à direita

2013-05-03_joao_marques_de_almeida_2«Um PSD de centro mostraria ainda uma clara incompreensão da mudança introduzida pela geringonça na política portuguesa. Os partidos socialistas e Marxistas juntaram-se para atacar a direita e construir uma maioria de esquerda em Portugal. Mesmo que Rui Rio jurasse, dia sim dia não, que o PSD está no centro esquerda, os partidos da geringonça continuariam a colocá-lo na direita. Se os adversários políticos atacam o PSD por ser de direita, a defesa mais eficaz será afirmar os méritos das políticas de centro direita. E não custa muito. Uma coligação de direita tirou o país da falência, fê-lo regressar ao crescimento económico, combateu a corrupção, recusou as alianças entre os poderes político e financeiro, e além disso, o PSD contribuiu de um modo decisivo para o desenvolvimento económico e para a justiça social em Portugal durante os últimos trinta anos. São mais do que razões para sentir orgulho no legado político do centro direita em Portugal. Para o PSD, a melhor maneira de combater os ataques dos seus adversários não é a negação da sua identidade mas a sua afirmação com orgulho. Por que razão, depois de tudo o que aconteceu em Portugal desde a subida ao poder do governo socialista de Sócrates, só a esquerda continua a ser orgulhosa e a direita está condenada a ser envergonhada? Parece-me que deveria ser exactamente o oposto.» (daqui)

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o dilema do PSD

joão miguel tavares«O desejo de viver num país emancipado do Estado-Papá é abundante e politicamente motivador, sobretudo para quem não vive de rendimentos públicos. Mas não é claro se este pensamento, que também é o meu, consegue ultrapassar as curtas margens de uma elite intelectual, urbana e burguesa, com muita força para mobilizar opiniões mas muito pouca força para mobilizar votos. A verdade é esta: falta testar o liberalismo em tempos de crescimento económico, e é perfeitamente possível que os cortes no intervencionismo estatal só sejam aceites pelos portugueses em casos de absoluta inevitabilidade – como aconteceu com a intervenção da troika –, não correspondendo a qualquer vontade estruturada de modificar o statu quo.

O dilema do PSD é profundo e a tentação das “ambiguidades diluidoras” demasiado forte. Entre um partido ideologicamente diferenciado mas condenado à oposição, e um partido ideologicamente indiferenciado mas com esperança de regressar mais depressa ao poder, duvido que os militantes do PSD optem pela clareza ideológica. Aliás, este é um combate tanto político quanto geracional, com os velhos barões apegados a uma ideia (já meio mitológica) de social-democracia cavaquista, e os jovens turcos a sonharem com uma democracia liberal europeia. Gostava muito que ganhassem os segundos. Desconfio que vão ganhar os primeiros.» (daqui)

o verdadeiro problema do PSD

Rui-Ramos-300x300«O problema do PSD não é Passos Coelho, mas este: o PS, desde o fim do governo de Cavaco Silva, transformou-se no partido do Estado e das clientelas do Estado, que são, neste como em anteriores regimes, a base do poder político em Portugal. Domina quem, a partir do Estado, tem meios para multiplicar e alimentar bocas. Nos últimos vinte anos, o PSD nunca teve esses meios. Apanhou sempre o lado mau do ciclo da governação, quando, após uma temporada de despesismo socialista, foi preciso congelar e cortar — em 2002 e em 2011. O PS pôde governar sozinho, em maioria ou em minoria, em ambiente geralmente de optimismo e consenso; o PSD teve de governar em coligação, no meio de toda a espécie de crispações. Previsivelmente, o PS emergiu como o “partido natural do governo”, o guardião do “sistema”, o abrigo dos interesses. A aliança de Ricardo Salgado com José Sócrates é a prova mais clara de como os poderes fácticos da sociedade portuguesa reconheceram os socialistas como interlocutores privilegiados.» (daqui)

a “comida congelada” do PSD

joão miguel tavares«Todos os que aspiram à liderança social-democrata são figuras tão desgastadas quanto ele, e os poucos que não estão tão desgastados ou não querem o seu lugar, ou não têm peso suficiente no partido para ficarem com ele. A tão badalada renovação do PSD é apenas uma revelhação. A oposição mais consistente a Passos oriunda da área social-democrata é aquela que nos meios de comunicação social é liderada por Manuela Ferreira Leite ou por Pacheco Pereira. E que, nos bastidores do partido, é alimentada por Nuno Morais Sarmento ou por Rui Rio. Mas isso seria como substituir um prato que já está frio por comida congelada. E não é apenas congelada por essas figuras terem um passado de pior memória do que o de Passos — o caso de Morais Sarmento é o mais evidente, mas qualquer figura que tenha circulado pelos tristes governos de Durão Barroso e Santana Lopes não pode agora apresentar-se fresco que nem uma alface diante dos eleitores. É também comida congelada no sentido em que a área da social-democracia representada por Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou Rui Rio é oriunda do velho centrão despesista, dependente e excessivamente estatizado, muito mais próximo do pensamento de António Costa do que do de Passos Coelho.» (daqui)

novo psd?

logo_PSD«Talvez não seja despiciendo relembrar Durão Barroso que, na sua moção de estratégia ao congresso do PSD em Coimbra no ano de 1999, num capítulo intitulado, talvez por mera coincidência, “um novo PSD”, escrevia e com absoluta razão: “O PSD (…) não pode (…) ser confrontado com o facto de a principal oposição à sua política ou estratégia vir, afinal, a ser ele próprio. A autoridade interna no partido é necessária não como privilégio daqueles que, aos diversos níveis, exercem a liderança, mas como indispensável sinal de credibilidade para o exterior.”

Dizer-se que é preciso um novo PSD sem se explicar concretamente o que isso quer dizer ou de que forma se chega a esse patamar de novidade, e o que se quer fazer com ele, é como começar a contar uma história pelo seu fim. Uma prolepse que uma história de um tempo tão fundamental como o nosso é incapaz de precaver. Muito menos a política.» (daqui)