como compensar uma derrota eleitoral

Paulo Ferreira«Se a cegueira ideológica da extrema esquerda não surpreende, o papel a que o PS se está a prestar neste “trabalho” não deixa de ser lamentável. Sem indústria, sem projectos com dimensão internacional que possam ser estruturantes para alguns sectores, sem unidades que induzam e apliquem a investigação e inovação que se vai fazendo nalgumas universidades, sem uma perspectiva de crescimento para as startups que vão surgindo, vamos ficar cada vez mais dependentes do investimento nómada, aquele que muda de país num estalar de dedos, com poucos custos de instalação. Ou então do turismo, que é ainda mais volátil, como os países do Norte de África podem testemunhar.

Mas sobretudo muito mais dependentes do Estado, das suas ineficiências e corporações que nunca nos levarão a lado nenhum, como já tivemos tempo de aprender.» (daqui)

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retóricas

Paulo Ferreira«A esquerda pode aprovar ordenados de mercado para a administração do banco público que está apenas a fazer a defesa da competência e a remunerá-la devidamente. A direita não pode, porque está a promover as desigualdades e a desbaratar recursos públicos. E o contrário também é verdadeiro. Se a direita quer travar ordenados elevados no sector público está a ser populista. Se for a esquerda, é uma medida decente de uma sociedade que ser quer ainda mais decente.

Se a direita corta despesa corrente do Estado está a destruir os serviços públicos, a degradar a Educação, a Saúde ou os transportes que são uma das conquistas de Abril e uma obrigação democrática. Já a esquerda não faz nunca cortes de despesas, antes faz cativações. E estas são benignas e só demonstram responsabilidade na gestão orçamental.

(…)

Se a direita carrega mais nos impostos indirectos está a prosseguir uma política fiscal cega, já que estes são pagos por igual por ricos e pobres. Se esse aumento é feito pela esquerda, essa regressividade deixa de ter importância e valoriza-se antes que não se aumentem ou se reduzam os impostos sobre os rendimentos, que são progressivos e têm uma função redistributiva acentuada.

Quando a esquerda faz tudo para cumprir os objectivos do défice está a ser responsável e a honrar os compromissos europeus. Quando é a direita, estamos de joelhos perante Bruxelas e a senhora Merkel.» (daqui)

o caminho da perdição

Paulo Ferreira«Dá ideia que, antes de mais nada, o PS está a perder o respeito por si próprio em nome do projecto de poder do seu líder. Mas isso terá consequências para o país. O que se começa a desenhar nada tem a ver com justiça ou progressividade fiscal. É um esbulho ideologicamente motivado que ignora que o principal problema do país é a falta de capital para investir, não é o seu excesso. É a falta de grupos e indivíduos que tenham dinheiro e estejam disponíveis a arriscar para lançar ou apoiar novos negócios e empresas, criando emprego.

Este caminho é um desencentivo à poupança e à acumulação de capital com escala suficiente para se multiplicar. No país de Mortágua e dos socialistas que a aplaudem não há espaço para as Sonaes, as Semapas, as Galps, as Jerónimos Martins, as Iberomoldes e os milhares de empresas que só continuarão a sê-lo se continuarem a investir, a modernizar-se e a aumentar a escala para competir globalmente, porque o país é pequeno em tamanho mas, sobretudo, em sensatez, como se está a ver. E esse investimento exige accionistas com capital, que é coisa muito rara entre nós. A alternativa é o endividamento mas esse já experimentámos. Os socialistas, mais uma vez, sabem o país que deixaram em 2011.

Desincentivar a acumulação de capital e destruir o pouco que resta da confiança dos agentes económicos nas regras do Estado é caminho certo para novo desastre.» (daqui)

a austeridade vai continuar

Paulo Ferreira«Pois é. A tabuada é a mesma para a direita e para a esquerda. Cumprir os limites do défice, como deve ser e o país se comprometeu, obriga a tomar opções duras. Não se pode distribuir o dinheiro que não se tem e a riqueza que não se cria. Durante muito tempo teremos que continuar a ser governados sob o signo do mal menor. E isso significa que a austeridade terá que continuar, embora em doses cada vez mais reduzidas como, de resto, todas as candidaturas prometiam a ritmos diferenciados. E mesmo assim é preciso que tudo corra bem, hipótese cada vez mais longínqua.

O grande objectivo que os partidos da esquerda podem alcançar se vierem a ser governo não é uma mudança radical de política: é o afastamento da direita do governo. O resto há-de continuar, porque não há milagres. E não tardará até ouvirmos que a austeridade de esquerda é muito melhor do que a austeridade de direita. E que um aumento de 1,8 euros nas pensões feito por um governo de esquerda é uma política social enquanto um aumento de 1,8 euros nas pensões feito por um governo de direita é uma política de miséria e empobrecimento. Em política a aritmética é uma ciência muito pouco exacta, como sabemos.» (daqui)

os casos, os casinhos e o que é verdadeiramente importante…

Paulo Ferreira«A campanha eleitoral tem vivido de casos, casinhos e polémicas descartáveis, demasiado virada para o passado e com protagonistas que, tendo responsabilidades no estado a que chegámos, já não fazem parte da solução.

Mas um dia chegará no futuro em que teremos que encarar de frente os desequilíbrios na Segurança Social e no sistema de Saúde, ambos cada vez mais pressionados pela evolução demográfica. Esse será o momento em que a sociedade será confrontada, sem tabus, sobre o nível de financiamento que está disponível para assumir e os benefícios que dele quer tirar.

Podemos ir escondendo o problema debaixo do tapete, pensar que agora vamos ter imensos filhos, que a economia vai florescer, o emprego disparar e viveremos felizes para sempre.

Mas não é isso que a experiência nos tem dito. As crises, imprevisíveis, aparecem ao virar da esquina. E cada uma delas faz aproximar o momento da ruptura em que as receitas deixam de cobrir os encargos.» (daqui)