a nova austeridade

helena-garrido«As já décadas de acompanhamento do Orçamento do Estado permitem concluir que é praticamente impossível que o PCP e mesmo o Bloco ignorassem a estratégia que o Governo estava a seguir. Se não o soubessem por via da análise do Orçamento do Estado – o PCP sempre teve excelentes deputados a analisar o Orçamento – tiveram com certeza conhecimento dos apertos financeiros dos serviços através de militantes ou simpatizantes. Quiseram também eles que a austeridade fosse escondida, como querem que se mantenha escondida toda a estratégia europeia do Governo nas matérias a que oficialmente se opõem.

A política da austeridade escondida altamente ameaçadora dos serviços públicos foi prosseguida pelo Governo mas teve a cumplicidade do PCP e do Bloco de Esquerda. Podem hoje competir pelo pódio de quem defendeu mais a reposição dos rendimentos mas todos estão a ser responsáveis pelo risco a que expuseram os serviços públicos. É aliás extraordinário que aqueles que dizem defender o Estado sejam os que mais o põem em causa.» (daqui)

Neste momento resta-nos apenas desejar que não aconteçam outras tragédias.

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à direita

2013-05-03_joao_marques_de_almeida_2«Um PSD de centro mostraria ainda uma clara incompreensão da mudança introduzida pela geringonça na política portuguesa. Os partidos socialistas e Marxistas juntaram-se para atacar a direita e construir uma maioria de esquerda em Portugal. Mesmo que Rui Rio jurasse, dia sim dia não, que o PSD está no centro esquerda, os partidos da geringonça continuariam a colocá-lo na direita. Se os adversários políticos atacam o PSD por ser de direita, a defesa mais eficaz será afirmar os méritos das políticas de centro direita. E não custa muito. Uma coligação de direita tirou o país da falência, fê-lo regressar ao crescimento económico, combateu a corrupção, recusou as alianças entre os poderes político e financeiro, e além disso, o PSD contribuiu de um modo decisivo para o desenvolvimento económico e para a justiça social em Portugal durante os últimos trinta anos. São mais do que razões para sentir orgulho no legado político do centro direita em Portugal. Para o PSD, a melhor maneira de combater os ataques dos seus adversários não é a negação da sua identidade mas a sua afirmação com orgulho. Por que razão, depois de tudo o que aconteceu em Portugal desde a subida ao poder do governo socialista de Sócrates, só a esquerda continua a ser orgulhosa e a direita está condenada a ser envergonhada? Parece-me que deveria ser exactamente o oposto.» (daqui)

de leitura obrigatória

helena-garrido«Nos duros anos da troika cortou-se despesa pública por todo o lado, sem dúvida. Vivíamos numa situação de emergência financeira em que a alternativa a esses cortes, no quadro em que estávamos, seria o colapso do Estado, ou seja, de toda a sociedade. Com a vertente financeira estabilizada e com o crescimento da economia, o Governo ficou com as mãos livres para fazer escolhas.

Este Governo escolheu gastar a margem financeira que o Estado ganhou na recuperação de rendimentos dos funcionários públicos, dos pensionistas e dos contribuintes. Esqueceu-se que também há pessoas atrás das despesas de funcionamento e de investimento do Estado. Os portugueses em geral que precisam de segurança, de justiça, de saúde, de educação, de transportes públicos.

Com essa estratégia satisfez um vasto segmento da população, o Governo ganhou popularidade e intenções de voto espelhadas nas eleições autárquicas. Simplificou-nos o mundo dividindo-o entre “os maus” do anterior Governo que queria a infelicidade de todos e os “bons”, que agora governam, que nos querem fazer felizes. Infantilizou-nos e nós aceitámos ser infantilizados.» (daqui)

um ponto de viragem

maria joão avillez«Julgo que o Presidente da República, pelas palavras ditas ontem, mostrou ter a clara noção do que tem às costas. Tem o país inteiro. Portugal não sabe para onde virar-se, na sua aflição desnorteada, na sua raiva contida, na sua perplexidade muda. Tardou, é certo. Marcelo Rebelo de Sousa demorou a mostrar-nos que não apreciava o estado das coisas que chocam e enlutam Portugal desde o início do verão mas foi finalmente firme. Quase cortante. Cem mortos são cem mortos e ocorreram no seu mandato. Não podia continuar a esgotar-se em selfies. A dizer que “tudo tinha sido feito” como desgraçadamente o ouvimos dizer em Pedrogão. A refugiar-se nos seus habituais cálculos para ver “para onde isto cai”, ou sequer em esperas de mais um ou dois “relatórios independentes” ( e de que serviram?). E mesmo que a segunda tragédia, pela sua horrível natureza de “repetição”, lhe exija ainda mais abraços (e ainda bem que ele sabe dá-los tão comovidamente) é preciso que o abraço leve consigo a decisão de mais decência e menos falhanço. Que tanto abraço sirva para mais alguma coisa do que o remake de um breve consolo num instantâneo televisivo triste.» (daqui)

“cultura de cumplicidade”

Rui-Ramos-300x300«A propósito dos abusos sexuais do produtor Harvey Weinstein, discute-se agora na América a “cultura de cumplicidade” que o teria protegido durante anos. Não deveríamos nós estar a discutir a “cultura de cumplicidade” que parece haver à volta da corrupção e do abuso do poder na democracia portuguesa? Uma cultura feita de indiferença ética, de comunhão na ganância e de um sentimento de impunidade alimentado, de alto a baixo, pela promiscuidade no Estado, pela dificuldade de provar estes crimes e por votações como as de Oeiras.

A justiça dirá se alguém merece multas e prisões; a política deveria dizer outra coisa: se alguém ainda merece a nossa confiança. Não podemos esperar por 2030. A História os julgará? Mas essa é a prerrogativa dos ditadores, como o general Franco, que, enquanto caudilho de Espanha, “só respondia perante Deus e a História”. É assim que os nossos oligarcas também já pensam: que só a História os poderá julgar?» (daqui)