ironias…

2013-05-03_joao_marques_de_almeida_2«Não nos podemos esquecer que o BE e o PCP estão pela primeira vez no poder, e estão a mostrar ao país a sua verdadeira natureza. Os dois partidos são compostos por verdadeiros profissionais da política. Se for necessário, sacrificam tudo no altar do poder. Mas o episódio Caixa está a testar o profissionalismo dos camaradas. A linguagem corporal da gémea Mortágua e de Louçã, nas suas aparições furiosas na televisão, mostrou tudo. O embaraço é visível, daí o tom de irritação quando discutem a Caixa. Do lado do PCP, o normalmente ponderado João Ferreira garantiu em directo aos portugueses que o seu partido nunca pede a demissão de ministros. Foi embaraçoso assistir ao tamanho da sua mentira, que só poderá ser explicada pela contradição entre o poder e o discurso. Tal como na guerra, a verdade foi a primeira vítima da geringonça. E a mentira tornou-se o método para esconder as contradições entre os três partidos.

Foram essas contradições que em grande medida explicam o modo como a equipa de António Domingues foi contratada. O governo sabia que o BE e o PCP nunca aceitariam as condições acordadas com Domingues, como aliás se viu. Por isso tentou manter tudo em segredo. Quando foi apanhado, fez a única coisa possível: deixou cair Domingues. Toda a gente sabe que Centeno e António Costa aceitaram as condições de Domingues e todos sabem que eles mentiram. A única dúvida é saber se se encontram as provas da mentira.» (daqui)

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demagogia

logo_sns1«Chegados aqui, perguntar-se-á: como pode um deputado abalançar-se a tanto desvario? Bem sabemos que, para as gentes do Bloco, há muito que a pós-verdade é a sua forma natural de estar, tal como sabemos que isso não lhes é cobrado pois são provavelmente a força política menos escrutinada nos jornais e televisões. Mas para chegar a este ponto é necessária a cegueira própria de quem decorou uma cartilha anti-capitalista e a debita sem sequer pensar. Até o PCP tem hoje mais cuidado, como se verifica na forma como, também se opondo às PPP na saúde, não maltrata tão grosseiramente a verdade. Raras vezes se fala das fixações ideológicas do Bloco, mas é bom não esquecer que se sentam à esquerda do PCP no hemiciclo por escolha própria. O radicalismo e o extremismo fazem mesmo parte da sua natureza.

Mas nestas declarações há também uma demagogia populista que em nada desmerece a de Trump, ou de Iglésias, ou Beppe Grillo, ou de Marine Le Pen. Quando Moisés Ferreira diz que “o orçamento da saúde não pode ser uma renda para negócios privados” está a jogar na confusão e na mistificação. Ele sabe que as PPP têm má imagem em Portugal, por causa das PPP rodoviárias e ferroviárias, pelo que trata de meter tudo no mesmo saco. Ele também sabe que falar de “rendas de privados” é tocar num nervo sensível que suscita a imediata indignação. O facto de na saúde não existirem rendas privadas mas prejuízos privados, e de as PPP terem aqui uma natureza muito diferente das do sector dos transportes, é-lhe absolutamente indiferente. Para a opinião pública, só lhe interessa a frase grandiloquente. Para a vida da geringonça só lhe importa colocar pressão sobre o PS. Sem ela o Bloco perde sentido como partido radical, tal como sem ela perde utilidade para os eleitores, que deixam de o distinguir do PS.» (daqui)

à deriva

Rui-Ramos-300x300«Este governo e esta maioria romperam ainda com outra coisa: com tudo aquilo que os partidos que formam a maioria e apoiam o governo tinham dito, aconselhado e exigido enquanto estiveram na oposição. Até Novembro de 2015, PS, PCP e BE pareciam acreditar, por vias diferentes, que os problemas portugueses se resolveriam pondo a economia a crescer, e não equilibrando as contas do país, como pretendia a troika. Eram pelo “investimento público” e pelos “estímulos à economia”. Desprezavam as “metas do défice”. Mais: consideravam a política europeia errada, e achavam que deveria ser contestada e resistida até às últimas consequências. Mas ei-los no poder, e de um dia para o outro o crescimento deixa de lhes importar, cortam o investimento público, e parecem obcecados com as metas do défice. Perante Bruxelas, emitem por vezes uns ruídos anti-germânicos, mas de resto dão a entender que não há problemas. Que significa isto? Por um lado, tudo faz sentido: uma vez no poder, as antigas oposições descobriram que não lhes convinha dispensar o financiamento do BCE. Mas por outro lado, tudo é bizarro: o governo não prepara o país para ser competitivo dentro do quadro do Euro, porque o BE e o PCP recusam reformas, mas também não prepara o país para sair do Euro, porque o PS não aceita a saída do Euro. Limitamo-nos a viver do dinheiro do BCE, à deriva.» (daqui)

“com ferros mata, com ferros morre”

2016-02-05-mariana-mortagua«Há muitos anos, quando foi apeado do poder de primeiro-ministro Francisco Balsemão, um homem que conhece a comunicação social melhor do que ninguém, ele recordou o velho ditado de que quem com ferros mata, com ferros morre.

É uma verdade que ainda hoje se mantém. Quem vive da imprensa e pela imprensa sem ter verdadeiramente uma base sólida de apoio, mas apenas um suporte baseado em estados de alma de uma burguesia urbana e preconceituosa que se reclama de esquerda, sujeita-se a ser vitimado por movimentos pendulares como o que atingiu Mariana e o Bloco.

O que agora sucedeu ao BE dificilmente acontecerá à instituição que é o PCP, que conta com uma base de apoio efetiva e permanente, ainda que desgastada, e que tem uma experiência política incomparável, além de conhecer bem a mentalidade real dos portugueses. Para Jerónimo de Sousa, o tropeção de Mariana foi uma benesse. Mas para António Costa foi mais do que isso. Na realidade, tratou-se quase de uma bênção divina. Acabou-se a superioridade moral. Doravante, o Bloco é um partido de poder e, pior ainda, de governo. Além do PCP, quem mais pode beneficiar com esse novo estatuto do BE é, objetivamente, António Costa e o seu PS, pois, como é sabido, a generalidade dos peixes grandes alimentam-se dos mais pequenos. É assim na vida do mar e, muitas vezes, no terreno da política.» (daqui)

acabar com o ricos…

joão miguel tavares«“A primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha”, diz Mariana, na esteira de António Costa, que a primeira coisa que fez após as eleições foi efectivamente perder a vergonha e fazer a negociata com uma esquerda radical que – pormenor despiciendo – não acredita no capitalismo nem na economia de mercado. Aquilo a que Mariana chama “perder a vergonha” é a destruição de um consenso quanto a um modelo de regime centrado no respeito pela livre iniciativa, pela propriedade privada, pela intervenção limitada do Estado e pelo projecto europeu. Coisa pouca. Mesmo o consenso em torno do Estado Social era enquadrado pela famosa máxima atribuída a Olof Palme: “Nós queremos acabar com os pobres, não com os ricos.” Ora, o Bloco e o PCP estão muito mais interessados em acabar com os ricos do que com os pobres, até porque foi nessa actividade que a ideologia que perfilham se especializou sempre que alcançou o poder.» (daqui)