o regresso ao passado

manuel-carvalho«O que está a acontecer vai provocar um aumento desmesurado da despesa rígida do Estado. O destino das contas do Estado voltará a deixar de ficar sob a alçada do nosso controlo e passará a depender da providência das taxas de juros, do crescimento dos nossos parceiros ou da estabilidade política na União Europeia. Voltamos ao passado, como se fôssemos um país estúpido e incapaz de aprender à sua custa dos seus erros. O Governo que até agora tinha conseguido afastar o diabo mantendo um sólido compromisso entre o equilíbrio das contas públicas e a melhoria dos rendimentos dos deslumbrou-se e viajou para a estratosfera.

Com este passo imprudente, António Costa arrisca-se a perder o pé. O eleitorado moderado tenderá a mudar-se para outras latitudes. “A sociedade tem de ter a coragem de assumir os seus problemas”, lembrou uma vez mais Marcelo Rebelo de Sousa, e a sociedade portuguesa teve essa coragem. Quando perceber que o Governo virou a cara aos problemas para garantir o seu confortável “saber durar”, dificilmente lhe perdoará. Como mostraram as eleições de 2015, uma ampla franja dos portugueses perceberam o que se passou. E percebem também o perigo de se encarar o leve alívio na economia como um estímulo ao agravamento da despesa. Sabemos pelos sinais da dívida, do mundo, ou pela fragilidade da economia que a situação recomenda juízo, prudência e paciência para, como tantas vezes acontece na vida, ir melhorando a vida aos poucos.» (daqui)

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o microcosmos de antónio costa

joão miguel tavares«Perante este quadro, ver António Costa apostar em dois amigos íntimos para preencher as vagas provocadas pela demissão de Constança Urbano de Sousa (já agora: a ex-ministra da Administração Interna fez parte do gabinete do ministro da Justiça António Costa) não se pode propriamente dizer que seja uma escolha surpreendente. Ela combina na perfeição com um governo composto por amigos, familiares, ex-subordinados, apparatchiks e fiéis. É evidente que no meio desta longa lista de nomes há gente competente, tal como é claro que “ser filho de” não justifica a desqualificação imediata de quem teve a sorte (ou o azar) de ter um pai ou uma mãe famosos. Convém, contudo, que as escolhas de um primeiro-ministro não coincidam com as fotografias do livro de curso da sua classe de Direito de 1982 sempre que é preciso remodelar. Escolhas tão lá de casa apenas demonstram, para além de qualquer dúvida razoável, que o actual governo é pouco mais do que uma extensão executiva de António Costa, cada vez mais fechado no seu microcosmos e na sua auto-suficiência.» (daqui)

o dilema do PSD

joão miguel tavares«O desejo de viver num país emancipado do Estado-Papá é abundante e politicamente motivador, sobretudo para quem não vive de rendimentos públicos. Mas não é claro se este pensamento, que também é o meu, consegue ultrapassar as curtas margens de uma elite intelectual, urbana e burguesa, com muita força para mobilizar opiniões mas muito pouca força para mobilizar votos. A verdade é esta: falta testar o liberalismo em tempos de crescimento económico, e é perfeitamente possível que os cortes no intervencionismo estatal só sejam aceites pelos portugueses em casos de absoluta inevitabilidade – como aconteceu com a intervenção da troika –, não correspondendo a qualquer vontade estruturada de modificar o statu quo.

O dilema do PSD é profundo e a tentação das “ambiguidades diluidoras” demasiado forte. Entre um partido ideologicamente diferenciado mas condenado à oposição, e um partido ideologicamente indiferenciado mas com esperança de regressar mais depressa ao poder, duvido que os militantes do PSD optem pela clareza ideológica. Aliás, este é um combate tanto político quanto geracional, com os velhos barões apegados a uma ideia (já meio mitológica) de social-democracia cavaquista, e os jovens turcos a sonharem com uma democracia liberal europeia. Gostava muito que ganhassem os segundos. Desconfio que vão ganhar os primeiros.» (daqui)

a “comida congelada” do PSD

joão miguel tavares«Todos os que aspiram à liderança social-democrata são figuras tão desgastadas quanto ele, e os poucos que não estão tão desgastados ou não querem o seu lugar, ou não têm peso suficiente no partido para ficarem com ele. A tão badalada renovação do PSD é apenas uma revelhação. A oposição mais consistente a Passos oriunda da área social-democrata é aquela que nos meios de comunicação social é liderada por Manuela Ferreira Leite ou por Pacheco Pereira. E que, nos bastidores do partido, é alimentada por Nuno Morais Sarmento ou por Rui Rio. Mas isso seria como substituir um prato que já está frio por comida congelada. E não é apenas congelada por essas figuras terem um passado de pior memória do que o de Passos — o caso de Morais Sarmento é o mais evidente, mas qualquer figura que tenha circulado pelos tristes governos de Durão Barroso e Santana Lopes não pode agora apresentar-se fresco que nem uma alface diante dos eleitores. É também comida congelada no sentido em que a área da social-democracia representada por Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou Rui Rio é oriunda do velho centrão despesista, dependente e excessivamente estatizado, muito mais próximo do pensamento de António Costa do que do de Passos Coelho.» (daqui)

um “não” decente

joão miguel tavares«Dizer isto não é isentar de erros Carlos Costa, Cavaco Silva, Maria Luís Albuquerque ou o próprio Passos Coelho. Uma resolução como a do BES é de tal forma complexa, e teve de ser executada com tal rapidez, que muitos erros terão sido cometidos. Além disso, não restam hoje quaisquer dúvidas de que o Banco de Portugal terá compactuado com Salgado durante demasiado tempo, apesar dos inúmeros alertas e do obsceno recebimento de “liberalidades”. Contudo, é muito fácil apontar alternativas depois dos factos consumados. Independentemente de ser possível fazer melhor, o que me interessa sublinhar aqui é esse “não” central, inédito e relevantíssimo ao Dono Disto Tudo, que conduziu à destruição, nas suas próprias palavras, “do nome Espírito Santo”, apagando “das fachadas dos prédios uma marca com mais de 140 anos”. A importância desse gesto não pode ser desvalorizada: a aparatosa queda do BES é a destruição da impunidade mais desbragada e de uma certa forma de fazer negócios, que dominou o país durante pelo menos duas décadas.» (daqui)