um bluff que correu mal

grecia-euro«Para já, temos de ser claros e não ter medo das palavras. O governo grego capitulou em toda a linha. Jogou, ameaçou, fingiu, desafiou, insultou, arriscou e, no fim, percebeu-se que tudo não passou de um enorme “bluff”. O Syriza ameaçou ser a arma de destruição maciça do euro, o bombista-suicida que poderia fazer implodir o euro e uma parte do projecto europeu se as suas condições não fossem aceites. Afinal, a última coisa que Atenas queria era sair do euro. Afinal, a última coisa de que Atenas pode prescindir é do financiamento dos restantes países do euro para sobreviver. Afinal, o único plano económico e financeiro que Tsipras tem desde o início é pedir dinheiro aos mesmos de sempre pelo menor encargo possível. E quando não se tem um plano B, quando não se está verdadeiramente disposto a virar o tabuleiro do jogo e sair porta fora, quando não se sabe o que fazer se aquela negocição falhar mesmo não se coloca a fasquia à altura que Atenas a colocou.» (daqui)

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os lunáticos

«Pobre Grécia. Décadas consecutivas de governos que permitiram a corrupção, alimentaram clientelas variadas e se tornaram representantes de interesses ilegítimos que capturaram o Estado, levando o país à bancarrota. Um resgate financeiro mal desenhado e pior executado, que não resolveu a emergência financeira, apesar de 240 mil milhões de empréstimos e de um perdão de metade da dívida. E agora um grupo de lunáticos legitimamente eleito, que coloca a ideologia extrema à frente dos mais básicos interesses do povo, que em apenas cinco meses voltou a fazer cair uma economia que começava, lenta e dolorosamente, a crescer, que já provocou o encerramento dos bancos e o racionamento de dinheiro, que está a pagar as pensões a conta-gotas, falhou o pagamento ao FMI e lançou o caos num país massacrado.

Já vimos este filme várias vezes, em vários cantos do mundo, em vários tempos. Há radicalismos ideológicos que, de tão iluminados que são, cegam quem tente olhar para eles para lhes ver a virtude.» (daqui)

o egoísmo da oligarquia grega

Bandeiras dos Paises«O poder político na Grécia é um poder fundamentalmente deficitário, tolerante da evasão fiscal e das posições de renda, e que só foi viável até agora através da sua dependência da Europa. Não é uma herança levantina: é o que se desenvolveu na Grécia graças aos subsídios de Bruxelas e ao crédito barato do euro, e que ainda se mantém com os empréstimos dos seus parceiros europeus e do BCE.

A ironia desta história é que a Europa esperou mudar a Grécia, e mudou-a para pior, ao poupar os seus oligarcas à pressão mais efectiva, que não é aquela que consiste em sermões europeus, mas a que provém de contribuintes cansados, credores sem confiança, e empresários e trabalhadores frustrados. As propostas europeias das últimas semanas têm consistido em reformas graduais em troca de liquidez. O Syriza não pode aceitar. Por razões ideológicas? Sim, mas também pelas mesmas razões por que Samaras e Papandreou resistiram a propostas idênticas: porque receia perder poder, isto é, decepcionar aqueles a quem tem servido e enfrentar aqueles a quem mentiu. A oligarquia grega invoca as dificuldades sociais, a soberania nacional ou a democracia. São apenas véus para disfarçar a nudez do seu egoísmo.» (daqui)

tragédia grega

syriza1«Desde que foi eleito, há cerca de seis meses, o governo grego ainda não começou a fazer o seu trabalho: governar. Aquele grupo de intelectuais e “revolucionários” burgueses e urbanos não faz a mínima ideia do que é governar; e a Grécia não tem governo desde o fim do ano passado. Tem um grupo de irresponsáveis que fala muito, queixa-se de tudo e passa o tempo a discutir. A única coisa que não fazem é trabalhar. Nem sequer foram capaz de tomar medidas para combater a corrupção ou a evasão fiscal. Nunca se fugiu tanto aos impostos na Grécia como agora. Mas aprenderam rapidamente os truques dos partidos que sempre atacaram. Por exemplo, dos doze diretores regionais nomeados pelo ministério da Educação, dez são do Syriza e um pertence aos seus aliados nacionalistas. Por outro lado, a economia e a situação fiscal estão bem pior do que há seis meses.  Resultado: nada melhorou; e o que estava a melhorar, piorou (e muito).» (daqui)

a tragédia da esquerda

josé manuel fernandes«A desilusão brasileira é, contudo, apenas a mais recente desilusão das esquerdas eternamente românticas. Aqui pela Europa, nos últimos anos, a sua primeira grande desilusão chamou-se François Hollande. Mal chegou ao Eliseu e se confrontou com a realidade, o socialista esqueceu-se de todas as promessas eleitorais e começou a tratar de fazer – mas enfrentando enormes resistências –, as reformas que tinha prometido combater. O homem que ia fazer frente a Merkel sucumbiu logo nos primeiros embates e a desordem criada na paisagem política francesa é hoje tal que o impensável – uma vitória da Frente Nacional – até já aconteceu, se bem que ainda só numas eleições europeias.

Mas Hollande, dirão os nossos românticos, não era senão “um frouxo”, um típico produto dos partidos socialistas e sociais-democratas que são cúmplices do “neoliberalismo” e demasiado acomodados para transportarem qualquer ousadia de esperança. Havia que encontrar um novo messias, e ele logo surgiu sob a forma de um jovem deus grego, Alexis Tzipras, e do seu Syriza. A sua vitória, garantiam-nos, ir mudar a Europa e “acabar com a austeridade”.

50 dias depois o balanço é quase trágico. A pouca confiança que havia entre a Grécia e os seus credores desapareceu por completo. Por troca com algumas variações semânticas, o governo do Syriza já começou a comprometer-se na Europa com medidas que nem teve coragem de colocar à discussão e votação no Parlamento onde tem a maioria. Agora já se fala abertamente de “suspender ou atrasar a implementação das promessas [eleitorais]”, e todos sabemos como isso pode ser apenas um eufemismo face ao que vai mesmo acontecer. Pior: em poucas semanas o mal feito à economia grega é já enorme, pelo que a recuperação iniciada em 2014 deve estar comprometida. Isto se tudo não acabar de forma ainda mais dolorosa no curto prazo, com uma saída caótica do euro.» (daqui)