um bluff que correu mal

grecia-euro«Para já, temos de ser claros e não ter medo das palavras. O governo grego capitulou em toda a linha. Jogou, ameaçou, fingiu, desafiou, insultou, arriscou e, no fim, percebeu-se que tudo não passou de um enorme “bluff”. O Syriza ameaçou ser a arma de destruição maciça do euro, o bombista-suicida que poderia fazer implodir o euro e uma parte do projecto europeu se as suas condições não fossem aceites. Afinal, a última coisa que Atenas queria era sair do euro. Afinal, a última coisa de que Atenas pode prescindir é do financiamento dos restantes países do euro para sobreviver. Afinal, o único plano económico e financeiro que Tsipras tem desde o início é pedir dinheiro aos mesmos de sempre pelo menor encargo possível. E quando não se tem um plano B, quando não se está verdadeiramente disposto a virar o tabuleiro do jogo e sair porta fora, quando não se sabe o que fazer se aquela negocição falhar mesmo não se coloca a fasquia à altura que Atenas a colocou.» (daqui)

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tragédia grega

syriza1«Desde que foi eleito, há cerca de seis meses, o governo grego ainda não começou a fazer o seu trabalho: governar. Aquele grupo de intelectuais e “revolucionários” burgueses e urbanos não faz a mínima ideia do que é governar; e a Grécia não tem governo desde o fim do ano passado. Tem um grupo de irresponsáveis que fala muito, queixa-se de tudo e passa o tempo a discutir. A única coisa que não fazem é trabalhar. Nem sequer foram capaz de tomar medidas para combater a corrupção ou a evasão fiscal. Nunca se fugiu tanto aos impostos na Grécia como agora. Mas aprenderam rapidamente os truques dos partidos que sempre atacaram. Por exemplo, dos doze diretores regionais nomeados pelo ministério da Educação, dez são do Syriza e um pertence aos seus aliados nacionalistas. Por outro lado, a economia e a situação fiscal estão bem pior do que há seis meses.  Resultado: nada melhorou; e o que estava a melhorar, piorou (e muito).» (daqui)

quem decide?

Rui-Ramos-300x300«Até à vitória do Syriza, não havia modo de testar estes contrafactuais. Agora, há. Se a Alemanha e os países do norte cederem ou parecer que cedem à chantagem grega, António José Seguro, António Costa, o PCP e o BE vão dizer que tinham razão, e que a austeridade poderia ter sido evitada, se Passos tivesse a atitude de Tsipras e Gaspar o estilo de Varoufakis.

Pelo contrário, se Tsipras for derrotado ou parecer que foi derrotado, Passos há-de alegar que Seguro, Costa e os outros estiveram sempre errados e que por outro caminho teríamos encontrado ainda mais pedras, cardos e urtigas.

Ou seja, o debate das nossas eleições legislativas deste ano pode ser decidido na Grécia. O que é pena, porque estaremos assim a escapar à questão principal, que é a de saber como queremos viver: numa democracia pluralista com uma economia aberta integrada numa UE de democracias pluralistas com economias abertas? Ou de outra maneira?

É que Tsipras não é apenas aquele rapaz sem gravata que não queria pagar a dívida grega. Tsipras é o líder da esquerda radical que não hesitou em aliar-se à extrema-direita xenófoba e que elogia a Venezuela de Chávez, onde a oposição está na prisão e as prateleiras estão vazias, como um “modelo” para a esquerda.» (daqui)

federalizar

ScreenShot245Por esta altura, em 2012, já tinha redigido o trabalho final de licenciatura e encontrava-me a preparar a sua apresentação e defesa. Versando sobre o federalismo orçamental e a descentralização política, recordo o seu resumo pela actualidade que mantém, mesmo que já tenham passado 7 anos desde o início da crise.

