demagogia

logo_sns1«Chegados aqui, perguntar-se-á: como pode um deputado abalançar-se a tanto desvario? Bem sabemos que, para as gentes do Bloco, há muito que a pós-verdade é a sua forma natural de estar, tal como sabemos que isso não lhes é cobrado pois são provavelmente a força política menos escrutinada nos jornais e televisões. Mas para chegar a este ponto é necessária a cegueira própria de quem decorou uma cartilha anti-capitalista e a debita sem sequer pensar. Até o PCP tem hoje mais cuidado, como se verifica na forma como, também se opondo às PPP na saúde, não maltrata tão grosseiramente a verdade. Raras vezes se fala das fixações ideológicas do Bloco, mas é bom não esquecer que se sentam à esquerda do PCP no hemiciclo por escolha própria. O radicalismo e o extremismo fazem mesmo parte da sua natureza.

Mas nestas declarações há também uma demagogia populista que em nada desmerece a de Trump, ou de Iglésias, ou Beppe Grillo, ou de Marine Le Pen. Quando Moisés Ferreira diz que “o orçamento da saúde não pode ser uma renda para negócios privados” está a jogar na confusão e na mistificação. Ele sabe que as PPP têm má imagem em Portugal, por causa das PPP rodoviárias e ferroviárias, pelo que trata de meter tudo no mesmo saco. Ele também sabe que falar de “rendas de privados” é tocar num nervo sensível que suscita a imediata indignação. O facto de na saúde não existirem rendas privadas mas prejuízos privados, e de as PPP terem aqui uma natureza muito diferente das do sector dos transportes, é-lhe absolutamente indiferente. Para a opinião pública, só lhe interessa a frase grandiloquente. Para a vida da geringonça só lhe importa colocar pressão sobre o PS. Sem ela o Bloco perde sentido como partido radical, tal como sem ela perde utilidade para os eleitores, que deixam de o distinguir do PS.» (daqui)

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quatro gramas

A propósito da estapafúrdia ideia de reduzir, para metade, a quantidade de açúcar nos pacotes, relembro um texto que escrevi há oito anos quando entrou em vigor a lei que proibia o fumo em espaços fechados.

prazeres«Recordo, a propósito, um livro de crónicas da autoria do médico Eduardo Barroso, reconhecido cirurgião e sportinguista de alma e coração, intitulado “Prazeres”. Quem olha para a capa do livro, reconhece logo a imagem da marca de charutos cubanos “Cohiba”. Ao longo das crónicas, o autor disserta sobre os prazeres da vida: comer e beber bem, fumar bons charutos, as tertúlias com os amigos, os jogos de futebol do Sporting.

A propósito das proibições e do politicamente correcto, lembro-me duma dessas crónicas, que passo a descrever resumidamente.

Frequentador assíduo do restaurante Gambrinus, numa ocasião, ao entrar para jantar, foram-lhe exigidos os resultados das suas análises clínicas. Só assim poderia aceder ao restaurante. Já lá dentro, consultou a ementa e pediu o seu jantar. Foi-lhe recusado, devido aos valores elevados do colesterol. Fez outro… também não podia ser: os triglicéridos não o permitiam. Enfim, o comensal, que se delicia com o prazer de uma boa refeição, acabou por jantar (se a memória não me atraiçoa) um peixe cozido, sem sal. No final, ao puxar duma cigarrilha, foi-lhe dito que não podia fumar. E café nem vê-lo… apenas um descafeinado. Ordens do novo ministro da saúde, Engenheiro Macário Correia.

Acordou e, felizmente, isto não tinha passado dum pesadelo.

Doze anos depois, o ministro chama-se Correia de Campos e parte do pesadelo já é realidade. Ah!!! Já se fala por aí em reduções dos teores de sal na comida, entre outras ideias estapafúrdias de alguém que não tem mais nada que fazer. Espero que, daqui a doze anos, a admissão a um restaurante não seja baseada nas análises clínicas de cada um.» (daqui)

Pelos sinais que nos vêm sendo dados, neste campo, pelas autoridades nacionais e europeias, caminhamos a passos largos para que o pesadelo descrito por Eduardo Barroso seja uma realidade.

Os problemas de saúde decorrentes, entre outros, do tabagismo, do abuso de açúcar ou de sal na alimentação, devem ser combatidos com informação e com políticas de sensibilização e de prevenção. A uso da repressão e proibição só vai fazer com que, neste caso em particular, quem goste do café com 8 gramas de açúcar passe a usar dois pacotes. A não ser que apliquem coimas ou multas aos comerciantes por disponibilizarem mais que um por cada café servido…