlos Costa foi vesgo e cobarde por não ter corrido mais cedo com Ricardo Salgado não foram vesgos e cobardes no que diz respeito a José Sócrates? Uma acusação sólida não deve servir apenas para arrumar com Sócrates de vez. Ela também deverá obrigar o PS, que hoje anda por aí tão impoluto e tão impante, a assumir responsabilidades políticas e a responder pela sua cumplicidade com o maior desastre da democracia portuguesa. Os elefantes não voam. Foi preciso alguém abrir-lhe a porta da sala e convidá-lo a entrar.» (daqui)

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vara nunca esteve na caixa

vitor-rainho«É óbvio que os governos laranja também tiveram responsabilidades no forrobodó da banca portuguesa, esse elefante de papel que parecia sólido como uma rocha impenetrável. Olhando, no entanto, para um passado recente em que o antigo Dono Disto Tudo e o antigo ministro de José Sócrates espalhavam as suas influências, é extraordinário perceber que as baterias estão agora apontadas para aqueles que exigiram a comissão parlamentar de inquérito. Sejamos honestos: ninguém tem a capacidade de inverter a lógica do jogo que alguns socialistas têm revelado.

João Galamba e seus pares aprenderam numa escola onde os laranjinhas ficaram à porta, apesar de alguns insistirem muito para entrar. Percebe-se que a “criançada” que surgiu das jotas procura seguir o caminho daqueles que se tornaram importantes, mas se querem, efetivamente, ter o talento para transformar derrotas em vitórias, sigam antes o exemplo de Galamba. Afinal, Vara nunca passou pela CGD e os laranjas é que emprestaram rios de dinheiro a amigos de Sócrates para assaltarem o BCP…» (daqui)

à deriva

Rui-Ramos-300x300«Este governo e esta maioria romperam ainda com outra coisa: com tudo aquilo que os partidos que formam a maioria e apoiam o governo tinham dito, aconselhado e exigido enquanto estiveram na oposição. Até Novembro de 2015, PS, PCP e BE pareciam acreditar, por vias diferentes, que os problemas portugueses se resolveriam pondo a economia a crescer, e não equilibrando as contas do país, como pretendia a troika. Eram pelo “investimento público” e pelos “estímulos à economia”. Desprezavam as “metas do défice”. Mais: consideravam a política europeia errada, e achavam que deveria ser contestada e resistida até às últimas consequências. Mas ei-los no poder, e de um dia para o outro o crescimento deixa de lhes importar, cortam o investimento público, e parecem obcecados com as metas do défice. Perante Bruxelas, emitem por vezes uns ruídos anti-germânicos, mas de resto dão a entender que não há problemas. Que significa isto? Por um lado, tudo faz sentido: uma vez no poder, as antigas oposições descobriram que não lhes convinha dispensar o financiamento do BCE. Mas por outro lado, tudo é bizarro: o governo não prepara o país para ser competitivo dentro do quadro do Euro, porque o BE e o PCP recusam reformas, mas também não prepara o país para sair do Euro, porque o PS não aceita a saída do Euro. Limitamo-nos a viver do dinheiro do BCE, à deriva.» (daqui)

“um tremendo vazio moral”

Rui-Ramos-300x300«José Sócrates faz o que julga convém aos seus interesses, e naturalmente que convém aos seus interesses criar a impressão de que, no regime, ninguém leva a sério o inquérito judicial, tanto que não se inibem de o cumprimentar, convidar e homenagear. D. Sebastião deveria ter regressado numa manhã de nevoeiro. José Sócrates regressa num crepúsculo de confusão moral. É a complacência da direcção do PS, que se limita a não tirar selfies com o arguido; é a indiferença dos outros partidos, que nada dizem; é a excitação da imprensa, que lá há-de estar para lhe ampliar as lições; é provavelmente o cansaço de toda a gente, que há anos ouve falar de Sócrates e dos seus casos. Chegou a vida pública portuguesa àquele grau de tribalismo em que aos do nosso lado tudo é admitido e desculpado, e a ética na vida pública só se aplica aos nossos adversários? Ou pura e simplesmente já ninguém quer saber de nada, neste cada vez mais óbvio desmanchar de feira, em que uma classe política se prepara para legar aos vindouros não só a enorme dívida de um Estado desequilibrado, mas um tremendo vazio moral?» (daqui)

acabar com o ricos…

joão miguel tavares«“A primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha”, diz Mariana, na esteira de António Costa, que a primeira coisa que fez após as eleições foi efectivamente perder a vergonha e fazer a negociata com uma esquerda radical que – pormenor despiciendo – não acredita no capitalismo nem na economia de mercado. Aquilo a que Mariana chama “perder a vergonha” é a destruição de um consenso quanto a um modelo de regime centrado no respeito pela livre iniciativa, pela propriedade privada, pela intervenção limitada do Estado e pelo projecto europeu. Coisa pouca. Mesmo o consenso em torno do Estado Social era enquadrado pela famosa máxima atribuída a Olof Palme: “Nós queremos acabar com os pobres, não com os ricos.” Ora, o Bloco e o PCP estão muito mais interessados em acabar com os ricos do que com os pobres, até porque foi nessa actividade que a ideologia que perfilham se especializou sempre que alcançou o poder.» (daqui)