«No processo de construção europeia, a ideia de federalismo foi sempre recusada pelos sucessivos dirigentes políticos. No entanto, a crise que a Europa vive desde 2008 e a incapacidade dos atores políticos e das instituições europeias em lidarem com a mesma, está a colocar em causa a sobrevivência da moeda única e, consequentemente, do projeto europeu tal como o conhecemos até hoje.

Perante este cenário, algumas vozes têm alertado para a necessidade dum governo económico europeu. Será que os líderes europeus estarão dispostos a adotar o federalismo orçamental como uma possível solução para esta crise? Será esse o primeiro passo para uma integração europeia mais profunda? Estarão os Estados-membros da União Europeia dispostos a abdicar das suas soberanias?»

José Manuel Fernandes escreveu no “Observador” que «só é possível salvar o euro no longo prazo federalizando a Europa, criando mais políticas e mais regras comuns. Tirando poder aos países e dando-o a Bruxelas.». O problema é que uma larga maioria dos políticos europeus, desde o início do processo de construção europeia, com receio dos nacionalismos latentes em cada um dos seus país, nunca teve a coragem de avançar com a federalização da Europa ou, como nos diz Viriato Soromenho-Marques «o federalismo tornou-se num tema quase maldito, ou pelo menos objecto de forte reserva mental em todos os debates políticos»¹.

A questão aqui é saber se os povos europeus, principalmente dos países que fazem parte da Zona Euro, estão dispostos a perder mais um pouco de soberania em troca de pertencerem a uma união monetária?

¹Soromenho-Marques, V. (2008). Federalismo. Obtido em 9 de Julho de 2011, de Dicionário de Filosofia Moral e Política do Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade de Lisboa: http://www.viriatosoromenho-marques.com/Imagens/PDFs/FEDERALISMO.pdf

a dependência dos cidadãos nos Estados e outros assuntos

josé manuel fernandesUm excelente artigo que o José Manuel Fernandes escreveu no “Observador” sobre a dependência dos cidadãos nos Estados, as soberanias nacionais, o crescimento económico, a globalização, as crises (económica, financeira e política), e que vai além (muito além) deste excerto:

«Comecemos pelo caso da discussão sobre o que se passa nas urgências, mas poderíamos também dar inúmeros outros exemplos. A tentação é responsabilizar sempre o ministro. Isso ocorre porque é o mais fácil para os partidos da oposição, ocorre porque em Portugal é sempre o governo (qualquer governo em qualquer época) o culpado ou o herói, mas ocorre sobretudo porque o ministro é o “patrão” de facto dos hospitais e os utentes nunca pensam que são, ao mesmo tempo, os seus “accionistas”. Por isso o caminho da discussão é sempre o mesmo: se algo não funciona é porque “faltam meios”. Nunca é porque houve falhas de gestão, mau trabalho dos funcionários, falta de empenho ou simples incompetência. Aparentemente o ministro até tem de saber se as escalas de férias e folgas dos médicos estão bem feitas, e se estiverem mal feitas, apenas lhe cabe… contratar mais médicos.

Com este ou com qualquer outro governo teremos sempre discussões destas. Num tempo em que o Estado tende a ocupar-se dos cidadãos desde o momento em que eles nascem até àquele em que eles morrem, não apenas regulando a sua vida ao mais ínfimo detalhe – da quantidade de sal nos alimentos ao diâmetro das laranjas, passando pelos nomes que se pode dar a um filho ou pela distância a que um interruptor está do chão –, mas também tratando directamente das suas necessidades elementares, é natural que tudo o que nos corre mal acabe sempre na culpa de um qualquer ministro.

Em sociedades muito dependentes do Estado – em sociedades onde o partido-Estado, para utilizar uma expressão cunhada por Medina Carreira, é largamente maioritário – é natural que olhemos para os governos como responsáveis e responsabilizáveis por tudo. E que queiramos que os governos atendam às nossas mínimas necessidades, algo que os políticos também apreciam, pois quase sempre fazem a sua carreira de promessas de sempre mais e melhores serviços públicos. (daqui)