o mérito que a história irá reconhecer

«Pedro Passos Coelho pode ser obstinado, não entender que em política é preciso ter jogo de cintura e por vezes desistir de algumas batalhas para ganhar certas guerras, estar demasiado preso às suas convicções. Sobretudo não ter noção dos efeitos das decisões que tomou por não estar disposto a desviar-se um milímetro do caminho que vê como certo (veremos nas próximas semanas quanto outros, nas autarquias, estarão dispostos a moldar os seus princípios e esquecer verdades que até domingo eram absolutas). Mas, diga-se o que se disser, nenhum defeito, erro ou limitação lhe tira o mérito de ter sido o homem responsável por salvar o país no momento mais negro da sua história moderna. Acredito que, num futuro próximo, dizê-lo não dará direito a apedrejamento público, como hoje parece ser inevitável.» (daqui)

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ninguém quer saber do passado (nem do futuro)

225px-Pedro_Passos_Coelho_1«Os erros de Pedro Passos Coelho foram esses. O de projectar o futuro de forma linear – não contou com a cumplicidade do PCP – e o de acreditar que era possível aos portugueses verem a realidade dos problemas que temos e não se deixarem iludir. E assim se transformou naquilo que o próprio designou como a “argamassa” desta solução governativa. Sem o querer, era o ex-futuro líder do PSD que estava a unir o PCP e o Bloco de Esquerda ao PS. Transformaram Pedro Passos Coelho – e Pedro Passos Coelho foi deixando que isso acontecesse — numa espécie de “lobo mau”: se não querem, vem aí a “direita e o corte de rendimentos”. Os resultados das eleições autárquicas, os piores de sempre do PSD, confirmaram que boa parte dos cidadãos sentiam o mesmo: não querem este líder social-democrata que os alerta para os problemas.

Ninguém quer saber do passado como também dizia esta semana na SIC Pedro Santana Lopes. Como também ninguém quer saber do futuro. Cansados de crise, queremos viver o presente. A história agradecerá a Passos o que fez pelo país. Esperemos que os portugueses não tenham também de se lembrar dos avisos que fez. Porque os problemas estão lá, à espera de serem resolvidos para não empobrecermos.» (daqui)

o verdadeiro problema do PSD

Rui-Ramos-300x300«O problema do PSD não é Passos Coelho, mas este: o PS, desde o fim do governo de Cavaco Silva, transformou-se no partido do Estado e das clientelas do Estado, que são, neste como em anteriores regimes, a base do poder político em Portugal. Domina quem, a partir do Estado, tem meios para multiplicar e alimentar bocas. Nos últimos vinte anos, o PSD nunca teve esses meios. Apanhou sempre o lado mau do ciclo da governação, quando, após uma temporada de despesismo socialista, foi preciso congelar e cortar — em 2002 e em 2011. O PS pôde governar sozinho, em maioria ou em minoria, em ambiente geralmente de optimismo e consenso; o PSD teve de governar em coligação, no meio de toda a espécie de crispações. Previsivelmente, o PS emergiu como o “partido natural do governo”, o guardião do “sistema”, o abrigo dos interesses. A aliança de Ricardo Salgado com José Sócrates é a prova mais clara de como os poderes fácticos da sociedade portuguesa reconheceram os socialistas como interlocutores privilegiados.» (daqui)

obtusidade e facciosismo

Rui-Ramos-300x300«A Standard and Poor’s subiu a notação da dívida portuguesa. António Costa já deu os parabéns a Passos Coelho? Não é uma questão de justiça. É uma questão de inteligência. Porque pensar que o país saiu do lixo da Standard and Poor’s porque aumentou os funcionários públicos em 2016, e que o sucesso do ajustamento entre 2011 e 2014 não teve qualquer papel, é uma prova de obtusidade, antes de ser uma exibição de facciosismo.

A ultrapassagem da crise de 2011 não se deveu só a Passos, mas deveu-se muito a Passos. O processo teve várias momentos: o resgate da troika em 2011, que poupou o país à bancarrota imediata; a declaração de Mario Draghi em 2012, que sossegou os investidores internacionais; a firmeza de Passos Coelho em 2013, que garantiu que Portugal não cairia numa cascata de governos, eleições e resgates, como a Grécia; a “saída limpa” de 2014, com a economia a crescer e o desemprego a diminuir; e finalmente, o ano passado, as brutais cativações e cortes de investimento de Mário Centeno, que sacrificou os serviços públicos e o papel do Estado de modo a satisfazer as clientelas do poder sem ferir a credibilidade externa.» (daqui)

a “comida congelada” do PSD

joão miguel tavares«Todos os que aspiram à liderança social-democrata são figuras tão desgastadas quanto ele, e os poucos que não estão tão desgastados ou não querem o seu lugar, ou não têm peso suficiente no partido para ficarem com ele. A tão badalada renovação do PSD é apenas uma revelhação. A oposição mais consistente a Passos oriunda da área social-democrata é aquela que nos meios de comunicação social é liderada por Manuela Ferreira Leite ou por Pacheco Pereira. E que, nos bastidores do partido, é alimentada por Nuno Morais Sarmento ou por Rui Rio. Mas isso seria como substituir um prato que já está frio por comida congelada. E não é apenas congelada por essas figuras terem um passado de pior memória do que o de Passos — o caso de Morais Sarmento é o mais evidente, mas qualquer figura que tenha circulado pelos tristes governos de Durão Barroso e Santana Lopes não pode agora apresentar-se fresco que nem uma alface diante dos eleitores. É também comida congelada no sentido em que a área da social-democracia representada por Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou Rui Rio é oriunda do velho centrão despesista, dependente e excessivamente estatizado, muito mais próximo do pensamento de António Costa do que do de Passos Coelho.» (daqui)